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Jornalismo

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Sem Rodeios

Jan 26, 2016

Revista Trip - Ano 12 ESQUEÇA TUIUIÚS, ONÇAS, JACARÉS E OS BANHOS DE RIO DA JUMA. ALÉM DA MANJADA FAUNA,...

Sem Rodeios

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Ano 12

ESQUEÇA TUIUIÚS, ONÇAS, JACARÉS E OS BANHOS DE RIO DA JUMA. ALÉM DA MANJADA FAUNA, O PANTANAL TAMBÉM SUPORTA UMA SORTE DE HOMENS RUDES E ESTRANHOS, PERSONAGENS DE UM LADO OBSCURO DA REGIÃO. GENTE QUE BEBE ÁLCOOL ZULU DA GARRAFA, QUE CONHECE O PODER DE UMA FACA, QUE NÃO TEM ENDEREÇO FIXO E QUE PASSA SEMANA SEMANAS NA ZONA. TRIP PASSOU SETE DIAS NO LOMBO DE UM BURRO PARA CONHECER UM POUCO DO PANTANEIRO – ESTE SER EM EXTINÇÃO QUE CONDUZ MILHARES DE CABEÇAS DE GADO DE UM CANTO AO OUTRO DO PAÍS, E QUE PERSONIFICA, NA RAÇA, O IDEAL DE LIBERDADE.

Por Giuliano Cedroni • Fotos Cristian Gaul

“Minha primeira vez foi com uma galinha. Eu tinha uns 7 anos mais ainda me lembro bem; o troço é apertadinho e queima o pau da gente!”, conta no café da manhã, e em um português cantado, uma figura de 31 anos, traços fortes, corpo largo e olhar de criança. Seu nome é José Carlos de Oliveira, mas no estado do Mato Grosso do Sul, especialmente na região mais selvagem conhecida como Pantanal, ele só atende por Sinimbu. Não foi a única vez que Sinimbu – nome dado a um enorme lagarto da região – deitou-se com um animal, prática, aliás, bem comum no interior do Brasil. Éguas, mulas, bezerros e cabritas o serviram durante boa parte da infância e início da adolescência. Mas o fato de ser pantaneiro foi determinante na mais bizarra de suas experiências sexuais: “Essa eu tinha uns 12. Eu e uns amigos pegamos uma jacaroa na beira de um rio, amarramos a bicha e fodemos ela. Essa era geladinha...”

Horas antes de degustar um estranho desjejum – costela de boi com café preto - , Sinimbu e seus colegas aproveitavam as últimas horas de folga num puteiro de quinta de Campo Grande. Completamente “melados” de pinga, ao som de sertanejo do bom, eles se esforçavam para agarrar qualquer mulher no raio de alcance. Quando não está trabalhando, é lá que gente como eles, peões de boiadeiro, pode ser encontrada. O pantaneiro não passa apenas as noitadas em puteiros, como a maioria dos brasileiros, mas faz desses estabelecimentos sua casa de conveniência: quarto, comida e mulher.

Mas agora é hora de curar a ressaca; Sinimbu e seus companheiros têm trabalho. Eles foram contratados para transportar, num prazo máximo de 20 dias, 1.200 cabeças de gado dos confins do pantanal para uma fazenda distante cerca de 250 km. Montados em burros e vestindo couro, sete homens vão dormir ao relento, acordar sempre de madrugada, trabalhar sob o sol mato-grossense, tomar chuva, enfrentar cobras, escorpiões, jacarés, porcos do mato, onças e ladrões de gado, tudo isso enquanto cruzam municípios inteiros administrando o ânimo de centenas de cabeças de gado. Trata-se de uma comitiva de peões de boiadeiro, um profissional raro, errante e em extinção, e que em nada se assemelha aos caubóis mauricinhos que lotam rodeios e festas pseudo-sertanejas da região Centro-Oeste do Brasil. Sem rodeios, ibope ou atuações, ali a cena é verídica.

Burritos S.A.

O dia do pantaneiro começa sempre à noite. Mesmo sem despertador – o peão não usa relógio e sabe as horas pela posição do sol – acorda impreterivelmente às quatro. Enquanto desmonta sua rede, armada a cinco palmos do solo – “o Pantanal é o paraíso das cobras”- , dá-se início a uma rotina que pode durar de uma semana a vários meses: “Participei de uma comitiva em 78 que se arrastou por 125 dias. Trouxemos 1.500 cabeças de gado da Argentina até Goiânia. Una loucura, chico!”, lembra Ivanilton de Souza, o Nenê. Nenhum peão no Pantanal é conhecido pelo nome. Alo impera mesmo o apelido.

Nenê é o cozinheiro, segunda função mais importante da comitiva, perdendo apenas para o condutor. O cozinheiro é uma figura de extrema importância; além de abastecer os estômagos famintos dos peões com uma “dieta-balança” (arroz de carreteiro, feijão, carne, macarrão e, de sobremesa, rapadura), é ele quem monta, desmonta e transporta todo o acampamento em cima de quatro burros de carga. Por isso recebe mais que os outros: R$ 14 por dia – um peão comum ganha apenas R$ 10.

Kitchens

O cozinheiro viaja sempre sozinho. Depois do café da manhã, enquanto seus companheiros iniciam mais uma marcha (dia de viagem durante a boiada), Nenê, sozinho, “veste” os burros de carga com toda a tralha da comitiva: malas dos colegas, lonas, lampião, um saco grande de erva-mate para o tereré (chimarrão servido com água fria), um machado, foice, diversos pedaços de cordas, um fogão portátil a lenha, bancos, panelas, bule, chaleira, pratos e talheres, canecas e galões para água – cada utensílio usado na comitiva possui tamanho e design perfeitos para ser encaixado um dentro do outro, sempre priorizando a economia de espaço. Para ajudar no transporte dos mantimentos, são usados oito “cases” de couro de vaca, feitos artesanalmente e sob medida, que são acomodados sobre o lombo dos burros – cada burro leva um par de “brocas”, nome dado à peça (ver glossário “Outra língua”, no final da matéria). É na “broaca” que se carrega o principal cardápio da comitiva: 80 kg de carne bovina. É de praxe, no Pantanal, a fazenda doar à comitiva uma vaca para abastecer os peões durante a viagem. A cena impressiona: o animal é morto com um pequeno corte certeiro na jugular e, antes mesmo de o bicho morrer, os peões dão início à difícil arte de carnear, que nada mais é do que arrancar o couro e cortar o pobre animal em pedaços. Nas mãos de tries peões experientes, uma vaca desaparece por inteira em menos de uma hora. Em seguida, a carne é cuidadosamente salgada e exposta ao sol por três dias consecutivos. Os pedaços mais ossudos, como a costela, são consumidos primeiro, para aliviar o peso. A partir daí, o produto pode ser armazenado sem qualquer sistema de refrigeração com data de validade de mais de um ano.

Quando Nenê termina, o que leva bons 40 minutos de tremendo esforço físico, a imagem final é de dar gosto a qualquer estrategista de acampamentos da ONU: um kit completo e auto-subsistente, capaz de acomodar com “certo” conforto uma dúzia de homens por mais de um mês, sendo inteiramente transportado com segurança e inteligência no meio de transporte mais adequado à região. Quanto ao solitário Nenê, deverá apressar-se para ultrapassar a boiada com seus burritos, viajar durante horas, escolher um bom local com sombra e água potável – previamente combinado com o condutor - , descer toda a tralha, montar acampamento, cozinhar o almoço e esperar pelos companheiros. Tudo isso para, quando o peão chegar do campo, seco e exausto, encontrar um banquete pronto, um gole d’água fresca e um sorriso materno à sua espera.

Economia de risco

“Tem homem que não merece nem briga para ser morto. Tem que levar tiro é na nuca mesmo.” Este é Aurélio Chaves Garcia, 47 anos, cego de um olho, míope de outro e condutor de comitiva. Apelido: Seu Milionário. Diz que o nome artístico surgiu na época em que trabalhava como cobrador de ônibus de linha em Campo Grande, ao lado de um motorista que muito se parecia com Zé Rico, cantor da famosa dupla caipira. E o apelido cabe-lhe como uma luva. Milionário é um peão que subiu na vida: dono de uma tropa de 21 burros e de toda a parafernália usada na comitiva, é quem negocia com as fazendas, que o contratam por R$ 150 por dia para levar o gado do ponto A ao ponto B. Quantos peões ele vai controlar, qual o valor combinado com cada um, quantos burros vai precisar, o cardápio da expedição, tudo isso é problema do condutor, que também desembolsa do próprio bolso a compra dos mantimentos, assim como o aluguel de pouso nas fazendas ao longo do caminho – curral e pasto para o gado e tropa, respectivamente, custam cerca de R2 20 a noite. Enquanto os peões entram apenas com a mão de obra e o próprio arreio, o condutor, apesar de ser o chefe maior daquele Estado, o general da batalha, o presidente da empresa e a palavra final, é também, o único endividado da história.

“Para ser um bom condutor é preciso saber trabalhar bem, tanto o gado quanto os peões. Além disso, é preciso dominar a técnica da conta”, explica Milionário, montado sobre Servo, seu burro mais fiel. Momentos antes da comitiva deixar os limites da fazenda o condutor participa de uma metódica contagem do gado juntamente com o capataz da fazenda, pessoa de total confiança do proprietário. Nesta empreitada, por exemplo, o dígito bateu em 1.191 cabeças. Este é o número exato que Milionário deverá entregar dali a 20 dias em outra fazenda, do mesmo proprietário, onde o gado passará por um período de engorda para finalmente ser enviado para a última das viagens: o frigorífico.

Se porventura alguma vaca mais velha e fraca não conseguir continuar a viagem, algo bem comum em comitivas, o condutor deverá deixa-la na fazenda mais próxima e retirar um recibo, para que seu cliente possa busca-la de caminhão alguns dias mais tarde. Mas se alguma padecer de exaustão, picada de cobra ou ataque de onça e simplesmente não resistir, algo bem menos comum, cabe ao condutor arrancar-lhe o pedaço de couro onde está gravada a marca da fazenda, e entregar ao cliente o estranho artefato juntamente com os recibos. Agora, se o gado estourar e fugir, é o condutor quem terá que pagar, do próprio bolso, cada cabeça desgarrada. E para se ter uma ideia do risco e responsabilidade do cargo, basta dizer que, se uma única vaquinha passar desapercebida em meio a um arbusto mais fechado e assim fugir da boiada, Milionário terá prejuízo em toda aquela viagem, já que uma vaca no Pantanal vale cerca de R$ 250.

Esquema tático 1 x 2 x 2 x 1

Em qualquer empresa, cada funcionário tem uma posição estratégica no todo, com responsabilidades proporcionais ao cargo. E na comitiva do Pantanal não é diferente. O desenho de uma empresa itinerante como essa, vista de cima, assemelha-se a um time de futebol.

Na frente está o “ponteiro”, espécie de centro-avante, figura impressionante que deve impedir, no braço e no grito, o estouro do gado. Mas, além de brecar toda a força dianteira da boiada, é ele quem deve guiar a comitiva no rumo certo. “conheço tudo por aqui, não preciso de mapas nem nada. No Pantanal já viajei mais que notícia ruim”, diz Divino, 50, na estrada desde os 12, e que, além das ferramentas convencionais de trabalho, carrega e aciona, quando necessário, o famoso berrante. Em sua boca, o berrante soa como um mantra tibetano. Um som grave avisa ao gado que é hora de posicionar-se para iniciar mais uma jornada.

Atrás de Divino estão os dois “fiadores”, espécie de ponta-esquerda e ponta-direita. Sua função é afunilar o gado sem deixar que se espalhe demais para os lados. Qualquer cabeça que desgarre para fora dos limites da boiada – e isso acontece sempre – deve ser trazida de volta pelos “fiadores”. “No fundo, somos todos uns românticos à procura de um par de braços cheirosos e uma boca carnuda”, desabafa Ramón Mendez Marias, o Champrinha, um negro de 32 anos com aparência de 50. Apesar de não praticar em serviço, Champrinha desenvolveu uma maneira toda especial de tocar o berrante: sopra notas agudas e melancólicas neste misto de ferramenta e instrumento, fazendo-o soar como um afinado trompete de um triste álbum de jazz. Bastou descobrir que Champrinha, além de negro e criativo, não vive sem alteradores de estado – em seu caso, qualquer bebida altamente alcoólica (ele bebe copos inteiros de álcool Zulu fazendo cara de “quero mais”) -, para que fosse prontamente batizado pela reportagem de “Miles Davis do Pantanal”. (Gravações de alguns dos melhores solos de Champrinha podem ser ouvidas no site da TRIP: www.revistatrip.com.br)

Mais atrás vão os dois “chaveiros”, que certamente seriam chamados por Luxemburgo de laterais esquerdo e direito. O “chaveiro” tem função parecida com a do “fiador”, com a diferença que trabalha mais na retaguarda do time, ou melhor, da comitiva. Diferença, aliás, que acarreta em drástica mudança no trato com o gado: ao invés de brecar o ritmo da boiada dianteira, o “chaveiro” passa a dar ritmo no gado mais fraco e lento, que para a todo momento para comer e descansar: “Boa comitiva é aquela em que o gado não para nunca, que vai comendo, bebendo e andando, sempre devagar mas em movimento”, ensina Cozido, lateral-direito, único que não bebe e, por isso mesmo, um dos peões mais procurados pelos condutores do oeste brasileiro.

E por fim, há o próprio condutor. Meio goleiro, meio zagueiro, vem atrás de todo mundo, arrastando o gado retardatário. É o único que possui visão geral da comitiva, algo extremamente importante para quem transporta país a fora quase 300 mil reais ambulantes que não lhe pertencem. De todos, é o menos brincalhão. Fala pouco, sempre através de ordens secas e diretas. Carrega nos olhos deficientes o peso de ser o único realmente preocupado dentro de uma turma de voyeurs, boêmios e junkies; no fundo, é isso que são os peões do Pantanal.

La garantia soy yo

“Já furei dois homens na minha vida: um acabou no hospital mas não morreu. O outro foi na zona. Eu tava bêbado, subi em cima do colo dele e desci a faca no peito do desgraçado”, confessa Sinimbu, enquanto gira sobre a cabeça uma estranha corda metálica que lembra uma arma da era medieval. E completa: “Mas o sujeito tinha tanta sorte que a porcaria da faca bateu no osso do peito e quebrou. Ele saiu correndo dali só de Zorba”, diz, às gargalhadas, enquanto finaliza a frase descendo o ferro na vaca mais próxima.

O arreador, como é chamado, é a ferramenta mais usada pelo pantaneiro. Espécie de chicote, a peça tem um cabo de osso como manopla, seguido de três metros de corrente de ferro, um metro de couro torcido, um metrô de couro liso e, na ponta, uma cordinha de náilon trançado. Quando estralado no ar, o náilon emite um som alto e seco, igual ao de um tiro de revólver. O peão passa o dia inteiro mirando o arreador nas ancas, barrigas e cabeças dos bois, vacas e bezerros, forçando-os a obedecer de imediato suas ordens. Quando, por erro de cálculo, o golpe acerto o olho do quadrúpede, o globo ocular salta da órbita, deixando um buraco na cara do pobre animal. A geometria que a corrente desenha sobre a cabeça do peão, seguida do movimento brusco e do forte som, parece vir de um prolongamento de seu braço. “Uma vez só vi uma briga de arreadô. Cada um em seu burro, um olhando pro outro...até que bastou o primeiro golpe para acabar com o duelo. Isso aqui é uma arma”, declara Divino. E de armas eles entendem.

Todo pantaneiro carrega nas costas uma faca de proporções açouguerianas. Ela serve pra tudo, desde aparar o alimento no prato e carnear um boi, até mesmo dar cabo na vida alheia. De tão comum na região, o “talher” já faz parte da vestimenta local. Imagine acordar todas as manhãs e, ao invés de botar a carteira no bolso, meter um facão nas costas. Assim é como peão de boiadeiro, que carrega sua “guinzo” a todo lugar, incluindo banheiros, bares, camas e redes.

Como não poderia deixar de ser, armas de fogo têm trânsito livre no Pantanal. Todos “frios” e sem registro, os revólveres fazem parte da cultura do macho. Quem não tem ou é moço novo, ou não é de lá. Nem todos, porém, o usam à vista, dependurado na cintura como caubóis exibidos. Preferem esconder a arma no arreio, para só buscá-la quando não lhes restar outra opção. Nenhum dos peões da comitiva de Milionário tinha sequer ouvido falar sobre projetos de lei de desarmamento no Brasil. Quando indagados sobre seus antecedentes criminais, desconversaram habilmente. Mas seu olhos delatavam: de um jeito ou de outro, o pantaneiro se garante.

Outsiders

O pantaneiro é uma figura discriminada na sociedade onde vive. Pelo povo da cidade, é visto como homem tosco, rude e ignorante. Pelo povo da fazenda, é tido como um sem-lei, uma ameaça à segurança de suas famílias. Quando o pantaneiro passa a noite nas fazendas, é colocado bem afastado da sede e das casas dos peões locais. Filhas e esposas são recolhidas e recebem ordens de não dar atenção aos visitantes. Mas nem por isso o pantaneiro deixa de exercer curiosidade e fascínio sobre as mulheres.

“Durante a comitiva, é só trabalho, de manhã, de tarde, de noite, de sábado e domingo, no sol e na chuva. Mas, quando termina, a gente só quer saber de beber e amar”, diz Champrinha, que, mesmo sem saber, faz das comitivas sua clínica de reabilitação. Enquanto está trabalhando, quase não bebe, alimenta-se bem e trabalha o corpo – além de não gastar um tostão. Mas quando chega na cidade, com o arreio a tiracolo – geralmente o único patrimônio do pantaneiro -, vai direto pra zona, levando no bolso todo o dinheiro que tem no mundo: exatamente o que recebeu em seu último trabalho. Quando a verba acaba, mete-se na primeira comitiva que encontra, dando assim continuidade a este incrível ciclo.

No final do milênio, e à espera de alguma grande mudança vinda do além, o homem moderno mostra-se cada vez mais frágil e distante do mundo externo. Mora em condomínios, dirige carros blindados e usa a internet como desculpa para não ter que sair do quarto para conhecer o mundo. Sabe ler, mas não procura nada de útil nos livros. Fala muito, mas diz pouco. E encontra, na rotina calculista, o esconderijo perfeito para evitar surpresas que possam atrapalhar a simetria de sua vida planejada. Enquanto isso, cabe a homens analfabetos e selvagens, como os peões boiadeiros do Pantanal, viver intensamente cada amanhecer, cada banho de rio, cada trago de pinga, cada suspiro feminino. Eles exercem, diariamente, algo que o mundo inteiro almeja mas poucos conquistam: a verdadeira liberdade.

CHAMPRINHA (FIADOR)

JAQUETA NÁILON ZAPPING –

R$ 88,00

LONG NECK

Ramón Mendes Marias, o Champrinha, trabalha como “fiador” de comitivas. Nas horas vagas, encharca o esqueleto de pinga. Quando esta acaba, Champra não se intimida e entorna garrafas inteiras de álcool Zulu: “Funciona igual, quer provar?”

SINIMBU (FIADOR)

CAMISA JEANS TIMBERLAND –

R$ 60,00

O HOMEM QUE NÃO EXISTE

Meio branco, meio índio, Sinimbu não tem RG nem qualquer outro tipo de documento que prove sua existência no mundo civilizado. Não sabe ler palavras, nem dinheiro. A ponta do dedo indicador ele perdeu ainda quando criança, aprendendo a mexer com o laço.

COZIDO (CHAVEIRO)

JAQUETA JEANS LEE –

R$ 85,00

CALCA JEANS COLCCI –

R$ 65,00

PERNA QUEBRADA

Gildemiro Francisco Terra, o Cozido, sofreu um acidente dias depois de posar para este retrato. Num rápido vacilo, sua mula caiu, aterrissando sobre sua perna esquerda. Cozido teve que resistir a três dias de comitiva com o membro quebrado, montando em burro e dormindo em rede, até chegar numa estrada e pegar carona para a cidade mais próxima.

NENÊ (COZINHEIRO)

CAMISA WRANGLER –

R$ 49,00

BURRO FORTE

Para suportar o tranco da comitiva, só mesmo burros e mulas. Mas dentre todos os perigos que o peão enfrenta, é justamente sua montaria que oferece maior risco: “Sempre que o burro vê uma oportunidade, ele te derruba. Aí é só esperar pelo coice”, ensina Nenê, o cozinheiro.

MILIONÁRIO (CONDUTOR)

CAMISA JEANS COLCCI –

R$ 60,00

STATUS

Argolas de latão têm valor de moeda no Pantanal: a pequena vale R$ 3, a média, R$ 5, e a grande, R$ 10. Podem ser usadas em diferentes assessórios no arreio e ferramentas do peão, dependendo de seu caixa. Aqui, Milionário, o condutor, exibe parte de sua riqueza.

PAPAGAIO (CHAVEIRO)

CAMISETA HERING WORLS T-SHIRT –

R$ 14,50

GUINZO

O pantaneiro carrega uma única faca, ela o serve pra tudo: “Pra calar homem desbocado, inclusive”, diz Papagaio, que abandonou a comitiva depois de se desentender com um colega.

DIVINO (PONTEIRO)

CAMISA JEANS WRANGLER –

R$ 39,00

JAQUETA SILVERTAB –

R$ 240,00

FALCON (OLHOS DE ÁGUIA)

A posição inclinada do chapéu do pantaneiro não é frescura de caipira. De cima do burro, o peão tem seu ângulo de visão cortado exatamente na linha do gado, o que o ajuda a “focar somente naquilo que interessa”. Quanto às cicatrizes na face, Divino jura que foi resultado de um tombo de burro. Já um colega de outras comitivas, conta que a marca surgiu numa noitada de sexo, álcool e sertanejo.

“Você não sabe o que é uma prostituta vingativa, com uma garrafa na mão, é capaz”, diz o amigo.

OUTRA LÍNGUA

Uma introdução à gramática do pantanês

ARREADOR – ferramenta de trabalho do peão de boiadeiro usada para tocar o gado. Feito de osso de animal, corrente de ferro e couro, o arreador é responsável por dar ritmo à boiada. Não existe modelo industrial; cabe ao peão produzir seu próprio arreador.

BROACA – caixa tipo “case”, feito de couro de boi e que serve para carregar toda a tralha da comitiva em cima do lombo dos burros.

CARNEAR – verbo usado para a prática de tirar o couro da vaca morta e cortá-la em peças gastronômicas: lombo, maminha, picanha etc.

CHUMAÇO – cueca

CHUMAÇO QUEIMADO – cueca bastante usada e que revela “brecadas” na parte traseira e inteira

DOBRO – mala de couro com roupas, rede e pertences pessoais do peão

“ESTOURO” – pavor maior do peão de boiadeiro, é usado para definir o ato de dispersão aleatória e descontrolada do gado que desembesta a correr como se estivesse no Jóquei, ignorando matas, arbustos, rios e até mesmo cercas de arame (farpado ou não). Isso pode acontecer graças a uma cobra, enxame de marimbondos ou qualquer outra coisa que assuste a boiada. Pode também acontecer graças à simples incompetência dos peões em administrar o ânimo do gado. Após um “estouro”, pode-se gastar horas, dias ou até mesmo semanas tentando reunir toda a vacada novamente: algo que quase nunca acontece, o que acarreta no fracasso imediato daquela comitiva.

MARCHA – um dia de viagem durante uma boiada

MATULA – vaca escolhida para ser sacrificada e transformada em fonte de energia para os peões durante a comitiva

TREMPI – fogão a lenha portátil anti vento ou chuva

VÉIO – refeição matinal feita da mistura dos restos da janta servida na noite anterior. Não importa se há macarrão, feijão, carne, arroz e mandioca – tudo vai para a mesma panela com um punhado generoso de banha fresca. Um must da culinária pantaneira! Calorias: 50 mil.

ZORBA - cueca

O rei está nú

Jan 26, 2016

Revista Trip - Ano 10 | Nº 57 | Pags. 30 a 52 ERA ÓBVIO. ALGUÉM DEVIA TER FOTOS DO...

O rei está nú

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Ano 10 | Nº 57 | Pags. 30 a 52

ERA ÓBVIO. ALGUÉM DEVIA TER FOTOS DO REI PELÉ PRATICAMENTE INÉDITAS. FOTOS DA INTIMIDADE DO MAIOR JOGADOR DE FUTEBOL DE TODOS OS TEMPOS, FOTOS DELE MENINO, ÍNTIMAS. POIS OS IRMÃOS HERRERA, VETERANOS FOTÓGRAFOS DE SANTOS, TINHAM. DURANTE ANOS ELES ACOMPANHARAM A TRAJETÓRIA DE PELÉ E FORMARAM UM ARQUIVO FANTÁSTICO QUE SÓ AGORA VEM À LUZ, VIA TRIP, SÓ PRA VARIAR. EU, CONFESSO, JAMAIS TINHA VISTO NENHUMA DESSAS FOTOS

Reportagem Giuliano Cedroni e Morris Kachani • Texto Juca Kfouri • Fotos Raphael e José Herrera

1. Esse menino sorridente acima, ou este jovem compenetrado vestindo a gloriosa jaqueta santista, saiu por aí ao lado de craques como Coutinho e Dorval, não cantando Only You, como parece, ou só fazendo anúncio de refrigerante. Nada disso. Pelé fez da bola sua melhor arma, superou a fama da Coca-Cola, e mandou o fuzil para escanteio porque o negócio dele sempre foi a paz. Artilheiro sim, mas de chuteiras.

2. De cabeça para baixo o mundo foi ficando a partir de 1957, quando ele estreou na Seleção Brasileira. Nas Escola de Educação Física deu os toques finais a um corpo talhado para o esporte. Segundo Paulo Amaral, preparador das seleções de 1958 e 1962, se Pelé se dedicasse ao atletismo, teria sido recordista mundial dos 100 metros. E se orientasse sua agressividade para o crime, seria um dos bandidos mais terríveis do país. Pois seu único crime foi o de não jogar no Corinthians...

3. De cabeça para cima, subindo sempre, ultrapassando limites até então desconhecidos pelo homem do campo de futebol. Cinco vezes campeão mundial, três com a camisa verde-amarela do Brasil, duas com a camisa branca do Santos, 1.279 gols, recorde documentado, duas vezes campeão da Taça Libertadores da América, onze vezes campeão paulista, onze vezes artilheiros do campeonato estadual, 97 gols em 115 jogos da Seleção Brasileira.

4. Se futebol não se aprende na escola, dirigir é diferente. O DKM teve a honra de ser o primeiro guiado por Sua Majestade, que se não chega a ser nenhum Ayrton Senna, gosta de dizer que jamais deu uma batida. Verdade que anda de motorista para cima e para baixo...Sempre com a bola na cabeça, mesmo quando carrega a primeira filha, Kelly Cristina, nos ombros, ou quando exercita seu lado carnavalesco, o fato é que uma coisa Pelé nunca conseguiu aprender: a nadar.

The king is gome but he’s not forgotten

Se nos anos 60 existisse videoclipe, os irmãos Herrera teriam junto aos seus guardados uma meia dúzia de prêmios. Como na época o ferramental se resumia a um Rolleiflex, coube à nossa redação editar frame a frame as imagens real life que você vê nas próximas 14 páginas. As legendas e comentários passaram pelo crivo do mestre J.K. Quanto ao título, o rei posto a que se referia Neil Young é, obviamente, o senhor de óculos escuros e gravata da foto abaixo.

1. Poder. É disso que trata esta foto. Enquanto uns usam armas e tanques para tomar países inteiros, impondo ditaduras violentas que se arrastam por décadas, outros abusam de dons naturais não menos eficazes. Aqui, Pelé conquista mais um território ao receber a chave de Kinshasa, capital do antigo Zaire, das mãos do ex-ditador Mobutu, recentemente deposto. É a única foto de todo o ensaio que não foi feita pelos Herrera. Foi descoberta por TRIP em meio à pesquisa do arquivo dos fotojornalistas e incluída nesta reportagem com a autorização de ambos.

2. No gramado da Vila Belmiro, José Herrera flagrou um Pelé descalço e compenetrado em suas primeiras lições de judô. Sua imensa simplicidade aparece aqui representada pela faixa branca.

3. A vaidade sempre fez parte de sua vida. Seja no topete exclusivo ou no corte de seus paletós. Mas como representar o símbolo máximo do esporte mais popular que existe ignorando a própria aparência? Ao lado de sua primeira mulher e da filha, ou trocando ideias nas ruas de Santos, ele apresenta o vai-e-vem da moda. Prova de que poderia ter sido rei também das passarelas.

4. Capa de revista francesa durante visita do Santos F.C. à Europa (1); excursionando  na Itália (2); provando o produto do Instituto Brasileiro do Café (3); chavecando aeromoças em Paris (4); contundido na Copa do Chile, em 1962, ao lado de Jair Marinho (5); mais uma das eternas entrevistas (6); olho no olho com o amigo e gênio Garrincha (7); o preço da fama após a conquista do campeonato mundial pelo Santos (8)

5. Alimentando o afilhado em Santos (9); sendo carinhoso com uma alemã (10); vestindo um chapéu turco em recepção na prefeitura de Santos após conquista do campeonato mundial (11); fazendo a alegria dos plebeus (12); ao lado dos pais e da irmã em entrevista ao célebre jornalista esportivo De Vaney (13); coroação do rei (14); doente e recebendo visita de Paulo Machado de Carvalho 915); recebendo a camisa da seleção paulista do mesmo P.M.C (16); assinando o primeiro contato com o Santos, em 56 (17); primeiro dia de treino de um moleque vindo de Bauru, na Vila Belmiro (18)

6. Enquanto o mundo inteiro o persegue, procurando desvendar os segredos do maior gênio do futebol, ele simplesmente desaparece de cena. E reaparece sozinho e tranquilo, pescando na lagoa da fazenda Nicolau Moran, local de concentração do time santista em São Bernardo do Campo, SP

7. Momento decisivo na vida de muitos jovens, o vestibular é o mesmo para todos. E por isso mesmo exige concentração, seriedade e sangue frio – requisitos que sempre estiveram presentes no coração desse estudante. Imagem histórica do Rei prestando vestibular para a faculdade de Educação Física

8. Com um olho no futuro e outro no presente, o garoto de Três Corações conquistou pouco a pouco sua maturidade. Quando ficou claro que o trono do futebol mundial lhe pertencia, Pelé pode então embarcar em outras viagens. Acima, saboreando o gosto de ser pai com sua primeira filha, Kelly. Abaixo, desfrutando a fama que Deus lhe deu entrevista à TV Tupi, em 1968

9. Seu olhar não mudou com o passar dos anos. A vida sim. Veio outro casamento, outros projetos e a certeza de que ser Rei significa também conviver  com alguns sacrifícios. Seja jogando sinuca na pensão de Santos ou exibindo um presente da última viagem à Alemanha, Pelé já desfruta de momentos cada vez mais raros de privacidade.

10. Muitos foram os que tiveram o privilégio de conviver com Pelé nos tempos em que Santos borbulhava através de suas boates e cassinos. Mesmo sendo o grande responsável pela projeção do time da cidade no cenário do futebol mundial, ele ainda achava tempo e disposição para curtir os anos dourados. E para nossa sorte, os Herrera registraram tudo. Desde uma chuveirada pré balada passando por aulas bem particulares de bateria, até os passos na pista de dança de quem sempre soube o que fazer com as pernas.

11. Presente de uma aeromoça alemã (1); com Coutinho e Dorval e a taça Tereza Herrera (2); saindo de campo machucado (3); mais um treino na Vila (4); a disputa por um autógrafo (5); encontro de craques do Santos e do Botafogo (6); apenas um café (7); Raphael Dias Herrera em ação. À direita, a imagem que simboliza anos de trabalho fotojornalístico dos irmãos Herrera: um dos maiores homens do século passando um cafezinho com a simplicidade de um mortal qualquer

O Oscar Brasileiro

Jan 26, 2016

Revista Trip - Ano 14 | Dezembro 2000 / Janeiro 2001 Por Giuliano Cedroni, José Sacchetta, Paulo Lima, Pôla Pazzanese...

O Oscar Brasileiro

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Ano 14 | Dezembro 2000 / Janeiro 2001

Por Giuliano Cedroni, José Sacchetta, Paulo Lima, Pôla Pazzanese e Rafic Farah • Fotos Christian Gaul • Ilustrações Oscar Niemeyer

OSCAR NIEMEYER TEM 93 ANOS, MAS ESSA NÃO É A MANEIRA MAIS ADEQUADA DE DIZER QUE ELE VIVEU MUITO. MELHOR SERIA LEMBRAR QUE O ARQUITETO MAIS IMPORTANTE DO BRASIL CONSTRUIU A CAPITAL DO PAÍS, A PAMPULHA MINEIRA, O SAMBÓDROMO CARIOCA, O MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA PAULISTANO E OUTRAS CENTENAS DE PROJETOS ESPALHADOS PELOS CINCO CONTINENTES. MAS A DEMONSTRAÇÃO MAIS CLARA DE QUE ESSE QUASE CEM ANOS FORAM BEM-VIVIDOS É DADA PELO PRÓPRIO NIEMEYER: “ARQUITETURA É PASSATEMPO. A VIDA É MAIS IMPORTANTE”. 

“O QUE ME DÁ PRAZER HOJE? ENCONTRAR OS AMIGOS” – Oscar e seu João, amigo de longa data, no escritório do arquiteto em copacabana, no rio. às 11:30 da manhã de uma 3ª feira

Oscar Niemeyer não aguenta mais dar entrevistas. Aos 93 anos, o construtor de Brasília tem uma filha, 5 netos, 11 bisnetos e 2 tataranetos, e trabalha diariamente em seu escritório na cobertura de um prediozinho verde-claro, de fachada curvilínea, na orla de Copacabana. Lembra uma pequena onda num mar de edifícios ostensivos. Carioca e comunista convicto – Fidel Castro já disse que ele e Niemeyer são os dois últimos comunas do mundo -, o arquiteto é m crítico feroz do sistema capitalista e da sociedade de consumo, defende a revolução socialista e diz que sempre esteve do lado dos pobres. Apesar da perseguição política de que foi vítima, incluindo um período no exílio, Oscar Niemeyer nunca deixou de ter seus projetos de arquitetura aprovados no Brasil. Nem mesmo no auge da ditadura militar que se instalou em 1964, na capital recém-inaugurada.

O tempo vivido fora do país aumentou a popularidade do arquiteto, que fincou obras em cinco continentes, tornando-se um dos brasileiros mais conhecidos de todos os tempos. Entre as suas construções mais célebres estão a sede das Nações Unidas, em Nova York, a Catedral de Brasília e os palácios da alvorada e Itamaraty. Em São Paulo, Niemeyer projetou o parque Ibirapuera e o Memorial da América Latina; no Rio, o Sambódromo ; em Belo Horizonte, a Pampulha.

A diversificação de seus trabalhos é impressionante e inclui igrejas, mesquitas, hotéis, hospitais, museus, universidades, fábricas, ponte em Veneza, aldeia no deserto de Israel, pirâmide invertida na Venezuela, a sede do Partido Comunista Francês, Cieps, estádio de futebol, aeroporto, caixa d’água e monumentos públicos e invariável caráter revolucionário, na temática e nas formas.

Apontado diversas vezes como um dos 5 principais arquitetos do século XX – os outros teriam sido o suíço Le Corbusier, o finlandês Alvar Aalto, o norte-americano Frank Lloyd Wright e o alemão Ludwig Mies van der Rohe -, Oscar Niemeyer Soares Filho garante que hoje só conversa com jornalista se o assunto interessar. No final de novembro, ele recebeu a TRIP para uma entrevista exclusiva, em que fala de engajamento político, arquitetura, velhice e juventude.

TRIP  O que te dá prazer hoje em dia?

NIEMEYER  Encontrar amigos, bater papo, ir a um bar, me divertir dentro do que a idade permite. Não dá para ficar sentado esperando, tem que estar sempre atento. Por exemplo, agora estou fazendo um artigo para um jornal. Não é bem por prazer, é para alertar o estudante de arquitetura, tenho que ser correto com ele, falar de outras coisas. Estou fazendo um artigo sobre o pessoal da guerrilha colombiana que esteve aqui no escritório. Eles falaram sobre o programa deles, contaram que observam aviões norte-americanos sobrevoando as cidades, ameaçando a soberania do nosso país e também a do deles. Falaram sobre a Amazônia ameaçada, o [presidente eleito dos EUA] George Bush dizendo que pode trocar a dívida externa pela Amazônia. Isso tudo a gente não pode ouvir e ficar calado. Vá pra puta que o pariu o Bush lá com o grupo dele, nós somos uma nação independente.

TRIP  O senhor pensa na morte?

NIEMEYER  Eu evito pensar, mas sou pessimista  quando penso no ser humano. Nascer é uma loteria, é genético, sai o inteligente, o idiota, o bom, o ruim. Isso desculpa muito as pessoas. Acho que às vezes a gente tá ligado ao passado que estudamos, então eu sou mais indulgente com as pessoas.  Procuro escutá-las, entender como são. Tenho uma maneira de viver tranquila, não gosto de fazer inimigos, não critico ninguém. A arquitetura para mim é um caminho. Não mudo minha direção, acredito na intuição e não quero saber o que pensam da minha arquitetura. Só faço o que gosto, e acho que cada um deve fazer o que quer, é um modo de vida.

TRIP  O que o senhor acha que vem depois da morte?

NIEMEYER  Nada. Em eu vou acreditar? Meu avô era ministro do Supremo Tribunal Federal, e a única regalia eu ele tinha era missa em casa. Eu devia ter uns 8 anos e assistia às missas. Mas, quando saía de casa, via que o mundo era perverso. Passei a vida inteira tentando ficar ao lado dos mais pobres.

TRIP  Então seu humanismo tem muito de cristão?

NIEMEYER  Não, antigamente eu até gostava de ler o [pensador católico] Teilhard de Chardin, mas nunca acreditei. Tudo é frágil, de um dia para o outro tudo desmorona.

TRIP  Quem mais influiu no seu pensamento?

NIEMEYER  Gosto da posição filosófica do [filósofo francês Jean-Paul] Sartre, que dizia que a vida é um fracasso, mas ele continuava participando, sabia o que acontecia no mundo, na política. Sartre dizia pra gente que gostava de ter dinheiro no bolso para dar esmola. É uma maneira mais generosa de viver a vida, mas tem que reagir quando é preciso.

TRIP  O senhor é otimista?

NIEMEYER   Não muito otimista, não. Otimista só no sentido de que pode melhorar sim, mas o homem continua fodido. Nasce e morre e só.

TRIP  Mas não foi sempre assim na história do mundo?

NIEMEYER  Pode ser. O homem sempre reclamou da fragilidade das coisas.

TRIP Com sua experiência de sete décadas de casamento, o que o senhor acha das novas formas de vida a dois, do casamento, da família?

NIEMEYER  Está tudo mudando. Muda tanto que eu nem quero falar: relação de homem com homem, mulher com mulher, isso não é do meu tempo, no meu tempo era diferente.

TRIP  Como as curvas da mulher influenciaram sua arquitetura? O sexo tem importância na sua arquitetura?

NIEMEYER  Já disseram eu colocava as montanhas do Rio na arquitetura. Nem montanha, nem mulher. Na época em eu pensava muito em mulher, era uma merda. Prefiro a idéia do [pensador francês] André Malraux, que costumava dizer que guardava no íntimo tudo oque viu e amou na vida.

TRIP  Existe alguma mulher que te impressiona?

NIEMEYER  [Risos...]

TRIP  É que daqui da janela de seu escritório dá para ver as garotas da praia...

NIEMEYER  Não vou entrar nessa de fazer papel de garoto. Eu dei uma entrevista para os meus amigos da revista “Bundas”, e eles ficaram com graça, e tal ... Pode brincar mas tem coisas que devem ser tratadas com critério. O importante na velhice é o sujeito não se ridicularizar.

TRIP  O senhor acha que as mulheres do rio melhoraram com o passar do tempo?

NIEMEYER  Aos 93 anos, só digo que de mulher a gente gosta até morrer...

TRIP Os jovens estão hoje muito preocupados com eles mesmos, com a casca, a aparência e o prazer...

NIEMEYER  Me lembro eu o [poeta] Carlos Drumond de Andrade dizia que os jovens pensavam pouco. No Rio, por exemplo, a natureza convida o sujeito a levar uma vida passiva, voltada para prazeres; Não é que se despreze a vida mansa devido a uma posição filosófica, mas é preciso perceber que existe uma miséria muito grande no país, e que miséria gera violência. O país já foi muito melhor, as cidades já foram muito melhores.

TRIP  O que acontece com as obras arquitetônicas no Brasil, cada vez mais escondidas por outras construções, além de cercadas, protegidas?

NIEMEYER  No Brasil, de modo geral, o sujeito não compreende que o espaço em torno das construções faz parte do conjunto. A relação entre espaço livre e arquitetura é ignorado por muitos arquitetos. Aqui em Niterói tinha um prédio antigo que eu admirava. Era a casa mais bonita daqui, em estilo colonial. Ficava num platozinho, tinha um bom espaço aberto em volta. Outro dia passei por lá e estava uma merda. Conservaram o prédio, mas deixaram que as construções se aproximassem.  Em Brasília, estão construindo ao lado do Palácio da Alvorada, e depois reclamam... Contrariei muita gente ao construir Brasília. Essa conversa de arquitetura tá ficando uma merda... Na antiga Atenas, o Partenon tinha muito mais imponência que teria agora.

TRIP  São Paulo é uma das cidades mais feias do Brasil, e agora será administrada por uma mulher de esquerda. Existe saída para melhorar a qualidade de vida e a arquitetura de São Paulo?

NIEMEYER   O que aconteceu em São Paulo foi o mesmo que aconteceu no Rio, em Belo Horizonte, Brasília: é gente demais. O pessoal sai de um lugar mais pobre para trabalhar, ter uma vida melhor. A cidade cresceu demais com prédios muito altos e muita gente. No Rio, por exemplo, você podia andar pelas ruas do centro, ver as mulheres. Era uma cidade aprazível. Tinha lugares para sentar, bares para bater papo com os amigos, bons restaurantes. Agora o centro é uma zona de desespero, e a Barra da Tijuca parece Miami... é uma merda.

TRIP  E a boemia, mudou muito?

NIEMEYER  Tenho pena e saudades. Mudou muito. Íamos para os bailes, para os cabarés, me lembro que a primeira  vez que fui a um cabaré o sujeito não nos deixou entrar porque um amigo meu estava sem a identidade. Agora entra quem quer.

TRIP  A revista TRIP está planejando a construção de praças esportivas para adolescentes na periferia de São Paulo...

NIEMEYER  Isto é bom. É uma maneira de chamar a juventude para o convívio e a dignidade. É preciso fazer alguma coisa para mudar o país. Incentivar a convivência e o esporte é uma forma de a arquitetura ajudar no ensino e na política, uma forma de combater a violência.

TRIP  O que o senhor diria ao jovem arquiteto que está entrando no mercado de trabalho?

NIEMEYER  Eu sempre digo eu não basta sair da escola como um bom profissional. Tem que sair pensando na vida, nos problemas do país e do mundo. Tem que se interessar e se manifestar. A vida é mais importante que a profissão. E o jovem tem que arriscar. Eu vejo que muitos jovens estão preocupados com a vida brasileira, sabem que não é só andar na praia, se divertir. Mas isso se perde por falta de organização. A juventude tem que ter esperança e participar politicamente. Quando a vida se degrada e a esperança saído coração dos homens, morre a revolução.

TRIP  Como o senhor vê hoje a revolução?

NIEMEYER  Vejo uma revolução que não se faz de uma noite para a outra. A juventude precisa criar dentro de si a vontade de protestar contra tudo o que é ruim, como nós fazíamos. Venderam o Brasil e ninguém protestou. Antes a gente saia prá rua, brigava pelo petróleo que é nosso... eu sei que a juventude sente os problemas e quer se definir, quer protestar, mas não tem se organizado. Acho que não existe só este lado esportivo, cultural. É preciso estar com o pé na terra, perceber que o povo é infeliz, ver que a briga tá aí, ver que tem alguns movimentos que merecem apoio, como os do sem-terra. Perceber que eles estão por aí, pelas estradas, num país que é um continente.

TRIP  então o senhor vê no MST, na reforma agrária, uma saída para muitos dos problemas do país?

NIEMEYER  O problema do país é a vida das pessoas, o trabalho e a soberania nacional. Arquitetura vem depois. O MST invadiu um shopping center aqui no Rio, mas não roubou nada. Era só para chamar a atenção. O João Pedro Stédile (principal liderança do MST) me disse que eles vão tentar invadir as multinacionais, tomar conta dos prédios. Só pra chamar atenção. A solução  está na eleição para presidente, e eu gostaria eu ganhasse o Lula, o Brizola ou o Stédile.

TRIP  Por que o senhor acha que a  juventude não se mobiliza politicamente? Preguiça?

NIEMEYER  Não é que a juventude esteja alheia, nem que seja preguiçosa. O que falta é informação sobre a realidade. Não adianta pensar só na profissão, no futuro profissional. Arquitetura, por exemplo, é passatempo. A vida é mais importante.

TRIP  Ainda é possível criar um ambiente para a revolução?

NIEMEYER  Não sei, é lógico que não vai ser hoje nem amanhã, mas é preciso mudar. Acho que, quando venderam o Brasil, os militares não deviam estar contentes, afinal, a profissão deles é guardar a nação.

TRIP  Dizem que internet é um meio para se fazer a revolução. O senhor acredita nisso?

NIEMEYER  Não se pode duvidar de nada. Na semana passada estiveram aqui uns cientistas para conversar sobre os cosmos, a importância das novas tecnologias sobre inteligência do homem. Eu gosto de estar a par de tudo. Acho que os avanços tecnológicos sã parte da revolução. Você não pode duvidar de nada. Parece fantástico, mas tudo é possível.

TRIP  De onde o senhor tira disposição para trabalhar até nos finais de semana?

NIEMEYER  Na minha idade tem que se ocupar. Não se pode ficar parado num canto. Tem que chamar os amigos para conversar, discutir, fingir que é moço, vivendo e participando.

TRIP  Como é o seu processo de criação?

NIEMEYER  Às vezes a coisa vem naturalmente. Pode até demorar. O importante é resguardar a intuição. O Museu de Niterói, por exemplo. Enquanto estavam discutindo o terreno – um braço de terra pendurado no mar -, pensei num apoio central para a obra. Do apoio surgiu a arquitetura. Outra vez estava na Argélia e tinha que fazer uma mesquita. Então fiquei pensando e, quando já estava para dormir, projetei a obra quase sem nó.

TRIP  Já teve algum projeto que o senhor não conseguiu fazer ou resolver?

NIEMEYER  Não, às vezes é preciso rever a estrutura do projeto, ou tempos que tirar alguma coisa, mas tudo se resolve pelo estudo.

TRIP  O senhor gosta de desenhar?

NIEMEYER  O desenho é a base de tudo. O sujeito deve saber desembaraçar a mão. Antigamente, o profissional era ligado mais às artes, hoje é mais ligado ao desenvolvimento da técnica, da ciência.

TRIP  uma vez o senhor disse que o arquiteto tem que saber escrever. Como é a relação do arquiteto com o texto?

NIEMEYER  Meus projetos são mais aceitos e compreendidos pelo texto do que pelo desenho, porque ninguém entende as curvas, os detalhes. Até a aprovação muitas vezes depende mais do texto. No Palácio do Itamaraty, o calculista Joaquim Cardozo se esmerou, e quem vai lá não percebe. O lugar tem um vão de 40 metros por 50 centímetros. Mas, quando o filho do Pier Luigi Nervi foi lá, um italiano que era o papa do concreto armado, ele disse: “Essa laje é mais difícil de fazer do que a ponte que estamos construindo”. São segredos da arquitetura. Por exemplo, no prédio do Itamaraty, a laje de cobertura é fina nas bordas porque no meio do prédio ela tem 2 metros de altura.

TRIP  O escritor português José Saramago está lançando um livro que se chama “A Caverna” e se passa num shopping center...

NIEMEYER  O Saramago esteve aqui conversando comigo. Mora numa ilha e tem uma casa fantástica à beira-mar, me mandou umas fotos. Ele é um sujeito fantástico, uma pessoa direta. É o homem mais feliz do mundo.

TRIP  O que o senhor acha do design?

NIEMEYER  Acho que está tudo certo, tem que desenvolver, criar, mas tudo depende do gosto da pessoa. Uma vez fiz uma casa para um senador e, quando ficou pronta, ele me convidou para ir lá. A mulher dele nos recebeu e logo disse que a casa mudou a vida do casal. Disse que gostou tanto que ela mesma fez a decoração. Aí eu pensei comigo: “Tô fodido”. E realmente estava. Eu quis ser gentil e fiuei lá, conversa e tal. Mas gosto é complicado, pois é relacionado não só à arquitetura, mas à arte. Cada um forma uma noção estética muito própria. Ninguém é dono da verdade.

TRIP O senhor já fotografou?

NIEMEYER  Já, mas hoje só fotografo arquitetura. Mas tem esse fotógrafo, o Sebastião Salgado, que é fantástico. Ele é inteligente, enxerga os pobres, o país e o mundo.

TRIP  O senhor tem computador?

NIEMEYER  Nunca mexí num computador. A arquitetura para mim é muito pessoal, fico no meu canto fazendo meus desenhos.

TRIP  O computador melhorou ou piorou a arquitetura?

NIEMEYER  Acho que o projeto deve ser feito a mão, no papel. Não admito fazer um projeto por computador.

TRIP  E a internet?

NIEMEYER  Não sei, mas tenho um bisneto que fica lá bastante tempo e já sabe de tudo.

TRIP  O senhor já entrou em depressão? Como o senhor vê a psicanálise?

NIEMEYER  Deve ser útil, mas nunca precisei. Por exemplo, nunca leio nada do que escrevem a meu respeito. Existem mais de trinta livros publicados sobre minha arquitetura e nunca li nenhum. Gosto de preservar minha integridade.

TRIP  Na sua juventude, o uso de drogas não era estigmatizado como agora...

NIEMEYER  Não era, né? Acho que as drogas deveriam ser industrializadas.

TRIP  Deveriam ser liberadas?

NIEMEYER  Acho que sim. A vida é sua e você faz dela o que quiser. Na ilegalidade, a droga virou um negócio fantástico. São vários cartéis, com apoio de bancos.

TRIP  Qual foi sua droga pessoal, teve alguma droga de que o senhor gostou?

NIEMEYER  Nenhuma. Minha droga é mulher.

Concreto harmoniosamente armado

por Rafic Farah,

Rafic Farah, 52 é arquiteto designer, foi diretor de arte da TRIP e autor do livro Como-Vi (Instituto Takan0)

Você se lembra de “Aquarela do Brasil”? Essa, como “Garota de Ipanema”, está entre as dez canções mas conhecidas do mundo. Indiscutivelmente temos a melhor música (sem dúvida, já foi bem melhor) do planeta. Assim como temos a Bossa Nova; assim como temos o futebol. E Pelé, que poderia. Como John Lennon, afirmar uma popularidade maior que a de Jesus Cristo. Mas ele jamais diria isso porue, como bom (digo bom) brasileiro, não é arrogante. Não eu John tenha sido; ele apenas quis comentar um fenômeno de mídia e a própria mídia distorceu-lhe as palavras.

E tivemos também Carmem Miranda. Foi tão conhecida quanto é hoje Madonna. Criou moda, estilo. Requebrou mundo afora, nas alturas de suas plataformas (ela inventou os sapatos de plataforma). Quando ficou famosa nos Estados Unidos e começou a cantar em inglês, a imprensa caiu matando. Voltou ao Rio sob recepção fria.

Carmem, assim como Ary Barroso, Villa-Lobos, tom Jobim, numa outra época, imaginou um país. Essas pessoas interpretaram um país. Desenharam um país. Não este que você habita. Um outro, tão bom e bonito quanto a “Aquarela do Brasil”. Tão elegante e perfeito quanto a Bossa Nova.

Se você não gosta de Bossa Nova, meu amigo, é porque não conhece direito, ou é doente. Tipo aqueles “pobres” coitados que vaiaram João Gilberto naquele teatro em São Paulo, que só ficou famoso porque tinha o som ruim e por causa da vaia. João, para poder interpretar o som que inventou, necessita de apuro técnico-acústico, raro nas salas brasileiras. Uma condição imprescindível. Sua interpretação exige atenção às nuanças sutis. “Só privilegiados têm ouvido igual" ao ”o “exigente” público paulista.

Eu só queria lembrar como esses artistas foram criticados: geralmente por eminências pardas, desinformadas, surdas. Reverentes ao pum de qualquer loio que fale inglês. Fanzocas das obscuras bandas de Seatle que desapareceram depois do primeiro CD. Obviamente, qualquer obra é passível de critica. Você pode não gostar de ouvir samba e não gostar das obras de Niemeyer. Ter suas razões subjetivas.

As formas dos edifícios de Brasília podem estar, para alguns, por exemplo, associadas ao negro período da ditadura militar. Já vi gente fina dizer que as colunas do Palácio da alvorada são cafonas: decoram tudo quanto é prateleira de padaria. E vem aquela velha história do “gosto não se discute”

O INDIO E A ESCADA

Uma vez ouvi contar que mostraram uma escada para um índio, e ele não entendeu para que servia. Ele não entendeu a escada.

Não pretendo dar aqui aula de arquitetura. Não sou expert. Nem sou tão fanzoca assim de Niemeyer como você pode estar pensando. Só quero contar como a arquitetura de Oscar Niemeyer encantou os brasileiros e o mundo. Encantamento igual aos gols de Pelé. Ele nos traduziu nas formas de seus projetos: uma nação ideal. Dizia-se então que nó tínhamos a melhor arquitetura do mundo. O país do futebol, da música, da arquitetura.

Todos tem direito de criticar, até a Deus. Mas que coisa boba é querer encontrar pontos passíveis de crítica só para fazer a crítica! A mais comum é comentar que sua obra só visa o coletivo, em detrimento do indivíduo. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que boa parte da concepção de seus edifícios aconteceu justamente em determinado contexto histórico, em que as grandes transformações sociais do planeta partiam de movimentos coletivos organizados e, obviamente, se pretendiam coletivas. Havia nos indivíduos esse sentimento de coletividade. Hoje, que os espaços urbanos estão descaracterizados, ou caracterizados pelo exacerbado e temente individualismo, de grades de erro, muros altos, condomínios fechados sob sete chaves, de maneira mais fantástica e graciosa se destaca sua arquitetura musical.

É unicamente em seus espaços que se expande essa intenção. Dizem que Niemeyer cria edifícios somente para serem bonitos. Qual o erro? É exatamente essa a exceção em nossas cidades. Niemeyer expressa emoção em concreto harmoniosamente armado. Chega de defender a obra de Oscar Niemeyer; tão grandiosa, não carece de defesa. Faz parte de nossa alma. Um dos traços belos da nossa cultura. Onde podemos ainda nos espelhar para o projeto de um país feliz que há de acontecer. Ainda que de longe, bem de longe, que se ouça a vaia da mediocridade.

Netscape Navigators

Jan 26, 2016

Revista Trip - Ano 11 | Nº 65 “O USO DE RECURSOS EM EXCESSO EMBRUTECE O NOVO VELEJADOR, FAZENDO-O PERDER...

Netscape Navigators

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Ano 11 | Nº 65

“O USO DE RECURSOS EM EXCESSO EMBRUTECE O NOVO VELEJADOR, FAZENDO-O PERDER AS HABILIDADES QUE TEM UM JANGADEIRO. SOU APAIXONADO PELA VIDA DESSES CARAS”

AMYR KLINK

Em troca de uma pescaria que rende R$ 15, os jangadeiros cearenses enfrentam o alto mar sob o risco de se perderem, naufragarem ou trombarem de frente com uma embarcação maior. Sem bússola, GPS, radar, rádio, motor ou bóia, esses marinheiros que navegam na era virtual usam a melhor tecnologia disponível: os cinco sentidos

Texto, fotos e contrapeso Giuliano Cedroni

Meu plano de ataque quando o alto escalão da TRIP desceu a ordem (irrecusável) de que seria eu quem deveria trazer à redação uma matéria sobre os verdadeiros navegadores do mar. Aceitei na hora, mesmo porque não tinha muita alternativa. Só não imaginei que depois de sete horas navegando em mar aberto com as canelas enfiadas dentro d’água – no que seria a viagem mais surpreendente de minha vida – eu seria obrigado a passar a noite inteira à deriva, sem dormir, dividindo espaço com outros dois varões numa área flutuante do tamanho de uma mesa de jantar para seis.

Mestre Olegário Roberto da Costa, um homem robusto de 45 anos de idade, dono de um olhar distante mas nunca desatento, é do tipo de homem que cria, dirige, fotografa e atua sua própria história diariamente sem o subterfúgio de um script. Minha sorte nos próximos dois dias estava em suas mãos. E mesmo tendo o conhecido há poucas horas, por alguma razão eu me sentia seguro. É que dentro da sua arte, Olegário era genial e autêntico, e isso transmitia uma sensação de segurança que só homens muito bem preparados e ao mesmo tempo tranquilos podem emitir.

O QUE MAIS FASCINA NÃO É SÓ O FATO DA JANGADA SER FEITA INTEIRAMENTE DE MADEIRA, MAS DE UMA DÚZIA DE MADEIRAS CERTAS, TODAS MADE IN BRAZIL

Manuel já não era tão robusto assim. Nem podia. Era o filho mais velho de Olegário e por mais que soubesse muito sobre navegação, tinha sempre a figura daquele tremendo mestre à sua volta, o que lhe colocava nos olhos um toque de submissão. Suas mãos, no entanto, não remetiam a vinte e poucos anos de idade. Eram as de um trabalhador experiente e lúcido. Não demorei muito para enxergar em Mané, como era chamado, um proeiro respeitável. Quando não está amarrando cordas, dando nós, preparando linhadas e recebendo ordens, um proeiro de jangada passa o tempo todo jogando água na única vela com a ajuda de um recipiente improvisado feito de ½ garrafa de Big Coke. A função disso é fazer com que o tergal se mantenha sempre úmido, deixando o tecido “tapado”, o que maximiza  ação do vento sobre a vela. É o turbo da jangada.

Quem embarcasse com mestre Olegário e o filho repararia que apesar da estreita ligação familiar da tripulação, a intimidade entre os dois parecia dissolver-se no mar em cada milha ganha em direção à “risca”, como eles batizam o horizonte. Ali imperava a hierarquia de profissionais que não só trabalham juntos, como dependem e apostam um no outro para manter-se secos. E vivos. Dentro de casa eles são pai e filho, como em qualquer outra família, em qualquer outro lugar. Mas num cenário onde homens equilibram-se sobre uma embarcação aberta, em alto mar, sem qualquer glamour ou atenção desprendida a milhares de outros navegadores que ilustram colunas sociais, o relacionamento é outro: estritamente profissional.

VÔMITOS E AFINS

Partimos da praia de Lagoinha, reduto de jangadeiros, a 250 km de Fortaleza, às sete horas da manhã. Era sexta-feira. A praia estava cheia graças ao tráfego de pescadores. Homens rudes, moldados pelo vento e pelo sal, que usufruíam de engenhocas primitivas para garantir-lhes o sustento. Sem que ninguém precisasse pedir, desconfiados pescadores nos ajudaram a colocar a jangada na água usando toras de madeira que, uma a uma, rolavam sob a embarcação.

“Mas você não provoca não, paulista?”, me perguntou Mané.

Imediatamente desconversei e respondi negativamente à dúvida do proeiro, mesmo sem ter a menor ideia do que ele tinha me perguntado. Mais tarde, ajoelhado no convés da jangada devolvendo toda a janta da noite anterior, entendi finalmente o significado da palavra provocar (enjoar, passar mal). Mas isso aconteceu bem depois.

MÁQUINA PERFEITA

Eram passadas duas horas da nossa partida. Como fizera mil vezes antes, o mestre reencaixou o mastro de sua embarcação na posição ideal para receber o vento leste que se aproximava rapidamente. Fez isso usando apenas os braços como ferramenta. Falando assim, parece fácil, mas estávamos em alto mar a caminho de plataformas de petróleo, lugar que leva a fama de ter uma pesca mais abundante. Se algo desse errado durante aquela manobra, mestre, proeiro, jangada, eu e tudo mais seríamos arremessados ao oceano em questão de segundos.

Apesar de navegarem em águas profundas e infestadas por correntezas – as jangadas pescam lado a lado com navios centena de vezes maiores – essas embarcações não contam com qualquer equipamento de localização ou segurança. Nada que se assemelhe, do ponto de vista técnico, aos milhares de veleiros estacionados nos iate-clubes do litoral norte paulista e carioca. Nem sinal de bússola, GPS, radar, rádio, fogos de sinalização, motor de popa ou sequer uma boia. No caso de Olegário, nem mesmo um mísero relógio de pulso o homem carregava.

Construído em 18 dias pelo próprio dono, a jangada que carregava nossas vidas era feita de nomes curiosos que muito podiam ser de mulheres, homens ou lugares: Angélica, Pitiá, Jenipapo, Pereiro, Mata-matá, Cipaúba, Praíba, Freijó, Louro-vermelho, além de outros um pouco mais explícitos como Pau-ferro, Pau-branco e Cajueiro. Uma sorte de madeiras nobres brasileiras que, quando misturadas sabiamente, criam um produto único. “Uma máquina perfeita, espantosa, dona de uma engenharia bem mais sofisticada que os barcos da Whitbread, por exemplo”, afirma categoricamente ninguém menos que Amyr Klink, ele próprio, um estudioso da engenharia naval – além de glamourizado velejador solitário, que já gastou horas pesquisando as linhas, formas e funcionalidades das jangadas cearenses (Veja box no final desta reportagem).

A MORTE SOB OS PÉS

“Dois jangadeiros vieram passar a noite aqui e esqueceram-se de colocar luz”, conta Olegário enquanto remexe em uma caixinha de madeira onde guarda toda sua “fishing gear”. À nossa frente, a silhueta de uma enorme plataforma desaparecia lentamente enquanto a imensidão que nos abraçava trocava o dia pela noite. Chegamos ao ponto exato para se pescar usando apenas o vento como direção.

“Quando viram , já não dava mais tempo; o navio estava bem à sua frente e partiu a jangada ao meio”, continua ele com uma calma quase irritante. Sem perder tempo, Mané tratou logo de fixar nossa proteção antes que a correnteza do Atlântico nos presenteasse com uma caroninha até a África. Arrastou uma peça que esteve jogada entre nossas pernas desde o começo da viagem. Não dava para acreditar. Enquanto milhares de seres humanos navegam pela internet e se consideram corajosos viajantes, mesmo que virtuais, os jangadeiros ainda usam como âncora uma enorme pedra entrelaçada por três paus de cajueiro. Chamam-na de fateixa e, ao que tudo indica, ninguém por ali pensa em trocá-la por uma âncora industrial.

“Um morreu na hora. O outro conseguiu nadar durante um bom tempo até bater em uma boia deixada ali. Então ele descansou um pouco, soltou a corda e nadou, com a ajuda da boia, até uma jangada que pescava por perto”. Respirei aliviado como se o desfecho semi-trágico daquela história fosse garantir, de alguma maneira, um retorno seguro da nossa própria jangada. Mas o alívio durou pouco.

“Ele havia prometido nunca mais voltar ao mar”, completa o mestre que sempre carrega um lampião consigo nas viagens. “Mas o cabra foi teimoso e já na primeira pescaria teve um treco no coração. Quando seus colegas o trouxeram de volta, o coitado já tava duro de morto”.

Os jangadeiros vivem em permanente contato com o perigo. Além do risco de choque com embarcações maiores, a chance de perderem-se no mar é considerável. Há desde casos de homens que erram de praia até outros que nunca mais são vistos. Outra fatalidade bem comum no currículo de um jangadeiro é a virada da embarcação. Quando isso acontece, é preciso de sangue frio e habilidade para retomar a posição inicial. Não há a quem pedir ajuda.

Assim mesmo, o número de jangadeiros que padecem no mar não passa de uma dúzia por vila (de 300 habitantes) por ano. Dado este que só confirma a exímia qualidade desses navegadores brasileiros.

PESCAR É PRECISO

A pescaria começou da mesma maneira que a viagem, em silêncio. Mané e Olegário administravam duas linhadas cada um. Esturricadas tiras de peixe trazidas de casa eram usadas como isca. A ideia era primeiro pescar peixes de primeiro porte que seriam usados como isca para outros maiores. A dupla trabalhava em perfeita harmonia. O menor movimento exercido por qualquer um de nós, e toda a jangada balançava como uma grande boia.

A essa altura, Olegário já recolhia suas presas. . Com um movimento rápido dos braços, ele trazia à tona metros de uma linha fina mas que alcançava a profundidade necessária. Um pequeno e agitado ariacó submergiu para, em segundos, ser devolvido de novo ao mar. Só que dessa vez com um anzol atravessado em sua carne. A cada dez ou quinze minutos, pai e filho recolhiam as linhadas em movimentos graciosos que pareciam não exigir esforço algum. Quanto a mim, esforçava-me para conservar o que restava de minha energia vital. Bastou uma olhadela para a lua que já iluminava todo o convés, para que o mestre afirmasse categoricamente que eram dez horas da noite. Naquele momento, depois de vê-lo trabalhar durante um dia inteiro, não tive dúvida alguma: eram dez horas da noite em ponto, e nem mesmo a mulher da Telesp me faria mudar de ideia.

HOMENS COMPLETOS

Já bastante fraco e mais uma vez sem opção, entreguei-me ao mais autêntico dos cardápios de jangadeiros: biscoitos de maizena, rapadura de cana, água “doce” e refrigerante de laranja. Olegário e Mané seguiam pescando sem intervalos. Guaiúbas, penas, sapurunas, biquaras, garapaus e ariacós enchiam lentamente o saco de estopa amarrado junto ao mastro. Mas nada muito grande, somente algumas unidades de peixes miúdos. Sequer usaram da linhada mais grossa. Seria perda de tempo.

“Hoje em dia tem pouco peixe no mar e, quando tem, é tudo pequeno”, lamentou Olegário.

“Qual foi sua maior pesca?”, arrisquei.

“Já faz tempo. Saímos em seis homens para pescar de rede em uma embarcação grande, não como essa”. Ele se referia às jangadas maiores, que chegam a medir oito metros de cumprimento e contam com uma escotilha no convés que leva a um porão. Este apertado espaço, com cerca de 50 cm de altura, serve tanto para armazenar gelo e peixe quanto para abrigar os pescadores que fazem do buraco, seu quarto. Turnos intercalados de descanso são usados já que é possível viajar por até uma semana a bordo de uma dessas jangadas que, graças ao seu porte, sustentam o uso de redes. “Além dos miúdos, pegamos duas tintureiras, cinco camurupim e quatro cação-flamengo. Tinha ao todo uns 450kg de carne boa!’, relembra ele, com os olhos já a brilhar. “Era tanto peixe, que o barco não aguentou e tivemos que rebocar o maior dos cações”. Para Olegário, que não sabe ler, aqueles foram seus 15 minutos de fama. Aconteça o que acontecer, ele provara que além de exímio conhecedor da arte da navegação, era também um excelente pescador. Em outras palavras, um jangadeiro completo.

Pai e filho pescaram até a meia-noite, sem parar. Vez ou outra um deitava na bolina da jangada, ou quilha, que quando colocada no convés de maneira engenhosa faz às vezes de um precário banco. Mas mesmo enquanto deitados, os dois mantinham sempre as linhadas envoltas nos braços: descansavam até um puxão demandar a volta imediata ao trabalho.

VEIAS DE SAL

Depois da meia-noite, a vela foi içada novamente. O trajeto da volta foi traçado tendo o Cruzeiro do Sul como referencia. Vomitei um total de 5 vezes. Por umas duas horas, Olegário passou o comando da jangada a Mané e juntou-se a mim na função de contrapeso oficial da embarcação. Conversamos sobre sexo, Edir Macedo, Titanic, família, Plano Real, Ronaldinho, cantigas do mar, FHC, Aids e tudo mais que aflige o brasileiro nesses dias. A água continuava a molhar nossos pés enquanto o vento nordeste definia a marcha da jangada. Mas alguma coisa havia mudado.

Dias depois, já de volta ao caos urbano, estava confortavelmente sentado em meu carro à espera de mais um sinal de trânsito, quando finalmente compreendi: havia ganho o respeito daqueles dois pescadores que se no início me trataram como mais um turista afoito à procura de aventura barata, passaram, com o romper da aurora daquela manhã, a me fitar como um estranho que chegara mais próximo de seu universo. Senti-me extremamente orgulhoso. O farol abriu e enquanto acelerava cidade adentro, percebi que algo também havia mudado em mim: tive a oportunidade de aprender um pouco sobre a vida com homens tão cultos e raros como os jangadeiros.

Na chegada à praia, nada de recepções calorosas, aglomerações ou qualquer indício de que algo de fabuloso estivesse acontecendo. Para mim, era exatamente isso o que se passava. Depois de tudo que experimentamos, de todos os riscos e esforços investidos, de todo o conhecimento colocado em cada linhada, a embarcação conseguiu trazer de volta cerca de 12 quilos de peixe. Olegário, que passara um dia inteiro dormindo e com sorte fará no máximo mais duas jornadas como essa durante a semana, conseguirá converter a pescaria em suados R$15,00.

Entre as histórias de Jacaré e Olegário, dois legítimos jangadeiros, existe um espaço de 56 anos tumultuado por guerras, revoluções, El Niños e Copas do Mundo. Décadas em que o mundo parece ter girado mais rápido, mas não necessariamente da melhor forma. Mas para nossa sorte, nem “homens modernos” como Bill Gates, nem Dolly, a ovelha, foram capazes de tirar a vontade desses navegadores de se entregarem ao mar. São homens que sem acesso à tecnologia, desenvolveram os cinco sentidos de maneira invejável, atingindo a perfeição. Que bom seria se existissem mais jangadeiros por aí.

O navegador Amyr Klink compara jangadas a veleiros de última geração, e conclui:

WHITBREAD É FICHINHA

Uma casa simples na Vila Mariana, em São Paulo, sem qualquer pompa, serve de escritório para um dos navegadores de maior personalidade do mundo. Amyr Klink chegou de moto, atrasado, e enquanto abria espaço na bagunça de sua mesa não cessou de pedir desculpas repetidamente. Na sala, ao invés de peças decorativas de marinheiro compradas em shopping center, o que se via eram pilhas de mapas, cartas náuticas, peças experimentais de barcos e dezenas de livros que mostram que aquele é exclusivamente um local de trabalho. Na parede, algumas fotos coladas contam a trajetória daquele homem que, dentre muitas outras coisas, cruzou um oceano inteiro sozinho num barco a remo.

“Chame uma equipe de engenheiros da NASA com a tarefa de construir um barco sem usar qualquer tipo de metal e capaz de orçar 40 graus...Os caras vão boiar. A jangada é uma máquina perfeita!”, decreta um Klink empolgado num entrevista que ao contrário da maioria das que concebe, não tinha ele próprio como tema principal. Estávamos ali para falar da jangada e seus autores.

“Sou apaixonado pela vida desses caras e o instrumento que eles conseguiram fazer. O que mais me fascina não é só o fato de ser uma embarcação feita quase que inteiramente de madeira, mas das madeiras certas. Isso é de um requinte e tecnologia extremamente superiores”, emenda ele enquanto puxa livros específicos sobre jangada de sua biblioteca náutica.

TECNOLOGIA X INTELIGÊNCIA

“O grande talento do jangadeiro não está só no fato dele saber operar a jangada corretamente, mas de ser o construtor de sua própria embarcação”, declara Klink. Ele explica que o mastro de alumínio, por exemplo, é “burro” pois tem a mesma resistência ao longo de toda sua extensão. “É por isso que a Whitbread (que só aceita barcos com mastro de alumínio) é uma regata careta, babaca. É claro que existe uma cartolagem por trás disso tudo...mas o mastro de uma jangada (feito de madeira), na minha opinião, é muito mais sofisticado e inteligente que o mastro de um desses barcos da Whitbread”, completa ele. Apesar de ter acesso à mais moderna tecnologia em equipamentos náuticos, o mais famoso navegador brasileiro percebe as consequências que isso traz: “O uso de recursos em excesso embrutece o novo velejador, fazendo-o perder as habilidades sensitivas que tem um jangadeiro. Talvez ele nem saiba dos fenômenos ciclônicos e anti ciclônicos que enfrenta, mas certamente o jangadeiro sente isso graças a sua experiência no mar.”

Amyr Klink está de malas prontas para sua terceira expedição. Ele partirá no dia 27 de outubro e deve ficar quatro meses velejando ao redor do mundo, quando circunavegará a Antártida a 60 graus de latitude sul (a mais próxima possível daquele continente). Seu barco acaba de receber um novo tipo de mastro chamado “Aerorig” (inédito no Brasil e feito de fibra de carbono), e que, assim como o das jangadas, oferece uma certa flexibilidade. Amyr acredita que a jangada está fadada ao desaparecimento graças à “estrutura sócio-econômica das comunidades de jangadeiros” e à falta de sensibilidade dos governos regionais do nordeste em “perceber isso e fazer algo a respeito”. Nada a ver com a funcionalidade dessa embarcação fantástica e a competência de seus navegadores.

Joãozinho 70

Jan 26, 2016

Revista Trip - Fevereiro 2004 | Ano 17, Nº 119 O MARANHENSE JOÃOZINHO TRINTA ACABA DE ENTRAR PARA O CLUBE...

Joãozinho 70

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Fevereiro 2004  | Ano 17, Nº 119

O MARANHENSE JOÃOZINHO TRINTA ACABA DE ENTRAR PARA O CLUBE DOS SEPTUAGENÁRIOS. PARA COMEMORAR, EM SEU 40º DESFILE, RESOLVEU COLOCAR FOGO NA PASSARELA DO SAMBA COM UM ENREDO INSPIRADO NO AMOR LIVRE E NO KAMA SUTRA. NESTA ENTREVISTA CORAJOSA, O MAIS CÉLEBRE CARNAVALESCO DO BRASIL ASSUME SUA HOMOSSEXUALIDADE. CONTA A PRECOCE INICIAÇÃO SEXUAL E DIZ COMO VENCEU A ISQUEMIA CEREBRAL PARA VOLTAR COM TUDO À MARQUÊS DE SAPUCAÍ.

Por Giuliano Cedroni • Fotografia Christian Gaul

Que linha separa a ficção da realidade? Para a maioria das pessoas, ela é clara, visível, inconfundível. Não para o maranhense João Clemente Jorge Trinta, o mais célebre carnavalesco do Brasil. Na arena disputadíssima do Carnaval carioca, foi campeão oito vezes, ficou com o vice-campeonato em cinco ocasiões e faturou em outras seis o terceiro lugar. Espécie de Zagalo do “maior espetáculo da Terra”, é o único que conquistou cinco títulos consecutivos (em 1974 e 75 com o Salgueiro e de 76 a 78 pela Beija-Flor).

O poeta Carlos Drummond de Andrade apelidou Joãozinho de “jardineiro mágico”. O escritor Carlos Heitor Cony o definiu como “logotipo do Carnaval brasileiro – ganhando ou perdendo”. Até o cineasta italiano Franco Zefirelli se rendeu ao talento do maranhense, modificando parte de sua La Traviatta, depois de assistir a um dos desfiles do carnavalesco. Um dos mais singulares artistas populares do país, Joãozinho recusa o título de gênio, mas é inegável que conseguiu reinventar sua já fantástica profissão.

Revolucionou os desfiles aumentando o tamanho dos carros alegóricos, levou pela primeira vez um casal nu para a avenida, mudou o padrão das letras dos sambas-enredos sem dar bola para os puristas e atraiu o merchandising para os desfiles, somando ao dinheiro do bicho os dólares multinacionais. Também bancou a pegada funk na ortodoxa batida da bateria e, como se não bastasse, no desfile de 2001, trouxe um astronauta da Nasa para um vôo rasante sobre a Sapucaí, numa espécie de cadeira mágica.

 

Bom de briga

Filho de família operária, nascido na ilha de São Luís – fruto de uma aventura de uma noite só da mãe, que havia enviuvado dois anos antes – Joãozinho sempre foi precoce. Aos 11 anos, já tinha lido boa parte do acervo da biblioteca pública da cidade, de Monteiro Lobato e Gonçalves Dias a Shakespeare e Pitágoras. Aos 17, sonhando com a efervescência do Rio de Janeiro da década de 50, embarcou no Ita (navio que levava migrantes do Norte até o Sul Maravilha) para virar bailarino e, depois, figurinista do Teatro Municipal. Ficou lá por quase duas décadas antes de mergulhar no universo das escolas de samba, onde descobriu a melhor forma de expressar seu talento. Peitou bicheiros e compositores, provocou jurados, atacou imprensa, criou inimigos no morro, desafiou a Igreja e foi parar na delegacia algumas vezes.

Em 96, a obsessão pelo trabalho cobrou seu preço: o carnavalesco teve uma isquemia cerebral que paralisou o lado direito do corpo. Obrigado a parar, João reviu valores e decidiu que ainda queria viver muito. Deu início a uma nova fase, mais regrada e ainda mais produtiva. A recuperação foi rápida. No Carnaval seguinte, conquistou mais um campeonato, dessa vez pela Unidos do Viradouro.

Às vésperas do seu 40º desfile – que mais uma vez provocou a ira da Igreja, agora por conta do samba-enredo inspirado no Kama Sutra – Joãozinho concedeu a entrevista mais franca de sua vida.

“Num país de praia, sol, que não tem neve, ser romântico é ser burro, pretencioso”

TRIP: Você acaba de completar 70 anos e vai entrar na Sapucaí com um samba-enredo que fala abertamente de sexo. Como se sente?

JOÃOZINHO TRINTA: Eu me sinto como quem está no pré-primário. Costumo dizer que sou um operário abrindo o caminho do divino. Divino que vem do verbo “advir” – aquilo que há de vir, que está distante mas virá. Estou sempre em preparativos, trabalhando.

Como foi sua iniciação sexual?

Desde cedo eu sentia uma atração muito grande pelos garotos. Às vezes, nem tanto pela beleza, mas pelo cheiro. Morávamos num casarão se uma família, éramos 30 crianças, , a metade meninos, todos vivendo lá. Aconteciam muitas brincadeiras [de conotação sexual], coisa de garoto. Houve uma com uma menina, mas não era o que me atraía. Tive minha experiência lá no casarão, com o João Igreja. Ele era bonito, não muito alto, dançava bem, era o tipo playboy garanhão mesmo. Todas as garotas  esperavam o fim de semana por causa dele, e eu também sentia admiração, fascínio. Tinha uma sala no casarão onde todos os garotos faziam o dever da escola. Um dai ele conseguiu me tirar dessa sala e me levou para o banheiro – claro que eu devo ter ido esperando alguma coisa, mas não sabia o quê. Chegando lá, aconteceu. Depois passei mal, e ele me levou pra deitar no quarto. No dia seguinte, já era outra pessoa. Tive medo de que ele falasse para os outros, ele dizia que ia comer minha irmã também. Foi nessa época que comecei a ter medo de gente, de autoridade. Mas ao lado dessa fragilidade, sentia dentro de mim uma força, que  me impulsionou a sair de São Luís. Não me assustei com meu homossexualismo porque, desde cedo, entendi que era consequência do meu desejo de encontrar meu pai, a parte masculina de que sentia falta.

Você acredita que o homossexualismo tem início na infância?

O correto é uma família ter pai, mãe e filhos. Eu não tinha pai em que me espelhar. Tinha um substituto dele, uma mulher poderosa, que era minha irmã mais velha, Eleusina. E a psicologia não diz que, por trás de um homossexual, tem sempre uma mulher poderosa? Foi o que aconteceu comigo. Não considero meu homossexualismo um problema, ao contrário, foi uma busca de equilíbrio. Eu procurava nos garotos aquilo que não tinha, minha parte masculina. Isso revela que minha estrutura psíquica era sadia. Por isso carrego o fardo do homossexualismo. Foi um acidente na minha vida.

Ser homossexual é um fardo?

Todo homossexual se sente com menos valia, se acha abaixo do normal, porque carrega dentro de si uma mulher que luta com ele. E ele sempre perde a luta porque essa mulher é muito mais forte. E a família não entende, a sociedade também não. Ele se sente desvalorizado porque não é o que os outros gostaria que fosse.

Nunca teve experiência com garotas?

Quando cresci e saí da fase de brincadeiras, fui apaixonado por duas garotas. Apaixonado numa dimensão muito forte – sei o que é a paixão de um homem por uma mulher. Queria ir morar no Rio com uma delas, que era filha da costureira da minha irmã. Nós dois seríamos bailarinos.

Você sempre foi discreto em relação a sua opção sexual...

Meu problema homossexual não está completamente resolvido, mas não estou ligando para soluções. Eu quero entender. Já tive relação sexual [com mulheres], mas não foi bem-sucedida. Mais cedo ou mais tarde, acho que vai acontecer de novo. Por mais que eu não esteja preparado para ter uma ereção com mulher, o Viagra vai facilitar. Isso não é mais problema. E hoje tenho essa vontade de tentar de novo. A importância do sexo é muito grande na minha vida, é uma atividade como respirar, comer, uma necessidade vital. Cada um resolve de uma maneira. Eu já tive e tenho problemas homossexuais, mas não carrego a bandeira. Não me sinto homossexual, por outro lado, não posso dizer que não seja. Então sou um homossexual que não tem certeza, que está tentando resolver. Vou ficar na parada gay? Não. Achou muito engraçado, vou assistir, mas entrar na parada não. Prefiro ficar como nos desfiles de Carnaval: assistindo.

“Não considero meu homossexualismo um problema, foi uma busca de equilíbrio. Eu procurava nos garotos aquilo que não tinha [o pai]

Você já viveu um grande caso de amor?

Já vivenciei sexo com amor e, com certeza, é melhor. Amor é uma experiência muito forte, que tenho exercitado na minha vida toda. A vida é um ato de amor, de doação constante. Neste momento está havendo um ato de doação: estou te doando a experiência de uma vida toda. Prestar atenção nessas doações é entender que a vida é um grande ato de amor. Amar é doar. Quem não se doa não sabe amar. É como na oração de São Francisco: “Amar sem ser amado”.

Você nunca foi casado nem teve filhos...

Sou sagitariano, e dizem que o signo tem dois pilares: liberdade e justiça. Eu sou assim. Nunca fui apegado à minha família, desde pequeno tentei me libertar. Nunca suportei perto de mim ninguém que me dirigisse. Nunca me imaginei trabalhando num lugar com horários rígidos. Dizem que o sagitariano abandona um pouco os amigos, porque não se fixa. Então como tenho grandes amigos? A questão é que não preciso estar junto pra gostar deles. Eles ficam no coração, na memória. Como sagitariano, também tenho muito senso de justiça. Se meu inimigo tiver com razão, vou defendê-lo. Só que eu não poderia casar nem ser fiel de jeito nenhum. Imagina eu casado, fazendo Carnaval...Minha mulher ia ficar louca! Eu não respeito horário, tenho ojeriza a prazos. Se tiver um compromisso obrigatório, eu falto. Mas, se me deixarem em liberdade, sou britânico na pontualidade. E não preciso ter filhos biológicos. Jung diz que é “muito fácil botar uma criança no mundo, difícil é colocar o mundo numa criança”. Eu já botei muitos mundos em muitas crianças, tenho uma grande família. Meu trabalho na Beija-Flor foi isso: fazer Carnaval e tocar obras sociais voltadas para crianças de rua. Eu cuidava da educação delas, são meus filhos. Se não tivesse feito esse trabalho, hoje elas estariam mortas com certeza.

Há sete anos e meio você sofreu uma isquemia cerebral que te imobilizou parcialmente. O que ficou dessa experiência?

Eu estava na cama do hospital e, de repente, pensei: “A data do meu nascimento é 23 de novembro de 1933. Nasci na ilha de São Luís do Maranhão, filho de uma viúva que tinha perdido o marido dois anos antes e já era mãe de três meninas”. Fiz as contas: se nasci em novembro, fui concebido em fevereiro! No ano de 1933, minha mãe foi brincar o Carnaval, deu uma boa trepada e me concebeu. Tenho claro na cabeça essa imagem da alegria, posso até falar de trombetas tocando. É a memória mais antiga que tenho – e suponho que seja o momento da minha concepção, o encontro do meu pai com minha mãe. Aquele flash! Porque o espermatozoide é o máximo da natureza. Não é um acontecimento ligeiro, é um universo que vai se formar. É como a explosão de uma estrela nova, deve ter muito brilho, muita faísca.

Então seu nascimento já foi uma festa...

Nem tanto. Naquela época, o que uma mulher viúva e operária poderia fazer se ficasse grávida? Abortar, me matar, se ver livre de mim. Senti isso quando estava na cama do hospital depois da isquemia, sem ter feito nenhuma análise, sem ajuda de ninguém – foi coisa de intuição. Aí entendi por que desde criança eu tinha asco da minha mãe, nojo, repudiava ela. A prova maior desse repúdio foi que eu me recusei a mamar. Apesar de tudo isso, eu era o filho de que ela mais gostava.

Como foi a sua infância?

Sou apaixonado por São Luís, minha terra. Aquela ilha, na infância, era um espaço onírico, de sonhos. Como éramos uma família pobre, lembro de brincar com formiguinhas, baratinhas, Tudo que fosse de esculpir me encantava muito: madeira, ferro, prego, fogo. Tinha uma mulher bem magra, alta, negra, que diziam, era filha de escravos. Nunca esqueci o nome: Nhá Vita. Ela nos contava histórias à noite, todas as crianças na rede -, e eu quietinho, sem dormir, aguardando as princesas e os reis chegarem. Revistei todo esse mundo em 1974, no Salgueiro, na minha estreia como carnavalesco, com um enredo sobre São Luís. E vencemos.

O que mais te fascinou na infância foram essas histórias?

Eu também ficava transtornado com música. Perto de casa tinha o cinema Roxy, que abria as sessões vespertinas tocando ópera. Quando eu tinha uns 10 anos me acontecia uma coisa muito estranha. Era só tocar ópera que, no meu umbigo, começava um movimento rotativo que eu não sabia explicar. Corria para o quarto e me trancava, não queria que ninguém visse aquilo. Coisas assim foram acontecendo, e eu não tinha possibilidade de conversar com ninguém.

Você foi o quarto filho, com três irmãs mais velhas e um caçula. Eram muito ligados?

Eu tinha uma afinidade muito grande coma  Eleusina, minha irmã mais velha. Uma mulher superdotada que, aos 14 anos, na década de 40, já era gerente de uma firma alemã. Ela me levava para visitar as casas das famílias ricas de São Luís, que a convidavam justamente porque era uma pessoa que se destacava. Ela se casou com o Carlos, que era comerciante, para nos dar uma vida melhor. Ele era um homem bom, mas não proporcionou aquela vida que ela merecia, de uma intelectual. Desde cedo havia uma identificação muito forte entre nós, que não havia com as outras irmãs. Já o Silvio, dois anos mais novo que eu, é o típico extrovertido. Ia pra rua, brigava, empinava pipa, jogava futebol. Nunca fiz nada disso. Lembro que ele usava gírias que me doíam o ouvido, como “sissica-birissica”. Me enjoava. Um dia ele repetiu tantas vezes que peguei uma banana e esfreguei na cara dele. Eu não suportava aquilo, me irritava.

“No ano de 1933, minha mãe foi brincar de Carnaval, deu uma boa trepada e me concebeu. Tenho a imagem na cabeça: alegria, trombetas tocando”

Como foi a sua formação?

Aos 11 anos descobri a Biblioteca Pública de São Luís, e esse encontro marcou minha vida. Aquele salão cheio de livros significava o universo. Depois de devorar todos os quadrinhos, Monteiro Lobato, Shakespeare, Gonçalves Dias, peguei os Versos Dourados, de Pitágoras. E uma frase saltou do livro: “Até onde a mente humana alcançar, ela vai encontrar sempre os números 1,3 e 7”. Senti que estava recordando algo que já sabia há muito tempo. Música, por exemplo: é feita de três elementos – melodia, ritmo e harmonia – que se plasmam em sete notas. Cores: branco é a síntese de todas, a primeira divisão da cor branca são as três cores básicas (amarelo, azul e vermelho), e a mistura delas vai gerar as sete cores do arco-íris. Outro exemplo: a soma de um, três e sete dá 11. Onze com onze dá 22, que os egípcios dividiam por sete e chegavam a 3,14 (o número pi). E eu entendi isso racionalmente em frações de segundo! Aos 11 anos.

Com que idade se mudou para o Rio?

Com 17. Fazia parte de um grupo de intelectuais de São Luís: Ferreira Gullar, José Sarney, Bandeira Tribulse, Cleber Fernandes e muitos outros. Eles publicavam uma revista juntos e começaram a vir para o Rio. Fiquei desesperado sozinho lá. Aí dei um jeito de vir também. Eu trabalhava numa companhia de capitalização chamada Cosmos e era ótimo funcionário. Meu patrão, vendo meu desespero de vir para o Rio, conseguiu minha transferência.

Que ano era?

Cheguei ao Rio em 51, em pleno Carnaval. Peguei o Ita lá no Norte, o navio passou por Recife e dentro estava o bloco do frevo Vassourinhas. Vim dançando o tempo todo, foi uma viagem de sonho, deslumbrante. E vou contar uma coisa que aconteceu e que tem sido uma constante na minha vida. Eu havia comprado a passagem mais barata, que ficava no porão do navio. Com uma malinha na mão, já estava passando mal com a maresia, aquele cheiro, o balanço do navio. Quando tocou o apito, pensei: “Meu Deus, meu sonho vai se realizar!”. Mas bem nessa hora chegou um oficial perguntando por João Clemente Jorge Trinta. Eu gelei: “Será que vão me tirar do navio?”. Ele pegou minha bagagem e pediu que eu o seguisse. Subi as escadas coma s pernas tremendo, sem imaginar o que poderia estar acontecendo. Lá em cima, no camarote mais luxuoso, um outro oficial se apresentou: “Sou o comandante do navio e você, por ser menor de idade, vai viajar sob meus cuidados. Vai ficar aqui”. Coisas como essa aconteceram várias vezes na minha vida. De estar no fundo do navio e, de repente, subir lá no alto.

Como era o Rio de 51?

Sinto dificuldade, hoje, de falar o que era o Rio daquele tempo. Além de ser essa cidade maravilhosa, era limpa, tranquila, sem nenhuma violência. As pessoas andavam em estado de graça, se olhavam, se namoravam. Eu tinha vindo para o Rio com a ideia fixa de ser bailarino. Procurei uma academia de dança e encontrei em Copacabana a do Eduardo Sena. Aí mergulhei num universo fantástico, uma beleza. Fiquei quatro anos assim: trabalhava na firma e dançava o resto do tempo. Em 56, fiz concurso para o Municipal e passei. Mas aí aconteceu uma coisa terrível. Eu achei que ia ser contratado imediatamente e pedi demissão da Cosmos. O dinheiro que recebi só deu pra me sustentar no primeiro mês. No segundo, não paguei aluguel e fui proibido de entrar na pensão. Aí, comecei a dormir no bonde, no último banco do bonde 11, que era a linha mais extensa e ia até o Leblon. Eu ia e voltava, passava a noite inteira ali. Também não tinha o suficiente para comer. Só comi as amêndoas da praça Paris. No terceiro mês, eu já vomitava só de olhar. Mas tinha vergonha de pedir um copo d’água, quanto mais pedir comida. Uma lembrança que trago forte até hoje foi de um dia que já estava sem forças, de tanta fome. Estava andando pela praia de Botafogo e vi uma lata de lixo que tinha um mamão. Metade de um mamão. Mas olhava para o lado e só via maranhenses. Fiquei horas esperando para ver se eles iam embora, mas sempre tinha algum maranhense por ali. Aí, fui embora sem comer o mamão. Também teve outra coisa péssima que aconteceu nessa época. Tinha um cunhado meu que estava no Rio, estudando. Quando ele soube que eu estava dançando, disse na minha cara que eu era a vergonha do Maranhão. Porque, se estudava dança, eu era veado. Aquilo me contundiu muito. Porque eu vivia só para a dança, via o mundo só através da arte. Não pensava em sexo. Não havia maldade. Já tinha apagado aquele trauma do João Igreja. De repente, recebi essa bofetada.

“O desfile de carnaval tem a mesma estrutura de uma ópera erudita. Aliás, o Carnaval é uma ópera, só que popular”

Mas você acabou sendo chamado para fazer parte do corpo de baile do Municipal...

Tive a felicidade de entrar para um templo de arte, que era o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Assisti e convivi, diariamente, coma s grandes companhias de ópera internacionais: Ballet Theatre, Ópera de Paris, Balé de Moscou, a Companhia de Montecarlo...Mas com o tempo percebi que não seria um grande bailarino por conta de minha estatura [João mede 1,50 metro] e passei a me interessar por montar espetáculos. Conheci o Fernando Pamplona e o Arlindo Rodrigues, que eram cenotécnicos do Municipal, e comecei a prestar atenção no trabalho deles. Depois, fui chefe de guarda-roupa durante uns três anos. Participei da montagem de várias óperas, como o Guarany, Aída, a Tosca...Foram o Pamplona e o Arlindo que me levaram pela primeira vez para trabalhar em escola de samba, no Salgueiro.

Você levou seu conhecimento de ópera para o Carnaval?

O desfile de carnaval tem a mesma estrutura de uma ópera erudita. Aliás, o Carnaval é uma ópera, só que popular. A ópera erudita começa com o Libreto; a escola de samba, com o enredo. Na erudita há uma orquestra; na escola, bateria. A ópera tem cenários; a escola, carros alegóricos. A ópera possuí um corpo de baile que dança, mas não canta; a escola tem passistas que não cantam, mas dão no pé. A ópera tem coral; e a escola, os integrantes das alas, que cantam. Por fim, a ópera tem personagens principais equivalentes aos destaques das escolas. Se for contar, são seis aspectos que unem a ópera erudita à popular.

Como é seu processo criativo?

Não existe método, é o somatório dos meus estudos, leituras, vivências, pesquisas que faço depois de o enredo ser definido. Se estou fazendo um enredo sobre comunicação, por exemplo, vou ler tudo sobre isso e aí solto a imaginação. Penso na Capela Sistina, que foi a primeira comunicação entre Deus e o homem, os dedos se tocando...

Já teve que criar um enredo sob pressão?

Uma vez tinha programado um enredo, mas outra escola se antecedeu e veio com o mesmo tema. Como já havia aprendido a não me preocupar, esperei surgir outra ideia. Ao entrar no banheiro de casa, ela veio como um raio: “Trevas, Luz, a Explosão do Universo!”. A teoria do Big Bang. Fiz o enredo com a Viradouro, em cores negras e violeta, e fui campeão em 97.

Qual é a sua obra-prima?

O enredo que causou mais impacto foi “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, de 1989, porque era inusitado. Eu, vindo de montagens com muito luxo, colorido, de repente abandono essa linha e crio o enredo à base  do lixo.  Quis chamar a atenção para a decadência do Rio e imaginei um enredo que convidasse a população de rua a recolher, do lixo da grande cidade, os restos de riqueza. A Igreja soube com antecedência que havia um carro alegórico com estátua de um Cristo mendigo e proibiu, com mandato judicial. A solução foi cobri-la com plástico preto com os dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Repercutiu mais ainda. Esse Carnaval foi deslumbrante, empolgante, causou admiração [e deu à Beija Flor o segundo lugar].

Você acredita já ter cumprido o seu papel?

Não sinto que tenha concluído. O Brasil pode realizar a revolução mais sui generis de todas as revoluções, que seria a revolução da alegria. Minha intuição sempre me disse que, depois da energia elétrica, depois da energia atômica, uma terceira energia, chamada alegria, poderia realizar grandes eventos. A alegria ainda é uma energia desconhecida e perpassa toda a natureza. Tem o dom de curar, de manter, de engrandecer e é muito reveladora. Basta olhar para uma criança e ver a alegria pura que ela tem no olhar para vislumbrar a força da alegria. E pressinto essas energias no Brasil quando vejo, por exemplo, o Festival de Parintins; quando vejo o Sírio de Nazaré, em Belém. Ou o Bumba Meu Boi, no Maranhão. O Carnaval da Bahia, as festas do Sul, o Carnaval do Rio...São expressões deste Brasil grandioso, riquíssimo.

Sua obra é dedicada à alegria. É preciso de um pouco de tristeza para produzir tanta alegria?

Tristeza é a sombra, ausência da alegria. A tristeza está sempre me rodeando, está no fundo da minha alma. É muito difícil apagar essas experiências, que são primitivas, que estão gravadas na virgindade da alma. Ainda tenho que vive outras vidas para apagar a minha tristeza.

O famoso folião também sofre de tristeza?

Até hoje carrego uma personalidade dupla. Carrego uma felicidade que é cada vez maior, mas no fundo ainda perpassa aquela tristeza profunda, cicatrizada no fundo da minha alma. Ela só não cresce porque, agora que estou falando dela, estou desbastando essa tristeza. Não sou mais triste porque já entendi e estou olhando para a minha tristeza. Quando você encara as situações, elas enfraquecem – e isso é inteligência. Com inteligência, entendo o que é minha tristeza, e ela deixa de ser, não tem mais a estatura que tinha. É uma sombrinha, um espectro.

Já sofreu de depressão?

Nunca. Nos anos 70, fui para a Europa durante o outono, com neve caindo, estava em Luxemburgo, numa cidade linda. Eu estava nas montanhas, olhando lá pra baixo, aquele silêncio, uma tristeza muito grande. Senti de onde vinha o romantismo que eu tinha estudado; poetas que morriam jovens, de nostalgia, de pneumonia, como Castro Alves. Aí pensei, “Gente, só se pode ser romântico na Europa. Num país de praia, sol, que não tem neve, ser romântico é ser burro, pretencioso. Vai pra puta que pariu o romantismo no Brasil!”. Porque aqui não é terra para se morrer de tuberculose, é pra se viver muitos anos com muita alegria. Bye, bye romantismo. Luxemburgo vai pra puta que pariu porque eu moro no Brasil!

“Tenho uma necessidade visceral de ficar só e em silêncio. Solidão não é meu problema”

Ganhou dinheiro produzindo alegria?

Já ganhei e já gastei, mas dá pra viver. Tenho um escritório, faço palestras, promoções, eventos. Mas não me meto muito, tenho funcionários que gerenciam tudo. Meu sonho de consumo é um helicóptero, porque é como um beija-flor, levanta vôo para cima, para baixo, para os lados. Já fiz um enredo em que falava do beija-flor espacial, vou estar feliz, porquê trânsito me estressa. Jamais moraria em São Paulo.

Mas você já viajou o mundo...

Sou um perfeito sagitário: jamais serei rico, mas já nasci de maleta pronta. Em 88 fui realizar um espetáculo em Londres no Annabelle’s, o clube mais fechado do mundo. Em 98, montei uma escola de samba com tudo o que tinha direito em plena Paris. O Jack Lang [ministro da cultura da França] fez uma carta elogiando, chamando o que fiz de ópera. Eu tive contato pessoal com ele, expliquei o desfile, contei que futebol já existia na China antes de Cristo. O Jack Lang não sabia nada disso. Nessa mesma viagem, a Selminha Sorriso, que era porta-bandeira da Beija-Flor e estava lá em Paris também, veio se aconselhar comigo: “Joãozinho, que eu faço? O príncipe Albert me procurou depois do show, me levou pra um clube, passou a noite comigo”. Eu perguntei: “Você fez com ele?”. E ela: “Não”. Aí eu falei: “Mônaco está correndo o maior perigo. Se não houver um herdeiro, acaba o principado. Esse Albert já está com quase 40 anos e não mostrou a que veio. Então trepa com esse homem e tenha um filho dele! Você vai ser princesa”. Mas ela não fez.

Você também ficou muito amigo do rei Hassan, do Marrocos...

Durante 12 anos organizei a festa de réveillon do rei. Muita gente fala que conheceu Marrocos, e eu pergunto: “Qual dos Marrocos?” Porque tem dois: o de fora das muralhas e o dos palácios reais. A beleza dos palácios marroquinos nem Hollywood consegue reproduzir, são muito fabulosos. Na primeira vez que fui, com uma pequena amostra da Beija-Flor, enquanto eu discursava para uma corte enorme na noite do dia 31, o rei se levantou, e todos se admiraram, porque não é algo que um rei faz. Aí ele pegou um surdo e, na hora que a bateria entrou, começou a tocar junto. O palácio todo veio abaixo! Nesse momento, pensei: “Sou amigo do rei”. E realmente, naquela noite, ganhei um grande amigo...[João, emocionado, pede um intervalo].

Hoje as pessoas vivem atrás de fama, coisa com que você convive há mais de 30 anos. Como lida com isso?

Me incomoda porque não sinto mais a liberdade de poder sair na rua e ir a qualquer lugar. Você tem que tomar conta de você porque vê que está sendo visto, comentado, requisitado. Eu pareço deputado baiano, cumprimento todo o mundo na rua.

A solidão te incomoda?

Eu pago pelo silêncio e para ficar só. Tenho uma necessidade visceral de ficar só e em silêncio. Solidão não é meu problema.

Muitos intelectuais, quando o citam, usam a palavra gênio. Você se considera um gênio?

Gênio? Gênio eu entendo como alguém que criou coisas muito além do comum. Nós temos gênios na pintura, nas artes, na ciência...Não me vejo alcançando essa graduação. Um gênio da música tira do anda obras completas, fantásticas, grandiosas. Colaborei para construir um evento que tem hoje fama mundial, mas só ajudei nisso. E é só uma brincadeira.

“Gostaria de ser lembrado como um operário, um maçom, aquele que constrói alguma coisa, não se omite”

Como você gostaria de ser lembrado?

Gostaria de ser lembrado como um operário, um maçom, aquele que constrói alguma coisa, não se omite. Gosto da imagem do operário que gosta do que faz, constrói, cria.

Você é religioso?

Fiquei traumatizado na primeira comunhão. Haviam me dito que eu ia receber na boca uma hóstia que simbolizava o corpo de Cristo. Isso me pareceu meio confuso, mas o padre não explicou o que ia acontecer na hora. Quando ele colocou a hóstia na minha língua, eu fechei a boca, e a hóstia colou no céu da boca. Ele não tinha me avisado que isso podia acontecer, só que eu não podia mastigar nem colocar o dedo. Então fiquei com o corpo do senhor Jesus Cristo colado no céu da boca. Não podia chupar, não podia por o dedo. Foi a minha primeira experiência espiritual muito séria. Por isso não me atrevo a grandes vôos espirituais. Religião quer dizer se religar a alguma coisa que está fora do homem. Estamos desligados de tantas coisas...Do amor ao próximo, das emoções da arte, da estética, da ética.

Então você não segue uma religião ortodoxa, como a católica, o judaísmo, o budismo...

Minha religião é o que eu estou te falando, meu templo sou eu. Tenho altares, Shakespeare, Monteiro Lobato, Louise Hay [autora de best-sellers de auto ajuda], muitos altares.

Como lida com o envelhecimento?

Só depois dos 50 anos que eu vim entender que a idade trazia grandes proveitos, só a idade é reveladora, te depura. Mas no Ocidente a ideia é que a idade é catastrófica, mutiladora, é a aproximação da morte. Há milhões de pessoas carregando esse fardo, pessoas apavoradas com a idade, o que levou Jung a dizer que tem “muitas pessoas que morrem antes de nascer completamente” – especialmente as mulheres que escondem a idade. Esse pensamento negativo da idade eu tive até uns 50 anos. Mas depois da isquemia mudei os padrões da minha vida. Deixei de trabalhar tão atabalhoadamente, me organizei, comecei a me alimentar na hora certa, tomar vinho na hora do almoço, dormir mais cedo, fazer a sesta, não fazer extravagâncias. E senti meu físico renovar. Aos 70, estou me sentindo mais jovem, tranquilo, energético. E é tão simples a fórmula!

Você disse já ter tido experiências extra-sensoriais na vida. Pode contar uma delas?

Desde criança eu caminhava e sentia um perfume me acompanhando e não ousava olhar com medo de ver. Eu sentia uma presença física do perfume. Esse perfume foi se transformando; ele tinha um odor meio acre, primitivo, e pouco a pouco foi suavizando. Hoje ele se faz presente de uma maneira muito mais perfeita, e com cheiros maravilhosos que, me desculpem, não são da Terra, são de outra dimensão.

E a morte, o que imagina ser? Tem medo dela?

Medo da morte não tenho de jeito nenhum. Tenho certeza de que a morte é uma passagem e ouço dizer que há uma alegria nessa passagem, principalmente se você se prepara para ela – e eu estou me preparando. Em reencarnação, acredito totalmente. Estou muito satisfeito com a minha vida, com as minhas experiências. Carrego um tesouro, minha vida é um tesouro. Ter passado por tantas situações, coisas boas e ruins...Tenho uma vida gloriosa.

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Jan 26, 2016

Revista Trip - Ano 11 | Nº 58 TATUAGEM. O QUE HOJE É MODA OU VAIDADE QUE FASCINA TEENAGERS, NA...

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Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Ano 11 | Nº 58

TATUAGEM. O QUE HOJE É MODA OU VAIDADE QUE FASCINA TEENAGERS, NA PELE DE UM PRESIDIÁRIO DA DÉCADA DE 20 ERA DESTINO OU FÉ. EM SUA CARCAÇA, ERAM REGISTRADAS DESDE SUAS MULHERES E PREFERENCIAS SEXUAIS ATÉ OS POLICIAIS QUE TIVERAM A INFELICIDADE DE CRUZAR A MIRA DE SEUS CANOS. TRIP SE INFILTROU NO ARQUIVO FOTOGRÁFICO DE UM DOS PRÉDIOS MENOS POPULARES E MAIS CROWDEADOS DO PAÍS. NAS PRÓXIMAS PÁGINAS, AS TATUAGENS DO CARANDIRU.

Por Giuliano Cedroni

O ano, 1920. Data de inauguração do maior complexo presidiário da América latina, a Casa de Detenção de São Paulo. Mil prisioneiros são transferidos de outros cárceres para descabaçar o novo buraco. Entre estupradores, homicidas, estelionatários, bandidos, foras da lei das mais diversas especialidades, o médico psiquiatra de plantão resolve, por conta própria, criar uma seção de criminologia. Moraes Mello, o tal doutor, acaba se apaixonando por um tema que viria a se tornar uma fixação na sua vida: as tatuagens dos presidiários. Para felicidade dos tatoo lovers. Mello registrou e analisou mais de 3 mil imagens perpetuadas nas peles de mentes criminosas. O resultado é fascinante.

As tatuagens vão além do prazer pela estética pura. O jargão “tatua porque tá à toa” é uma das razões que levaram tantos homens pecadores à agulha. Mas existe um outro lado, bem mais interessante. As imagens delatam traços de personalidade do criminoso. Cada uma tem um significado específico, que só quem vivia no presídio flagrava. Há tatuagens que mostram quais as especialidades do detento no mundo do crime. Outras que identificam suas preferências sexuais.

Pontos tatuados na mão entre o polegar e o indicador mostram, por exemplo, de que tipo de bandido se trata. É um ponto  para o batedor de carteira, dois para o estuprador, três para o traficante, quatro e cinco para assaltantes. Dependendo da disposição dos pontos é possível ainda saber a posição na hierarquia da quadrilha. Já o coração coma  frase “amor de mãe” revela homossexualidade passiva, assim como borboletas, sereias e pontos no rosto. Para terror de parte dos detentos, nem sempre as sessões eram feitas com total consentimento do tatuado. Em alguns casos, usava-se a força. É sabido que estuprador nunca foi bem visto nos xilindrós. E é por isso que naquela época todo estuprador tinha a figura de um pênis desenhada nas costas. Isso facilitava sua identificação por todos no presídio. Ter uma tatuagem significava longos e terríveis anos de servidão sexual na cadeia.

Cinzas e saliva. As tatuagens eram feitas dentro da masmorra por alguns detentos que se revelaram verdadeiros skin artists.

Muitas das imagens eram recopiadas em braços, pernas e peitos. Diante de qualquer ateliê de tatuagem contemporânea, as técnicas eram primitivas. Como as agulhas eram proibidas dentro do presídio, os “detentuadores”  foram obrigados a improvisar. Qualquer prego ou pedaço de arame desperdiçado era afiado, escondido e usado na miúda em celas fechadas. Para dar cor aos traços já cobertos de sangue, muita tinta de caneta nanquim era usada. Na falta, o pessoal não hesitava em meter as cinzas de cigarro misturadas a muita saliva. Muita gente padeceu de infecções  por conta do contato da saliva do tatuador com o seu sangue.

Mas pelo menos do ponto de vista estético, o resultado era bastante satisfatório, TRIP mostrou as fotografias do Carandiru ao tatuador Hércoly, que além de extenso currículo no meio tem estreita relação com o tema. Quando tinha quinze anos, Hércoly se mandou para a Ilha Grande, RJ, onde funcionava um dos maiores presídios do país. Durante dois anos, centenas de presidiários passaram por suas agulhas e tiveram suas peles marcadas por este jovem que, sabiamente, fez da ilha seu grande laboratório. Ao observar o trabalho do doutor Mello, suas impressões imediatas: “Muitas dessas tatuagens não poderiam ser mais atuais. Os traços finos, tão usados na última década, estão perdendo terreno para os traços primitivos, que aparecem nessas fotografias. O bom dos traços primitivos é que eles são para sempre, nunca perdem a atualidade. Têm um efeito atemporal garantido”. As tatuagens dos presos do Carandiru de 70 anos atrás nada têm a ver com as tatuagens dos presos de hoje. Isso torna a pesquisa do doutor Mello mais valiosa ainda. “Não acredito que os presos de hoje em dia saibam o que significam as imagens gravadas em seus corpos. Na maioria das vezes, as tatuagens são feitas do lado de fora dos muros, por pura vaidade mesmo. Essa coisa de tatuagem ter um significado é do passado. O trabalho do doutor Mello é brilhante”, diz o médico Dráuzio Varella, que bate cartão há oito anos na Casa de Detenção. Todas as segundas, ele atende presidiários enfermos. Dráuzio não ganha nada por isso. Seu trabalho é totalmente filantrópico.

Conscientes ou não, o fato é que esses presidiários da década de 20 souberam maximizar um trabalho artesanal indiscutível. Mesclando a rotina crua e tediosa do submundo com uma tradição milenar polinésia, essas imagens escrevem em corpos tortos um capítulo da história de nossa sociedade. Viva a arte marginal!

A artista plástica Rosangela Rennó foi a responsável por tirar do anonimato o acervo fotográfico de tatuagens do Carandiru. Através de um trabalho de higienização e acondicionamento dos negativos – grande maioria em vidros – a artista fez uso das imagens interferindo no resultado final. Esse trabalho foi exposto em galerias e museus como o Museu de Arte Contemporânea, de Los Angeles. A revista Paparazzi aproveitou a pesquisa feita pela artista e publicou em primeira mão algumas das fotografias originais.

Agradecimentos a Esmael Martins e Maria do Carmo, do Museu de Criminologia do Complexo Penitenciário Carandiru. Colaborou Arthur Veríssimo.

FOTO 1

Nome: Antonio Vicente

Cor: parda

Profissão: carroceiro

Crime: roubo

Análise: figura religiosa feita por um companheiro de cela. Impressa estrategicamente nas costas, com o intuito de proteção. Ameniza a fúria dos policiais em espancamentos sumários. Poucos ousariam descer o cacete na cara de Jesus.

FOTO 2

Nome: Leandro José Francisco

Cor: preta

Profissão: pedreiro

Crime: roubo (reincidente)

Análise: tatuagens de cunho afetivo feitas em 1927 por sua irmã (não tatuada) e por ele próprio, na face anterior do tórax, a âncora significa esperança e proteção. O coração com punhal encravado mostra comportamento de homossexualidade passiva.

FOTO 3

Nome: José do Nascimento, vulgo “China”

Cor: branca

Profissão: oleiro

Crime: homicídio

Análise: a borboleta é usada normalmente em referencia à liberdade, mas também significa homossexuais.

FOTO 4

Nome: João Antonio de Oliveira

Cor: branca

Profissão; lavrador

Crime: homicídio

Análise: tatuagem acidental “desenhada” em um acidente com arma de fogo, na região interna do supercílio.

FOTO 5

Nome: Jorge Tiosso, vulgo “Gin”

Cor: branca

Estado civil: casado

Profissão: barbeiro

Crime: homicídio

Análise: tatuagem de cunho religioso feita por outro preso tatuado. Ícone de proteção e esperança dos presos, a imagem de Nossa Senhora Aparecida serve também como forma de amenizar pauladas de PMs religiosos..

FOTO 6

Nome: Nazil Gomes da Silva

Cor: parda

Religião: católica

Profissão: barbeiro

Crime: roubo

Análise: tatuagens feitas em parte pelo próprio Nazil entre os anos de 1929 e 1935. A caravela no coração faz referencia à liberdade. Mas o grande destaque deste dorso é, sem dúvida, o pequeno Satanás sobre o umbigo de Nazil. Geralmente esta imagem é usada por quem traz o “doce sorriso da morte nos lábios”, de acordo com o doutor Mello. A figura é frequente até hoje na pele de detentos de alta periculosidade.

FOTO 7

Nome: João de Oliveira Amaral

Cor: branca

Estado civil: solteiro

Profissão: operário

Crime: estupro

Análise: o pontilhismo da figura chama a atenção. É uma amostra exemplar de como eram feitas as tatuagens. Mulheres são as imagens mais comuns gravadas nos corpos dos detentos do Carandiru. Na maioria das vezes são referências às suas amantes e esposas mas em alguns casos representam até mães e filhas.

FOTO 8

Nome: Euclides da Rocha Brasil

Cor: parda

Estado civil: casado

Profissão: eletricista

Crime: bigamia (reincidente)

Análise: esta tatuagem foi feita por um ex-soldado, companheiro de Euclides. Sempre localizados entre o polegar e o indicador, esses pontos curiosos dizem muito. Mostram que apesar de condenado por bigamia, Euclides era membro de uma quadrilha de assalto.

FOTO 9

Nome: João de Abreu

Cor: branca

Profissão: pedreiro

Crime: roubo (reincidente)

Análise: imagens de cobra eram geralmente feitas à força em detentos considerados delatores, não confiáveis, do tipo caguetes. Por isso mesmo, as tattoos de cobras sempre aparecem em partes visíveis do corpo para que tal informação fique ao alcance de todos.

FOTO 10

Nome: João Pereira Klein

Cor: branca

Profissão: lavrador

Crime: latrocínio

Análise: corações com espadas encravadas são figuras comuns em presos tatuados. Podem simbolizar frustrações amorosas mas na maioria dos casos, indicam a homossexualidade do detento.

FOTO 11

Nome: Osvaldo Leitão, vulgo “Cabinho”

Cor: branca

Profissão: comerciante

Crime: furto

Análise: difícil imaginar homens brutos, grandes e maus carregando dizeres como este para todo lado. Mas “Amor de mãe” é uma das frases mais populares nas tatuagens fotografadas na década de 20. Simboliza o homossexualismo.

 

FOTO 12

Nome: Júlio de Santos, vulgo “Cachimbo’

Cor: branca

Profissão: saltimbanco

Crime: furto

Análise: dentre tantas figuras estampadas no corpo desse saltimbanco, existem duas cruzes, uma em cada braço. A “cruz de carvalho’ é uma forma de apresentar um bandido extremamente perigoso. Geralmente aparece nos braços e ombros.

O homem mais tatuado do Carandiru

Edouart Mautret era um francês sem religião. Chegou ao Brasil a bordo de um navio mercante e passou a ganhar a vida como saltimbanco. O Carandiru não foi sua primeira experiência penal. Antes, puxou cadeia na Argélia. O codinome de Mautret resume sua trajetória no crime: “D’Artagnan”. Como o mosqueteiro bastardo, ele comia todas. Com uma diferença: as presas não eram conquistadas na base da sedução e sim da porrada. Assim como existem homens que nasceram para o futebol e outros que parecem modelados para os 100 metros rasos, “DÁrtagnan” era craque em um tipo de crime infame: o estupro. Era considerado um dos presidiários de mais alta periculosidade do Carandiru. Por ser o mais tatuado, seu corpo virou uma obsessão para as lentes do doutor Mello. Muitas de suas tatuagens foram feitas por ele próprio em Argel. Outras, em SP. Merece atenção especial, por mais desgostoso que seja, observar a cruz rabiscada na ferramenta do crime. Morte e sexo associados ao ato de violência. O curioso é que Mautret se dizia ateu.

Jambo Zanzibar

Jan 26, 2016

Revista da Folha - 4 de maio, 1997 | Ano 5 – nº 263 | Pags. 18 a 19 “JAMBO”...

Jambo Zanzibar

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista da Folha - 4 de maio, 1997 | Ano 5 – nº 263 | Pags. 18 a 19

“JAMBO” ZANZIBAR!

ZANZIBAR, APESAR DE MUÇULMANA, TEM CARACTERÍSTICAS AFRICANAS E ACOLHE O TURISTA

Por Giuliano Cedroni

“Jambo!”, dizia o garoto do porto, com um enorme sorriso estampado no rosto, para todos os passageiros que aportavam. A saudação é uma mistura de olá e bem-vindo em suahili, idioma local.

Assim é a chegada em Zanzibar depois de uma hora de barco desde Dar Assalaam, maior cidade da Tanzânia, na África Oriental.

Stonetown, ou “cidade de pedra”, como é chamado o centro histórico da ilha, é patrimônio histórico da humanidade. Hoje é preservado pela Unesco. Só é permitido o tráfego de motocicletas, pessoas, animais de carga e bicicletas por entre suas antigas construções. Ali, automóveis não têm vez. O lugar mais parece um labirinto vivo.

Mas essa é justamente a ideia de quem escolhe passar férias na ilha: andar sem destino e se perder por entre as vielas de Stonetown. Mulheres muçulmanas vestindo longos costumes – deixando apenas os olhos descobertos – passeiam ao lado de turistas em total harmonia. São chamadas de “ninjas”. Cerca de 95% da população local de Zanzibar é da religião muçulmana. Interrompem qualquer atividade para rezarem cinco vezes ao dia, como manda o Corão.

Mas engana-se quem acha que encontrará pessoas agressivas que atacam estrangeiros desavisados. Poucos dos muçulmanos que habitam aquelas terras são ortodoxos. Todos são amistosos. Faça um teste: aponte a câmera fotográfica para o muçulmano mais mal-encarado que puder encontrar em Zanzibar. Em troca, receberá um sorriso.

Por um luxuoso hotel quatro estrelas, paga-se US$ 50. Mas quem não quiser gastar muito e, mesmo assim, dormir bem, pode alugar um quarto numa casa de família por US$ 5. Apesar do suahili ser a língua oficial, o inglês é compreendido por todos na ilha – resquício da colonização britânica.

O lugar é muito seguro. Os nativos orgulham-se em dizer que, em Zanzibar, não há assaltantes. “O turismo é tudo que temos a oferecer”, diz um velho senhor em frente à mesquita central. Bem diferente do passado, quando o porto da ilha era parada obrigatória dos navios mercantes que partiam da Europa em direção às Índias. Na época, cravo era o forte de Zanzibar.

Muito da cultura da ilha pode ser encontrada no Centro Cultural de Zanzibar – com shows de música nativa e performances teatrais – ou na Catedral Anglicana, onde pode-se visitar as câmaras subterrâneas que serviam de moradia para os escravos.

Mas é no Museu do Palácio onde a História de Zanzibar descansa. Os portugueses chegaram ali no século 16 e governaram a ilha até 1652, quando foram expulsos pelo sultão de Omã. Mais tarde, já sob domínio britânico, o mesmo Palácio foi protagonista da mais curta guerra da História. Em 1896, os ingleses bombardearam o prédio durante 45 minutos em resposta a uma revolta contra o trono. Nem é preciso dizer que os britânicos levaram a melhor. Mas a ilha sempre preservou sua personalidade. Como prova disso, Zanzibar ainda hoje possui seu próprio presidente e parlamento. Apesar de pertencer à Tanzânia.

A velha fórmula

O lado leste da ilha, virado apara o Índico, abriga um litoral à altura das praias de Cancún ou Fernando de Noronha. Mesmo. Com uma diária de US$ 10 por pessoa, você terá um chalé com ventilador e banheiro construído sobre as areias da praia. Ao abrir a janela um mar azul turquesa, que muda de paisagem todas às tardes com o movimento das marés, invadirá o quarto.

Jambiani é uma das muitas vilas de pescadores que abrigam turistas. Aproveite para conversas com pescadores (a maioria nunca pisou no continente), comer frutas oferecidas pelas crianças nativas, longas caminhadas, mergulhar nas piscinas naturais...

Pélvis

Jan 26, 2016

Revista Nacional - Nº 01 | Págs. 102 à 109 QUANDO CHEGUEI, ELVIS JÁ ESTAVA NO PRÉDIO. NA PORTA, EM...

Pélvis

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Nacional - Nº 01 | Págs. 102 à 109

QUANDO CHEGUEI, ELVIS JÁ ESTAVA NO PRÉDIO. NA PORTA, EM VEZ DE UM CADILLAC ELDORADO, UM OMEGA PRETO. FILMADO. SINAL DOS NOVOS TEMPOS...SUBI AS ESCADAS E A MENINA ME GUIOU ATÉ A ANTESSALA. ELA ESTAVA AGITADA. NÃO ERA PARA MENOS...ELVIS ERA UM HOMEM ALTO, MAIS ALTO DO QUE IMAGINAVA. ELE VESTIA UMA CALÇA JUSTA DE UM JEANS ESCURO E CAMISA BRANCA DE BOTÃO, BOTAS DE COURO NEGRO, CINTURÃO. E SORRIA...EU TAMBÉM FIQUEI EMOCIONADO.

Por Giuliano Cedroni

Elvis adora o Obama, nunca votou no Lula e confessa, meio envergonhado, que se divertia com o deputado Clodovil. É católico, não bebe, reza muito mas condena a caretice da igreja. “Para dar conselho na vida dos outros homens, um padre deveria poder casar. Sem casar não tem experiência de vida para dar sermão...”. E Elvis tem propriedade para afirmar isso, afinal, está no segundo casamento. Sirlene é cabeleireira e manicure, mas também é assistente, motorista. DJ. Do primeiro casamento lhe restou Priscilla, sua única filha, sua única filha, uma homenagem a Priscilla, única esposa...dele.

Elvis é seu próprio agente. Se você ligar para orçar um show é o próprio quem vai atender, negociar e mandar a nota fiscal. Mas fique tranquilo, o rei é extremamente organizado, não atrasa uma conta e faz a própria contabilidade, o que explica a boa fase nos negócios. Faz pouco, conseguiu quitar Graceland, um apartamento de dois quartos na Consolação, próximo à Avenida Paulista, o carimbo que faltava no passaporte para que finalmente conseguisse realizar um antigo sonho. “Meu visto foi negado duas vezes. Na época eu não tinha imóvel no meu nome e assim eles não dão...Mas agora já tenho!”. Elvis, agora, está apto a conhecer os Estados Unidos, a visitar a verdadeira Graceland, sua Meca particular estranhamente sitiada em Memphis, Tenessee.

Mas talvez os Estados Unidos não mereçam conhecer Elvis. Não este, um lutador, um homem do bem, uma paranaense que de tanto sonhar virou rei. Prepare-se, pois Elvis está vivo e quicando. Sua voz nunca esteve tão boa e, por um punhado de reais, ele pode abalar os pilares de sua própria festa. Imagine só, o rei em pessoa, direto de Iguaraçu...

“Nasci no dia quinze de dezembro de 1968, em Iguaraçu, cidade pequenininha próxima a Maringá, no Paraná. Sou sagitário, fui criado na roça, cumpri o estudo médio e minha mãe sonhava que eu fosse médico...Meu nome de batismo é Edson Carlos Galhardi.”

Elvis Aaron Presley é capricórnio e não veio da roça – mas quase. Nasceu no dia 8 de janeiro de 1935 na pequena cidade de Tupelo, Mississipi. Irmão gêmeo de Jessie, que morreu no parto. Elvis foi o único filho de Vernon e Gladys, gente simples do interior americano.

“Meus pais só ouviam sertanejo de raiz, como Tonico & Tinoco. Nada contra os novos (sertanejos), mas gosto mesmo é de música de porteira, romântica. Sou fã do Sérgio Reis.”

Essencialmente, Elvis é um cantor country que, na tradução literal, significa “interior”, fora dos centros urbanos, e que numa associação mais livre rima com o nosso “sertão”, do sertanejo. As referencias do jovem Elvis sempre foram country até ele resolver bagunçar as coisas...Pegou a música “sertaneja” local, misturou com o gospel e o blues, originalmente cantados por negros americanos, e inventou algo novo. No dia 5 de julho de 1954, no porão da gravadora Sum Records, do produtor musical Sam Phillips, Elvis Presley, Scotty Moore e Bill Black materializaram numa fita magnética a canção “Blue Moon of Kentucky”. Nascia ali o rock de gente caipira, chamada jocosamente de “billy”. Nascia o rockabilly.

“Aos doze anos conheci o Elvis através de uma capa de disco. Um amigo me emprestou o álbum e fiquei estático com a sua imagem...Era um disco dos anos 70, e ele estava vestido com gola alta, cinturão e capa, tudo o que eu adorava assistir no cinema – Super Homem, Batman & Robin, e todos os outros personagens que uma criança adora...Para mim, Elvis era um super-herói!”

Edson Carlos “conheceu” Elvis três anos após a morte do rei. Era o ano de 1980no Brasil, quando um garoto de doze anos do interior está ávido por informação mas carente de referências. E se Elvis migrou de Tupelo para Memphis aos treze anos de idade, Edson fez o mesmo movimento, mas de Iguaraçu para Maringá.

“Quando mudamos, comecei a gravar os discos do Elvis em fitas cassete. Fazia capinha, escrevia as canções, era bem caprichoso. E vendia muito, viu? Até que fui trabalhar com meu pai, que era marceneiro...”

Galhardi trabalhou como assistente de marceneiro durante anos até que seu pai lhe conseguiu um emprego numa loja de materiais de construção. Coincidentemente, Presley também respirou o ambiente de pregos, brocas e parafusos. Ao se formar no colegial, em 1953, já em Memphis, Elvis foi trabalhar na Precision Tool Company, indústria que produzia ferramentas, para, depois, virar motorista de caminhão. Daí o famoso topete, que, segundo ele, era a marca dos truck drivers da época...Já Edson, em vez do volante, em vez do volante, pegava mesmo é na vassoura...

“Enquanto varria a loja, passava o café ou arrumava o almoxarifado, eu cantava. Cantava o tempo todo. No começo eu cantava um pouco de tudo, mas logo foquei em Elvis. Eu só cantava Elvis.”

De tanto ouvir as letras enquanto enchia caixas e caixas de BASF com o som do finado rei, Edson decorava palavras em inglês. Depois frases inteiras. Até memorizar a canção completa, mesmo sem saber o significado daquilo tudo. E quando não conseguia distinguir o som de determinada palavra, improvisava lançando uso de uma nova língua. Um dialeto originado bem ali na fronteira entre o Paraná e o Mississippi, estados vizinhos segundo o fabuloso mundo de Edson Carlos...

“Quando ficava sozinho em casa, fechava a porta do meu quarto, colocava um disco do Elvis, aumentava o volume, entrava totalmente debaixo da coberta e puxava a caixa de som colando-a no meu ouvido. Eu fechava os olhos e me imaginava cantando aquela música linda, no palco...Ficava horas assim, ouvindo e imaginando.”

Mas o que pouca gente sabe é que foi Sílvio Santos quem deu um empurrão na carreira de Elvis. Se não fosse o seu programa de calouros, não estaríamos aqui hoje...Sílvio Santos foi o Sam Phillips de Edson.

“De tanto me ouvirem cantar, meus patrões me autorizaram fazer interurbano para tentar ir ao SBT. Após 42 ligações, consegui me inscrever. Peguei autorização pra viajar sozinho, entrei num ônibus e ‘vimbora’ pra São Paulo...Eu tinha 16 anos.”

Mas nada vem fácil na vida de Edson Carlos. Ao chegar na coxia do Sistema Brasileiro de Televisão, uma pequena horda o esperava. Nada de fãs, aquilo era a mais acirrada concorrência. Cantantes populares, malabaristas desempregados, engolidores de cadeado e outros artistas suspeitos. Um a um, os calouros eram anunciados pelo microfone do Sílvio e nada de chamarem Elvis...Até que as gravações daquele sábado terminaram e a produção veio checar quem poderia voltar no final de semana seguinte. O jovem de Iguaraçu explicou que ficaria muito caro para ele retornar pois tinha vindo de longe...O SBT então pagou um cachê, mesmo sem ele ter se apresentado e, assim, Edson voltou no fim de semana seguinte. E no outro. E no outro. Somente no quarto final de semana, cruzando o país de ônibus, sozinho, é que finalmente nosso herói foi recebido no palco por Sílvio Santos. Após meia dúzia de palavras, Elvis começou a cantar...

“De tão nervoso eu esquecia letra e tive que cantar meio no embromation, fingindo um inglês que não era inglês. E não deu outra: a Aracy de Almeida me reprovou sem misericórdia. Fiquei arrasado. Semana seguinte, liguei muito para o SBT implorando para editarem a fita e me deixarem fora do programa. Não teve jeito, virei piada em casa, na rua, no trabalho...”

Mas o debut tragicômico de Edson culminou no empurrão que sua carreira artística precisava. Seus patrões, após o período das piadas, o levaram no Yakisoba, um restaurante chinês em Maringá. Convenceram o proprietário Liu que o jovem ali tinha talento e que o repertório Presleyano poderia atrair a clientela. Desconfiado, o chinês aceitou experimentar, mas “sem compromisso”...

“A primeira canção foi My Way. Comecei a cantar ‘and now, the end is near, and so I face, the final curtain...’ e o restaurante parou pra ouvir. Eu tremia de nervoso, mas segui cantando. No final, fui muito aplaudido. E durante os próximos cinco anos eu acordava às cinco, ia para o trabalho, de lá para a escola, chegava no restaurante às onze, cantava até a uma da manhã e voltava pra casa a pé. Dia seguinte começava tudo de novo...”

Uma das explicações que os biógrafos tecem a respeito do sucesso retumbante de Elvis é a cor da sua pele. Quando descobriram que aquela voz sensual e provocadora não vinha de um negro, mas sim de um jovem branco, bonito e que ainda tinha aquele gestual todo...  o cara estourou. Musicalmente, existem três Elvis: o Elvis dos anos 50, muito centrado no rockabilly; o Elvis dos anos 60, mais rock’n roll e comercial; e o Elvis dos anos 70, mais maduro e romântico.

Eu prefiro o Elvis dos anos 70, quando suas canções falam mais do seu relacionamento complicado com a Priscilla, inclusive da falta desse relacionamento, e quando ele resolve usar aquele visual incrível, com roupas brilhantes, capa e echarpe...”

Além do cover, Edson é também um colecionador de Elvis. Se somarmos os objetos de sua memorabília, são 140 LPs, 150 CDs, 100 DVDs, livros, revistas, pôsteres... E desse montante, muitos objetos são oficiais”, um conceito importante no mundo dos imitadores de Elvis. No Brasil existem cerca de 30 covers profissionais de Elvis Presley, mas nos Estados Unidos são mais de 80 mil. Fora os fãs... E como se há mercado, há demanda, após sua morte formou-se uma verdadeira corrida do ouro para abastecer esses milhares de consumidores de Elvis. Hoje é possível comprar basicamente de tudo na web relacionado ao rei, de réplicas dos móveis que ainda estão em Graceland a Cadillacs. E para cada objeto-Presley existem duas categorias; os piratas e os “oficiais”. Oficial é tudo o que leva o selo de alguma das instituições “oficiais” de Elvis. São fundações, institutos, associações e afins, reconhecidas de alguma forma pelos herdeiros do rei, e que atestam que aquele objeto segue o padrão do originalmente usado pelo rei. Um exemplo: após a morte do cantor, a banda que o acompanhava gravou boa parte das músicas sem a voz. Esses são os CDs usados por Edson quando é contratado em sua versão solo, sem a banda. O microfone de Edson é o Sure Beta, exatamente o mesmo usado por Elvis. As roupas...

“Quando a caixa chegou em casa, liguei para minha mulher e a chamei às pressas. Ela estava atendendo um cliente, mas pediu licença e veio correndo. Eu estava ansioso, não me aguentava... Ao abrir a caixa e ver as cores da roupa, comecei a chorar como criança, de ajoelhar no chão e agradecer a Deus”.

Edson tinha a sua frente o ‘Dragon’, um dos trajes oficiais de Elvis. Ele foi feito na mesma empresa que costurava as famosas roupas do rei. Dragon, Phoenix, Tiffany, Red Lion, Old Indian, Eylet e Matador são alguns dos nomes dos looks batizados pelo próprio. Cada um custa em média US$ 6 mil, e Edson possui dez. Dos nacionais, são 140 trajes em seu guarda-roupa, bordados a mão pelo próprio Edson. Sem falar das joias, que o paranaense mandou fazer exatamente como as usadas por Mr. Presley. Como disse anteriormente, além de cover e estudioso, Edson Carlos é um estudioso de Elvis Aaron.

“Eu não falo inglês. Tenho uma micronoção , mas não falo. Acontece que estudo tanto que hoje canto na pronúncia do Elvis, que tinha um sotaque caipira, do country... Nunca tive tempo ou dinheiro para estudar e o que aprendi foi lendo o ouvindo muito os discos. Quando tem uma frase que fico na dúvida, eu busco. As pessoas não acreditam mas isso é fato. Não falo inglês e hoje canto 200 músicas do... “

Elvis gravou mais de 800 canções. Não era um compositor. Escreveu uma ou outra música, sempre em parceria. Mas não precisa ser um expert em Elvis para saber que parte da emoção que se sente ao ouví-lo vem do sentido das letras, do que ele está cantando... E como alguém dedica sua vida a obra de determinado artista sem saber o que aquilo significa exatamente, sem saber o que ele está dizendo literalmente?

“Minha emoção não vem da tradução do que ele está dizendo, vem de uma ligação espiritual à maneira com que as pessoas estão me observando. Posso cantar qualquer coisa do Elvis, algo que não me diz muito pessoalmente, mas se aquilo tem um impacto nas pessoas que estão me assistindo... então há emoção ali.”

A perspicácia de Edson é admirável, e talvez um tanto instintiva. Na prática, ele é um artista que performa uma obra de língua inglesa num país onde a maioria não domina essa língua. E emoção, como sabemos, não reconhece língua, dialeto ou sotaque. Emoção se sente. E ponto. Não fosse isso, como explicar os cerca de 150 shows que Edson faz por ano? Calcule que cada apresentação custa em média R$ 2 mil, dependendo do traje a ser usado, e verá que este é um mercado tão promissor como qualquer outro.

“Para mim não teve crise. Às vezes faço três shows no mesmo dia, e há anos não tenho Natal e Reveillon; são todos bookados...”

Em janeiro de 1973, Elvis deu um show no Havaí chamado ‘Élvis, Aloha from Hawaii’. Pela primeira vez na história, um concerto tinha transmissão ao vivo via satélite. Nada menos que um bilhão de pessoas assistiram ao evento, em 36 países. Como se não bastasse, Elvis doou o cachê de US$ 75 mil daquela noite para entidades carentes. Edson Carlos também faz shows beneficentes. Os cachês são mais singelos, e os lugares, menos conhecidos. São José do Rio Pardo, Anápolis, Sinop, Campos de Jordão. Em Macaé se apresentou para 30 mil pessoas – era um encontro de motoqueiros. Já em Natal, foram onze mil fãs. E assim, nosso filho de Iguaraçu já rodou o país...

“Sonho com Elvis me dando conselhos para eu não parar, dizendo que eu canto bem, que o represento direito, que esse meu lado espiritual é verdadeiro... Já sonhei muito que estava sentado numa ponte na beira do rio, eu e ele, com as pernas balançando, jogando pedra na água e conversando sobre coisas simples da vida.”

Edson e Elvis se encontram regularmente. São horas de sonhos que, somados, já formam um relacionamento. Nos encontros, Elvis sempre fala em português, e Edson tem motivo para crer que sonhos não são apenas sonhos...

“Uma vez fiz um show beneficente para espíritas em Caldas Novas, Goiás, e ‘My Way’ não estava no repertório. Mas a energia do show estava boa que resolvi cantar. Diz o seu Machado, que é o médium de lá, uma pessoa muito pura, que o Elvis ‘tava ali do meu lado, sorridente, me acompanhando pelo palco... Segundo eles, no ano seguinte eles não iam fazer o show, mas a pedido de Johnny, como Elvis é conhecido entre os espíritas, resolveram fazer. Na ocasião conseguiram fechar sessenta patrocínios... Outras pessoas, em outros shows, disseram que viram o mesmo, que viram Elvis ali do meu lado.”

“Acho que Elvis Presley nunca será solucionado.” O statement é assinado por Nick Toshes, repórter do New York Times e autor de ‘Loud Covenants’, no original, ou ‘criaturas Flamejantes’, na versão brasileira editada pela Conrad. A leitura, como tudo de Toshes, que também escreveu o excelente ‘A Última casa de Ópico’, é forte e certeira, como a frase acima, que define o fenômeno que foi encontrado morto no chão de seu banheiro, em Memphis, na manhã de 16 de agosto de 1977. Em seu corpo haviam 13 diferentes tipos de drogas, nada de cocaína, heroína ou outra “ína” ilícita. Apenas remédios prescritos. Elvis tinha apenas 42 anos. Edson tem hoje 40.

“Eu me entrego muito para as pessoas. Antes de finalizar todos os meus shows, peço uma salva de palmas para todos os trabalhadores daquele evento: os garçons e garçonetes, os cozinheiros, os manobristas...Eu sei o que é ter de andar a pé por não ter grana pra pegar um busão, de não ter como comprar um café, um leite...Já passei por isso”.

Se Elvis não tivesse errado na dosagem de seus remédios, naquele verão de 77, hoje teria 74 anos. Nada absurdo pensar no rei ainda na ativa, performando.

“Eu era inseguro como Edson, e usava o Elvis para me afirmar, conseguir mulher e tal. Penteava este topete, colocava uma calça apertada, um cintão e ponto. Mas hoje separei completamente as duas coisas...sou o Edson e sou feliz.”

Edson Carlos Galhardi diz isso enquanto se prepara para a sessão de fotos que você tem em mãos. Meticuloso, cumpre um ritual que já repetiu milhares de vezes. Cabelo, costeleta, joias e finalmente o traje. O resultado final, como podem conferir, é acachapante, mas o verdadeiro teste para um cantor é, e sempre foi, o palco. O primeiro show de Elvis se deu num festival de colégio em Memphis, para garotos e garotas que ficaram boquiabertos com aquele jovem caipira tão cheio de confiança. Em 1954, ele faria sua primeira apresentação profissional, ou seja, que envolvia cachê. Nada de ginásios ou estádios...Elvis se apresentou num modesto motel de Memphis, o Bel Air motel. Já sua última apresentação foi na turnê Elvis In Concert, em junho de 1977, poucas semanas antes dele falecer. Ao final do show os fãs simplesmente não iam embora, mesmo após o biz, o que obrigava os organizadores a anunciar a célebre frase “Elvis has left the building”. Já para Edson, o primeiro show foi no mesmo restaurante Yakisoba e seria mais um teste para sua determinação em virar artista. Desta vez, um teste que lhe renderia um trauma emocional e uma cicatriz...

“Depois de cantar muito com o playback, propus ao chinês um show cover do Elvis. Ele disse que aceitava desde que não tivesse que gastar nenhum tostão. Fiz tudo sozinho: costurei uma roupa preta como a do rei, contratei banda e liderei os ensaios, construí um palco com a ajuda do meu pai divulguei o evento na redondeza...No dia do show me dei conta que não tinha camarim, e Elvis precisa de camarim. Então juntei os engradados de cerveja e improvisei um camarim ao lado do palco. Cheguei horas antes do restaurante abrir, entrei lá antes que me visem, e esperei a hora do show. A casa foi enchendo até ficar completamente lotada, e finalmente dei o sinal para a banda começar. Na hora de subir no palco, pisei numa cadeira bamba, que servia de escada, ela titubeou, eu desequilibrei, bati a cabeça num ferro preso ao teto. Despenquei pra trás, caindo de volta ao ‘camarim’...Só a banda viu o meu tombo, mas seguiu tocando. Levantei, respirei fundo e entrei correndo, ainda em pânico. Comecei a cantar e então senti um calor estranho. Quando olhei para o meu violão, ele estava todo pintado de vermelho. Fiz um corte na cabeça que, mais tarde, precisou de quatro pontos para fechar. Minha mãe disse ter achado que era efeito especial...”

Mesmo ferido, o intérprete foi até o fim. Entre chop sueys e rolinhos primavera, Edson Carlos cantou e emocionou a plateia do Yakisoba proporcionando-lhes um verdadeiro espetáculo. Suspicious Minds, Love Me Tender, Its Now or Never...Tudo com muito suor e sangue. Naquela fatídica noite, a sociedade de Maringá degustou de um banquete musical que satisfez seus famigerados corações. Sucesso era pouco. No final do concerto, já sentindo-se tonto e fraco, o artista despediu-se de seu público, desceu do palco e voltou para o seu “camarim de Brahma”. Seu pânico era tamanho, que não teve coragem de sair e enfrentar os fãs. Ao invés disso, escondeu-se debaixo do palco. Acabou desmaiado ali mesmo, de onde só sairia às três da manhã quando o pessoal da faxina, varrendo o local daquele show histórico, o acordou aos berros: “Olha o Elvis! Ele ‘tá aqui! O Elvis ‘tá aqui!” A partir desse momento, a vida do jovem rapaz de Iguaraçu tomaria um rumo fora do comum. Ele abandonaria o Carlos, seu nome do meio, para virar Edson Galhardi, o maior cover de Elvis Presley do Brasil! 

Feliz Natal

Jan 26, 2016

Revista Poder - Maio 2009, nº 15 | Pags. 26 - 33 É ASSIM QUE CAETANO VELOSO SE MOSTRA DO...

Feliz Natal

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Poder - Maio 2009, nº 15 | Pags. 26 - 33

É ASSIM QUE CAETANO VELOSO SE MOSTRA DO ALTO DE SEUS 66 ANOS: COMO SE TIVESSE ACABADO DE NASCER – DE NOVO. EM TURNÊ PELO PAÍS COM ZII E ZIE, SEU NOVO ÁLBUM DE ROCK, ESTÁ OTIMISTA COM O BRASIL DE LULA, FHC, SERRA, DILMA, AÉCIO, CIRO...

Por Giuliano Cedroni • Fotos Fernando Young

Caetano Veloso morreu. Também sinto muito...Aquele do tropicalismo, aquele dos Doces Bárbaros, do Cinema Falado, de Transa e Joia, que já não era o mesmo de Verdade Tropical nem de Qualquer Coisa...Aquele Caetano morreu. O Caetano dos ternos bem cortados, da apresentação no Oscar, da Paula Lavigne...Kaput. Talvez ainda resto um pouco do Caetano de Sampa, de Fina Estampa e ...Se bem que também não. O Caetano de hoje, mesmo, já não é nem o Caetano da entrevista que você tem em mãos, feita no fim de abril. O Caetano de hoje é o novo, e o novo é para poucos.22

Um dos artistas mais completos em atividade no Brasil, Caetano está, segundo o próprio, entrando na “infância da velhice”. E está muito à vontade com isso. Nada de lipo, botox ou tinta do cabelo. No lugar de camisas peroladas, uma jaqueta jeans rasgada. No lugar de sapato bico fino, tênis baixo. E o baiano nunca esteve tão bonito...

Aos 66 anos, avô duas, Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso acaba de lançar seu álbum de número 42, o Zii e Zie. Musicalmente é uma continuação do anterior , com a mesma jovem banda intitulada...Cê. Mas as letras deste de nada lembram as daquele. Se em ele registrava sua separação de Paula Lavigne, mãe de dois filhos seus, agora ele canta Guantánamo, Leblon, Lapa, Lula, FHC, canta também outras mulheres e sobretudo o acerto do rock. Em todos os sentidos.

Caetano recebeu PODER num estúdio de som onde ensaiava para a turnê que tinha sua estreia marcada pra dali uma semana. Rodeado por garotos – sua banda é formada por três jovens músicos, dentre eles o brilhante guitarrista Pedro Sá -, o tropicalista consegue a difícil façanha de transitar entre a juventude sem parecer ridículo. Ao contrário, Caetano tem no olhar o brilho de um menino faminto por novas aventuras, com a diferença de que agora é senhor junto. Foi assim com o Rock dos anos 80, com o mangue, com o rap, o funk carioca. Sem mencionar o baião, o forró, o folk, o axé, o sertanejo, o jazz, o coco.

Não tem jeito, Caetano não censura nem tem censura. Sofre da total falta de preconceitos, o que talvez explique o talento de se repensar de forma verdadeira e periódica. Poucos músicos de destaque no mundo conseguem tal proeza. Podemos contar nos dedos: Dylan, Madonna, David Bowie, Byrne. Talvez Bono, quando não está tentando salvar o mundo. No Brasil só mesmo Tom Zé. Zii e Zie vem para provar isso – mais uma vez. E prova de seu próprio destino.

“Odeio cocaína. Tudo: a maneira como as pessoas aspiram, o fedor do corpo de quem cheira e a economia paralela ilegal que cresceu por causa de seu consumo”.

Falou com pressa, afinal precisava ensaiar, e nesse momento de sua vida nada é mais importante que sua música. Críticas, mídia, flashes, nada disso é relevante. Isso sim é poder. E para lhe adocicar a boca entre uma resposta e outra, a mesma Coca-Cola de sempre.

Veloso falou de Cê & FHC, de Lula & Obama, de Veja & Daslu, de Mangabeira & Gabeira e de como ele próprio “não seria ninguém sem o samba”. Ouvindo-o, me dei conta de que seu maior poder é o de se reinventar. Poderia fazer como a maioria e criar mais do mesmo, nadando nas águas tranquilas de quem domina um único estilo, um único discurso. Todos os seus colegas fazem isso, até mesmo seu mestre João Gilberto. Mas não. A cada novo movimento artístico lançado, Caetano se arrisca e chega também que o garoto de Santo Amaro da Purificação chegou num altar no qual não se trata tanto do resultado e sim do processo. His journey is the destination. Enquanto o camaleão estiver interessado em novos olhares, novos cortes de cabelo, novas gírias... estaremos salvos. Caetano é o satélite avançado que filtra o melhor do novo e nos devolve em ondas clássicas. É o surfista prateado do Brasil. Em um aforismo irresponsável, é o próprio Brasil.

“Acho melhor ser do que não ser”. A frase, que talvez resuma a si próprio, foi dita num jardim de bambus no Japão, quando Caetano excursionava com o álbum A Foreign Sound. A cena foi incluída no corte final de Coração Vagabundo, documentário de Fernando Grostein Andrade que segue o baiano por shows em São Paulo, Nova York, Tóquio e Osaka. Com estreia marcada para julho deste ano, o filme traz um retrato inédito do artista em um momento de profunda transição que, de certa forma, culminou em Zii e Zie. “Eu sou do sol, quero ser lúcido e feliz”, declara. E é assim que ele se mostrou na entrevista a seguir, lúcido e feliz.

PODER:  No seu novo álbum, tem-se a impressão de que o som é mais calmo, mas, ao mesmo tempo, as letras são mais amplas e fortes que em Cê. É isso mesmo?

CAETANO: Não sei se as letras são mais fortes, mas seguramente são mais amplas. é muito restrito, quase que um tema só. É uma letra, né? C...

PODER: Você já tocou com bandas grandes e músicos consagrados. Agora está com três garotos. Como tem sido a experiência?

C: Muito boa. Eles são muito, muito bons e nosso diálogo é muito claro. O gosto musical, a decisão a respeito de arranjos, a escolha de canções – qualquer coisa que um de nós diga, os outros três entende logo. Não há nem tempo para pensar como funcionam as diferenças, entendeu? É muito imediata nossa comunicação: fala, a gente sabe, toca, já entende.

PODER: Na canção “Falso Leblon”, você faz uma descrição interessante da cultura das baladas, ecstasy e maconha. Voltou a se interessar pela boemia jovem?

C: Eu nunca me desinteressei dela. Mas não gosto de drogas. Odeio cocaína. Tudo: odeio a maneira como as pessoas aspiram, odeio o fedor do corpo de quem cheira. Odeio a cultura de economia paralela ilegal que cresceu por causa do consumo da cocaína. Da boemia, me interessam as pessoas.

PODER: Com o aparecimento das drogas sintéticas, o consumo de cocaína teria diminuído. Mas, agora, os números indicam que voltou com tudo. Você sente isso nas suas andanças pela jovem boemia?

C: Eu ouvi falar isso que você está dizendo. E fico triste. Veja a cocaína em forma de crack, por exemplo. O crack é o único negócio que me balança. Seu efeito é muito rápido e destrói muita gente pobre e desavisada. Seu aparecimento abalou minha decisão de princípio, que é ser a favor da legalização das drogas.

PODER: Outro dia, você escreveu no seu blog: “Folha, Veja, Fasano, Daslu, Sala São Paulo, Museu da Língua Portuguesa. Tudo isso faz pensar o quanto Sampa é influente e interessante”. Não é novidade que você tem uma relação conflituosa com a Veja. Mesmo assim acha que a revista faz de São Paulo uma cidade mais interessante?

C: Não há dúvida e isso não depende de concordância. Mas não estava ali fazendo qualquer julgamento moral ou político. Muita gente ficou ofendida por eu incluir não a Veja, mas a Daslu e até o Fasano. Eu acho a Veja mais complicada do que a Daslu. Mas não estava preocupado com isso. É apenas uma lista de coisas que mostram a força da cidade.

PODER: Veja criticou duramente seu novo disco...

C: Eu não li. Até quero ler. Eu leio a Veja às vezes, sabia? Quando viajo de avião eu compro. Porque é uma revista boa, dá pra ler. A gente fica com raiva de umas coisas, ri de outras. Você tem a Veja que fala do nosso disco, Pedro [Sá, guitarrista da banda]? Me empresta? Eu vi você falar um pouco mas não sei o conteúdo...

PODER: No release do álbum à imprensa, você diz que o disco saúda a era FHC – Lula e a ambição do Brasil de ter uma ascendência no cenário internacional. Ao mesmo tempo, estamos vivendo um período de descrença nos políticos...

C: Uma descrença nos nossos parlamentares, né? Por outro lado, nunca vi político tão bem aprovado e tão bem equilibrado quanto o Lula. FHC, enquanto foi bem avaliado pela população, também era assim. O aspecto ideológico, a ideia de melhorar a sociedade, isso veio com a esquerda – que sempre esteve muito descolada da prática real. O Lula faz bem essa jogada de representar os anseios da esquerda e ser superpragmático. Ele e FHC marcam um nível muito elevado entre governantes.

PODER: No passado, eram da mesma turma.

C: No conjunto, é muito bom que FHC tenha vencido as eleições por causa da criação do Plano real, e que Lula tenha mantido isso. Acho muito cafona o José Dirceu falar em herança maldita, já que o governo Lula continuou a política econômica que foi instaurada antes. Henrique Meirelles é uma figura mais representativa daquilo que Lula combatia quando estava na oposição do que qualquer outro governo FHC. O antagonismo PT – PSDB é superficial, eleitoral e fingido de ambas as partes. Tudo bem, política tem esses componentes também, mas não submeto minha observação a essa mascarada.

“O antagonismo PT –PSDB é superficial, eleitoral e fingido de ambas as partes. Tudo bem, a política tem esses componentes também. Mas não submeto minha observação a essa mascarada.”

PODER: Esses aspectos são mais importantes do que a discussão da lama no Congresso?

C: O Brasil produziu figuras políticas como Marina Silva e Fernando Gabeira. São figuras que, independentemente do que vem acontecendo no plano mais genérico, têm uma responsabilidade ética, têm ideias às quais devem lealdade. E são acompanhadas, conscientemente, por grandes grupos da sociedade. Isso é uma coisa nova, boa, diferentemente do acompanhamento meramente fisiológico e do acompanhamento ao estilo torcida ideológica, como a esquerda fazia antes.

PODER: Você parece otimista diante do nosso cenário político...

C: Estou dizendo que esses aspectos são melhores do que esses outros, horrendos, de que todo mundo fala.

PODER: A farra das passagens aéreas no Senado acabou atingindo o próprio Gabeira. Acha que ele se saiu bem fazendo um mea-culpa?

C: Gabeira agiu como sempre age. É até muito notável que ele seja parlamentar há tanto tempo e tão pouco da cultura atrasada politicamente o tenha contaminado. Todos no Brasil sabem quem é o Gabeira. E a Marina Silva também – é um grande quadro. Depois, é importantíssimo que o Lula tenha finalmente convidado o Roberto Mangabeira [Unger] para o governo.

PODER: Você o apoiava antes, não é?

C: Desde os anos 80 que apoio o Mangabeira. A imprensa se recusava a botar minhas declarações. Por mais de dez anos cortaram o nome dele das minhas entrevistas. Você que é da imprensa deve dizer: não é inacreditável?

PODER: Se te desse poder para mudar a estrutura política do país, você teria hoje alguma ideia aprumada do que fazer?

C: Não, mas o Roberto Mangabeira tem. Não estou dizendo que suas ideias se tornariam benéficas – mas ele tem ideias e elas são interessantes.

PODER: O que você achou da sugestão, um tanto irônica, do senador Cristovão Buarque de fazer um plebiscito para decidir se o Congresso deve ou não continuar existindo?

C: Não sou muito plebiscitarista não. Porque você não pode ficar fazendo plebiscito para tudo, senão vira a ditadura da maioria. Não é assim. Mas eu gosto de Cristovão, acho ele bacana, aquela ênfase na educação...É um velho negócio brasileiro, isso de que a educação vai resolver tudo. É importante mesmo. Se alguém pegar esse assunto com garra e disser que vai botar isso pra funcionar, pode representar uma grande mudança para o Brasil. Agora, isso de plebiscito para ver se tem ou não Congresso, não acho interessante. Tem de mudar as regras a partir de como elas são. Congressista não tem de ter muita vantagem, tem de ter é desejo de contribuir. Sua atuação não deveria representar uma subida na escala social e econômica. Você deveria querer ser deputado para contribuir na organização das coisas.

“Já votei no Ciro Gomes. Mas, quanto mais se aproximou do poder central, mais apareceram nele características que me deixaram preocupado caso tivesse poderes mais amplos. Eu o achei destemperado. Sinto dizer isso...”

PODER: O cenário das próximas eleições para presidente apresenta até agora quatro candidatos: Serra, Aécio, Dilma e Ciro. Tem alguma preferência?

C: Não. Já votei no Ciro. Gosto dele desde que foi prefeito de Fortaleza. Mas, quanto mais se aproximou do poder central, mais apareceram características nele que me deixaram preocupado caso ele tivesse poderes mais amplos. Eu o achei um pouco destemperado e um pouco como se estivesse deslumbrado demais consigo mesmo. Sinto dizer isso, porque quero bem a ele demais. Eu o sinto de longe como um amigo. Estou dizendo isso com sinceridade. Agora, de alguma forma, Lula está certo: os candidatos são todos bons, todos de esquerda. Não acho que ser de esquerda é necessariamente bom, não. Mas, no caso dos quatro, são quatro bons candidatos de esquerda.

PODER: Vivemos hoje uma terrível crise financeira mundial e uma das grandes frases do Lula sobre o nosso assunto foi aquela em que, ao lado do primeiro-ministro Gordon Brown, culpou os brancos de olhos azuis. O que achou da declaração?

C: Li um artigo da Maureen Dowd, do New York Times, que achei muito interessante. Até traduzi e botei no meu blog. Apesar de dizer que o Lula estava querendo competir com o papa em falar besteira (o papa tinha dito que a camisinha espalha a Aids), ela termina constatando que a sua fala tinha tocado em um nervo sensível e real. Lula tem isso, né? Ele está sempre correndo o perigo de passar do limite. Tem realmente uma intuição rica e profunda. A história dele, a personalidade, tudo contribui para que ele tenha isso.

PODER: Na semana seguinte Obama o encontra e diz que ele é o cara...

C: This is my man! E depois fala que ele é boa pinta. Não é, né?...

PODER: Qual o sentido de um sujeito como Obama assumir a presidência dos EUA?

C: Tem um valor simbólico tal como o caso de Lula e, por outro lado, significa de fato a disposição da revolução americana, que é uma revolução em curso. Os EUA são um país revolucionário. E que permanece fiel aos princípios da sua revolução, na medida do possível. A eleição de Obama vai contra tudo o que Bush representou e que estava já demasiado longe dos ideais da revolução.

PODER: Com Obama, os EUA estão tentando se reinventar. O Brasil também tem essa capacidade?

C: O Brasil tem mostrado ao longo do tempo muita incompetência. Mas desenvolveu uma superação disso que aos meus olhos é consideravelmente rápida. Você devia ler – e recomendar a todos que lessem – uma entrevista recente do Mangabeira na Gazeta Mercantil. Ele fala sobre como uma crise pode ser uma oportunidade para o Brasil. Eu, de minha parte, observo que o Brasil partiu de situações bastante desvantajosas e convive com situações especialmente desvantajosas. O próprio fato de falarmos português é uma enorme desvantagem comparativa. No entanto, é também uma benção. Se não tivessem sido os portugueses os colonizadores do Brasil, não haveria o samba. E eu não posso me imaginar sem o samba. Nem a mim, nem ao Oscar Niemeyer, nem a Marilena Chauí.

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O jornalista e roteirista Giuliano Cedroni é diretor de conteúdo da Prodigo Fims. Ele assina o roteiro de Coração Vagabundo, documentário sobre Caetano Veloso com estreia marcada para julho.

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Uma Estrada Num Mar de Lama BR-319

Jan 26, 2016

Os Caminho da Terra - Maio 96 | Ano 5 – Edição 49 | Págs. 66 - 71 UMA ESTRADA...

Uma Estrada Num Mar de Lama BR-319

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Os Caminho da Terra - Maio 96 | Ano 5 – Edição 49 | Págs. 66 - 71

UMA ESTRADA NUM MAR DE LAMA – BR-319

Sonho de um caminho seguro entre Porto Velho e Manaus, a rodovia BR–319 foi destroçada por interesses políticos. Até se tornar um pesadelo amazônico.

Texto e fotos Giuliano Cedroni

“O trecho entre Porto Velho e Humaitá ficou para trás. Vieram os trechos difíceis, as pontes de nomes curiosos, a precária travessia das balsas. As condições de viagem serão piores e não se encontrará nenhum ponto de apoio na rodovia que fará Manaus deixar de ser a única capital brasileira sem ligação por terra...” O texto acima foi escrito pela primeira equipe de reportagem que viajou pela BR–319, em 1975. Mesmo no ano de sua inauguração, as condições já não eram nada animadoras na estrada que desafiou a maior selva do planeta e deveria ligar Manaus, no Amazonas, a Porto Velho, em Rondônia, servindo de via de acesso entre a Amazônia e o sul do Brasil. Deveria, mas não liga. O repórter Giuliano Cedroni viajou por toda a BR–319 e mostra que, depois de décadas de investimentos e muitas promessas, os 870 quilômetros da estrada hoje unem o nada ao lugar nenhum. Abandonada, a rodovia serviu apenas para enriquecer construtoras e políticos e criar um milionário cartel. Cada vez mais ricos, os donos das balsas que fazem esse mesmo trajeto possuem o monopólio de um pedaço do Brasil e são capazes de qualquer coisa para que, simplesmente, tudo continue como está.

Em três pessoas, num pequeno jipe, resolvemos encarar a BR–319 no meio de uma longa viagem entre San Diego, Califórnia, e São Paulo. Em Manaus, fomos informados que, para prosseguir viagem rumo ao sul do país, a alternativa mais lógica seria embarcar em uma das centenas de balsas existentes na cidade. Havia duas opções: seguir até Belém (PA) e tentar a rodovia Belém – Brasília ou navegar até Porto Velho e seguir por estrada até Cuiabá (MT). A informação mais “animadora” que nos deram sobre a BR-319 na cidade era que ela fora engolida pela floresta...A fim de aventura, porém, resolvemos procurar os órgãos responsáveis pela estrada. No Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) do Exército de Manaus, atual responsável pela manutenção da rodovia, fomos surpreendidos por um relatório oficial dizendo que o trânsito estava liberado e que um bueiro no km 400, de aproximadamente 30 metros de diâmetro, já havia sido consertado. Decidimos arriscar.

O Estado do Amazonas possui cerca de 2 mil quilômetros de estradas. Metade se encontra intransitável. A mais conhecida delas é a também abandonada Transamazônica, que deveria unir João Pessoa, na Paraíba, ao Acre, na fronteira do Peru, por onde o Brasil poderia atingir o Oceano Pacífico por terra. Unir dois oceanos desenvolveria o interior da Amazônia e também as relações de comércio e turismo com outros países. Como a Transamazônica corta o país no sentido leste – oeste, seria necessária então a construção de rodovias que fossem ligadas a ela, no sentido norte – sul, fazendo a conexão da Amazônia com os principais centros do país. A BR-319, assim, seria fundamental nesse audacioso projeto rodoviário.

A rodovia, planejada em 1960 pelo então presidente Juscelino Kubitschek, só começou a ser construída em 1969. A Andrade Gutierrez, empresa responsável, manteve 5 mil homens embrenhados na selva durante o auge da obra – muitos morreram vítimas de doenças tropicais. Para vencer o difícil terreno da Amazônia, caminhões especiais tiveram de ser importados dos EUA. Novas técnicas foram criadas, como a pedra artificial – uma mistura de areia com cimento -, depositada debaixo do asfalto, pois não havia rochas naquela região. Para cada quilômetro concluído, eram usados ainda 10 mil sacos de cimento.

Para encarar a estrada, nos equipamos com 250 litros de gasolina, comida para pelo menos duas semanas, repelentes, maleta completa de primeiros socorros. Depois de atravessar por balsa o Rio Solimões, chegamos à cidade de Careiro da Várzea e começamos a avançar pela BR-319. Os primeiros 114 quilômetros foram tranquilos, até Careiro do Castanho, última cidade em que tivemos acesso a gasolina, mantimentos e telefone. A partir dali, não cruzamos um só veículo nos 140 quilômetros percorridos até o Rio Igapó. Algumas famílias vivem às margens do Igapó, que tem ligação com o famoso Rio Madeira, por onde navegam as grandes balsas. Na vila não há energia elétrica, gasolina, restaurantes ou qualquer tipo de mercado. As pessoas passam o dia pescando, caçando ou colhendo frutas. O índice de embriaguez é alto, o que atesta o fracasso de todos os planos iniciais da BR-319.

“Homens sem terra para terras sem homens”. A frase de efeito, do então presidente Emílio Garrastazu Médici, era usada como lema de um projeto que defendia a conclusão da rodovia somente se, paralelo às obras, fosse desenvolvido um plano de assentamento de famílias na região. Quando a estrada foi liberada para o tráfego, em 1975, a prioridade era fomentar a agricultura e a pecuária e desenvolver, assim, uma área fértil mas inóspita. Com isso, centenas de famílias largaram tudo em outros Estados e foram tentar a sorte ao longo da BR. Antes da atual decadência, a região viveu pelo menos dez anos de prosperidade, época que a estrada tinha manutenção regular. “Havia fazendas produtivas, hotéis, restaurantes e postos de gasolina. Os postos de saúde e as escolas das cidades vizinhas ficaram bem mais acessíveis”, conta Antônio Sinézio de Souza, 62 anos, dono de um sítio perto da estrada.

Tudo mudou. Tanto que as pessoas de Igapó foram as últimas que encontramos durante centenas de quilômetros, num trecho terrível e cheio de lama da estrada, até sermos obrigados a parar, sem conseguir acreditar no que víamos: um bueiro no meio da estrada por onde corria um pequeno rio formado pelas chuvas. Aquele era o famigerado km 400 que, segundo o Exército, já havia sido consertado...Impossível seguir viagem. O sentimento de derrota era inevitável, mas, por outro lado, aquela região, a mais inóspita e selvagem de toda a viagem, era também uma das mais bonitas. A abundância de animais, plantas e sons vindos da floresta fazia com que nos sentíssemos frágeis. Afinal, estávamos completamente sozinhos no meio da Floresta Amazônica!

As chuvas são determinantes para qualquer movimento na região. Por causa delas, sempre houve restrições para quem quisesse viajar pela BR-319. No início, para sua preservação, só era permitido o tráfego de veículos com até 4.500 quilos por eixo – e daí veio a corrupção. A Polícia Rodoviária federal passou a liberar cargas bem acima do peso permitido em troca de dinheiro ou pequenas cotas dos produtos transportados. A manutenção da rodovia, antes realizada pela Andrade Gutierrez, que a construiu, passou a ser responsabilidade da construtora Queiroz Galvão, acusada pelos moradores locais de ter destruído a estrada. “Eles arrancavam metros de asfalto por causa de um buraquinho e partiam dizendo que voltariam para o conserto. Só que nunca voltavam”, protesta Maria José Garcia, que há vinte anos vive às margens da BR-319.

Com a informação do governo de que a rodovia nunca seria abandonada, a Embratel construiu mais de dez torres de comunicação na estrada. Hoje, é a única responsável pela manutenção das diversas pontes de madeira ali existentes, para o acesso de seus técnicos até as torres. Quando ficou claro que o abandono da estrada era irreversível, muitos partiram deixando casas, fazendas e anos de trabalho para trás. Quem não pode partir ficou por absoluta falta de opção, sem ter como escoar seus produtos para os centros comerciais e sem acesso a combustível, ferramentas, escolas e medicamentos.

Voltamos à vila de Igapó dispostos a encontrar um meio de vencer o bueiro do km 400 – ou seja, construir uma ponte. Descobrimos que havia uma motosserra na vila, e seu operador, junto com um pescador local, concordou em nos ajudar. Só que, além de lhes pagar, tivemos de voltar até Careiro do Castanho para comprar mais gasolina, pregos, cordas e uma enxada.

De volta ao km 400, depois de mais um dia de viagem, trabalhamos sem cessar usando a motosserra, o machado, os facões e o guincho elétrico que transportou as toras de 15 metros de comprimento até o buraco. Batizamos a ponte de “Biribá”, em homenagem a uma deliciosa fruta local. Sem perder tempo, partimos em direção a Igapó para deixar nossos ajudantes. Só que um deles, bêbado e armado, queria receber mais dinheiro que o prometido. Depois de muita conversa, resolvemos o caso deixando com ele nossa única geladeira portátil, além de uma quantia em dinheiro. Partimos da vila desejando não ter de voltar ali durante muito tempo...

A travessia do rio foi um sucesso que renovou nossos ânimos. De Igapó até o km 500 não existe nada nem ninguém, a não ser inúmeras fazendas abandonadas. Resolvemos parar em uma delas, e o que encontramos foi chocante: uma grande casa e uma serraria em avançado estado de destruição, com um imenso pomar ao fundo carregado de frutas à espera de uma colheita que nunca acontecerá.

Pior: nosso jipe apresentava problemas mecânicos. Fomos informados sobre um caminhão da prefeitura de Humaitá, único meio de transporte entre a área em que estávamos e a cidade. O trajeto de 170 quilômetros é feito em um dia de viagem, uma vez por semana. No vilarejo de Puruizinho, fomos até um desativado posto de gasolina da Petrobrás esperar pelo caminhão, na esperança de sermos rebocados até a cidade. Ali, pela primeira vez, tivemos contato com um mal que assola toda a população da Amazônia: a malária. “Nessa região, malária é igual a um resfriado forte”, desabafa Erani Goulard, migrante gaúcho que também participou da construção da rodovia. Não há assistência médica na região. “Ou eu me trato sozinho, ou eu enfrento o que vocês vão enfrentar amanhã”, completa Goulart, referindo-se à viagem que fomos obrigados a fazer, guinchados pelo caminhão.

O caminhão parou em todas as casas à beira da estrada. Dezenas de pessoas entre homens, mulheres, grávidas, idosos, crianças e doentes disputavam um lugar na caçamba com sacos de frutas, galinhas, porcos, botijões de gás e até bicicletas. O episódio durou nove horas, sob um sol de 40ºC...

Em Humaitá consertamos nosso jipe e seguimos viagem até Porto Velho. O asfalto, mesmo ruim, era para nós um descanso. Depois de quase dez dias, nos quais percorremos mais de 1.500 quilômetros em uma estrada que possui apenas 870, vivendo situações extremas e presenciando cenas revoltantes, alcançamos enfim nosso objetivo. Difícil saber se valeu a pena. Em nossa memória, as cenas finais da viagem com o caminhão. “Deixe as pessoas lá embaixo saberem o que está acontecendo aqui no Norte. Isso aqui não é vida”, disse um senhor idoso que participava da “aventura”. Às margens da BR-319, ele tem razão, a vida tornou-se um inferno.

O CARTEL DAS BALSAS

As balsas hoje monopolizam o transporte entre Porto Velho e Manaus criaram um mercado milionário – e este mercado é o maior interessado no abandono da BR-319. Em Manaus, existem 69 empresas, todas privadas, e cada uma delas possui de vinte a 150 balsas que transportam de tudo: combustível, containers inteiros, carretas, carros e pessoas. As duas principais rotas são Manaus – Porto Velho e Manaus – Belém. Só no Rio Madeira, usado como hidrovia para ligar Manaus a Porto Velho, navegam 120 bolsas diariamente. São 660 milhas navegáveis o ano todo, gerando um perigoso tráfego fluvial. São comuns os acidentes por causa do excesso de peso e do abusivo número de embarcações no rio.

Uma carreta que sai de Manaus com destino a Porto Velho paga hoje pelo frete R$ 1.000,00 e leva de seis a oito dias para completar seu percurso. Se a BR-319 estivesse aberta, a mesma carreta gastaria pouco mais de R$ 100,00 em combustível e apenas um dia de viagem. O preço para um carro médio é de R$ 350,00. Uma das maiores empresas de balsas de Manaus é o Grupo Equatorial, que existe há treze anos e emprega 200 funcionários em mais de vinte balsas. O ganho bruto anual ultrapassa 10 milhões de reais. Outro setor que não lucraria com a reabertura da rodovia é o Sindicato dos Trabalhadores de Transporte Marítimo e Fluvial do estado do Amazonas. Dos 18 mil trabalhadores do sindicato, mais da metade trabalha diretamente nas balsas.

A reabertura da rodovia é uma questão polêmica no Amazonas. Se por um lado causaria desemprego, por outro promoveria o desenvolvimento do interior do Amazonas – o projeto original da estrada. O governador Amazonino Mendes se diz cansado de esperar pelo apoio do governo federal e pretende investir no sistema rodoviário de seu Estado.

 

Os ecologistas, por sua vez, são contra a reabertura da rodovia. O deputado federal Ivan Valente, membro suplente da Comissão de Defesa do Meio Ambiente, acredita que se deva fazer um rigoroso estudo do impacto ambiental que a reabertura da estrada causaria. Já o deputado federal Euler Ribeiro, que há anos luta pela reabertura da BR, acusa os políticos “verdes” de serem responsáveis por parte do subdesenvolvimento que atinge os Estados do Norte. “O Brasil deve parar com essa paranoia de ecologia. Devemos utilizar áreas férteis para produzir”, diz ele. A diferença de posturas evidencia o dilema da região. Para a população local e para os que dependem de vias de escoamento, a salvação da estrada seria a última solução. Mas uma reabertura feita sem critério pode causar impactos ambientais cujos desdobramentos precisam ser considerados. De nada adiantaria tapar um buraco, abrindo outro.

Médicas no Fogo Cruzado

Jan 26, 2016

Revista Marie Claire - Julho 97 | Nº 76 | Pags. 68 – 72 MÉDICAS NO FOGO CRUZADO O repórter...

Médicas no Fogo Cruzado

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Marie Claire - Julho 97 | Nº 76 | Pags. 68 – 72

MÉDICAS NO FOGO CRUZADO

O repórter fotográfico Giuliano Cedroni acompanhou durante duas semanas a rotina de médicas e enfermeiras da organização “Médicos Sem Fronteiras”, que atua em Ruanda. Naquele pequeno país africano, quase não há médicos do sexo masculino. A seguir, o retrato da maior crise de refugiados da história pela lente de mulheres europeias que deixaram seus países para salvar vidas em um lugar marcado pela miséria, pela Aids e pela guerra civil.

Por Giuliano Cedroni

A primeira impressão é de que alguma coisa está fora do lugar. Num acampamento improvisado na cidade de Butare, extremo sul de Ruanda, uma enfermeira belga ajuda uma médica francesa a socorrer refugados que atravessaram a pé países inteiros da África Central. Construído inicialmente para atender ruandeses infectados pela cólera, o local tem capacidade para 2 mil pessoas. Hoje cerca de 20 mil vivem ali amontoados. Homens exaustos com feridas nos pés, provocadas pela caminhada sobrehumana, mulheres com filhos às costas e trouxas na cabeça, crianças famintas de barrigas inchadas chegam da Tanzânia, Uganda, Zaire, Barundi.

Sabine, a enfermeira, e Martine, a médica, estão conscientes de que trocaram uma estável carreira nos países de origem para trabalhar numa bomba-relógio. Ao entrar para a organização não-governamental “Médicos Sem Fronteiras” deixaram para trás parentes, amigos e namorados. Tudo para salvar vidas em um país marcado pela morte, minado pela miséria e destruído pela guerra civil.

Ruanda é um minúsculo país sem saída para o mar – a sua área corresponde a um terço do Rio Grande do Sul. É impressionante o número de pessoas que nasce e morre ali a cada minuto. A nação de maior densidade populacional do continente (quase 300 habitantes por quilômetro quadrado) perdeu mais de um milhão de tutsis num conflito que também resultou em 1,5 milhão de refugiados hutus. A guerra entre as duas etnias terminou, mas os atentados e massacres continuam a fazer parte da rotina dos ruandeses (leia mais na última página). O país é castigado pela fome e por doenças como a dengue e a cólera. Estima-se que 33% dos ruandeses sejam portadores do vírus da Aids (a contaminação da doença tem projeção de 6% de crescimento ao ano).

A sensação inicial, a de que Sabine e Martine estão deslocadas, é rapidamente desfeita quando um caminhão despeja no acampamento nova leva de hutus. As duas se apressam para socorrer a massa humana  que primeiro refugiou-se na Tanzânia, por mede das represálias pelo massacre, e agora está voltando a Ruanda. Os refugiados viveram mais de dois anos nos países vizinhos do Zaire, Tanzânia e Burundi e agora são chamados de repatriados. Chegam ao acampamento a pé ou recolhidos nas estradas próximas das fronteiras por caminhões dos comissários das Nações Unidas que trabalham dia e noite tentando amenizar as longas peregrinações.

 “Não sou a única médica desse hospital, existem ainda outros três. Dois são ruandeses ocupados demais com reuniões. Nunca pisam por aqui, apesar de serem pagos para isso. Uma terceira, também ruandesa, é formada em universidade europeia e não entende nada de doenças tropicais”, reclama Martine. O governo obriga as organizações internacionais a contratarem profissionais ruandeses, geralmente funcionários desqualificados. “Já encontrei enfermeiras tratando de doentes de Aids sem usar luvas de borracha. Algumas chegam a dizer que Aids é doença de branco!”, ela se choca. Ali há casos de enfermeiras que operam, dentistas que engessam e assistentes sociais que controlam hemorragias. Ruanda possuí um médico para cada 26 mil habitantes. No Brasil, a proporção é de um para 710.

Martine opera, faz partos, trata de fraturas e ferimentos à bala. Ela é responsável pelo principal hospital da cidade, próximo ao acampamento de Musange. “Na França eu teria que escolher uma única área para atuar e passaria a minha vida inteira fazendo aquilo”. Enquanto ela fala, Sabine encaminha os casos mais graves, como o de uma grávida que vomita na fila do ambulatório. Seu bebê não esboça reação e continua a sugar seu peito à procura de vida.

A experiência em outras áreas e a vontade de atuar em um lugar extremamente carente são os principais motivos que atraem tantas médicas e enfermeiras para lá – 90% desses profissionais são mulheres. O risco não é pequeno: só neste ano, três médicos foram assassinados enquanto dormiam. Faziam parte de outra organização não-governamental de origem espanhola. Na verdade, muitos dos hutus não costumam distinguir médicos de inimigos – o que importa é que são brancos, como eram brancos os belgas que colonizaram o país no início do século.

Uma mãe para 500 filhos

No alto daquele acampamento, um grupo de crianças chama a atenção. Algumas carregam cartazes com palavras escritas em quiniruanda, a língua local. Sabine explica que elas se perderam em algum lugar durante o trajeto. Os cartazes gravam os nomes das vilas de onde vieram. As que estão sem cartazes perderam-se no próprio acampamento. Funcionários gritam nos megafones os nomes de seus pais. Mas menos de 5% reencontram a sua família. Então, após dias de espera em Musange, resta encaminhá-las para as casas do distrito de Murara, na periferia da cidade de Giseny, onde funciona o maior abrigo de crianças órfãs de Ruanda.

“Além das crianças perdidas, recolhemos também dezenas de bebês enrolados em panos e abandonados nas estradas”, explica a médica espanhola Glória Bassets, 30, que dá atendimento a 500 pequenos ruandeses. Em cada uma das 19 casas alugadas pela organização, existe uma mãe-de-aluguel. São enfermeiras ou professoras contratadas pelo grupo para substituir as mães que não foram encontradas.

Formada em Barcelona, Glória embarcou para a sua primeira missão humanitária há cinco anos. A estreia foi em Angola, em plena guerra civil. Mas um de seus colegas foi assassinado e ela teve que abandonar a missão às pressas. A organização a transferiu para o Zaire, onde ela conheceu o atual namorado, Christian, um zairense naturalizado belga. Seguiram juntos para o Camboja, onde moraram por dois anos. Finalmente chegaram em Ruanda, enumera Glória, mesclando um pouco de inglês, francês e espanhol.

Hoje ela continua trabalhando ao lado de Christian, que cuida das atividades logísticas dos projetos, como compra de mantimentos e contratação de funcionários ruandeses. A formação de casais durante as missões é algo corriqueiro. A aproximação é estimulada pelas experiências e interesses em comum: estão a serviço da paz, atuam longe de casa e vêm de países ricos. Glória e Christian moram juntos com o restante da equipe em uma casa alugada pela organização. “Temos nosso próprio quarto e uma certa privacidade”, diz Glória, que não pretende ter filhos. No papel, ela continua solteira como todas as estrangeiras do “Médicos Sem Fronteiras” de Ruanda.

Tempo de perder os laços

“Sinto uma parcela de culpa pelo que está acontecendo aqui”, reconhece a médica belga Claudine Dauby, 27 anos, referindo-se ao antigo domínio belga no país. Claudine trabalha na pequena vila de Kabaya, encravada nas montanhas ruandesas, onde funciona um dos maiores e mais bem equipados hospitais do país. Bem próximo dali, numa floresta chamada Gishwati, estão escondidos guerrilheiros que travam uma guerra civil contra o governo zairense e seu antigo regime ditatorial. Esse é considerado o projeto mais perigoso do “Médicos Sem Fronteiras” em Ruanda. Volta e meia guerrilheiros invadem a vila especialmente para aterrorizar os poucos “musungos” (brancos, em quiniruanda), entre eles, os membros da organização.

“O que a ONU e as organizações humanitárias fazem aqui também é uma espécie de colonização”, prossegue Claudine. “Afinal, continuamos controlando o país inteiro e dizendo o que é bom para eles”. A médica tem ao lado o colega Paul, um africano da República dos Camarões, como ela formado há apenas dois anos. “Ele é meu irmão. Trabalhamos juntos há três meses e aprendo com ele o que nunca aprendi na universidade de Bruxelas”, acredita.

Eles recebem um salario média de US$ 1,8 mil por mês. É um salario acima do padrão africano, mas certamente abaixo do europeu. A “Médicos Sem Fronteiras” é tida como uma das organizações humanitárias com os piores salários. “Quando volto para Bruxelas sou obrigada a morar com minha mãe porque o meu dinheiro só dura alguns meses. Tento compensar o meu isolamento e acabo gastando tudo em roupas, jantares e cinema”, confessa Claudine.

Ela sente falta dos amigos e parente. “Aos poucos, vamos perdendo os laços com os velhos amigos. Mas também não temos chance para alimentar as novas amizades que fazemos durante as missões”, lamenta. Os contratos variam de três meses a dois anos. “Da última vez que estive na Bélgica minha sobrinha mal me reconheceu. Aquilo me fez muito mal”. Contudo, ela ainda não encontrou motivo forte o suficiente para afastar-se daquela vida. “Acabo voltando ao escritório do “Médicos Sem Fronteira” e logo encontro uma passagem de avião à minha espera. Mais uma vez vou parar em um país onde nunca sonhei por os pés”, disse ela, dias antes da equipe ter sido ameaçada de morte por quatro ruandeses. Armados, eles invadiram o hospital, saquearam a farmácia e renderam os estrangeiros. A organização imediatamente decidiu pelo abandono do projeto.

Batendo em retirada

Despedir-se de uma missão como essa pode ser tão difícil quanto desligar-se dos amigos e da família. A enfermeira belga Laurence Luyckfassel, 24 anos, não sabe se pisará de novo na vila de Mudende, no interior da Ruanda, onde passou os últimos três meses trabalhando. O seu contrato chegou ao fim. Aquela foi sua primeira missão, primeira visita à África e primeiro contato com o terceiro mundo. A sua passagem para Bruxelas está marcada para o dia seguinte.

“Estou feliz por voltar e triste por partir de Ruanda”, assume a mais jovem enfermeira da organização. No caminho até o hospital, em meio a uma plantação de chá, centenas de tendas brancas brotam do chão. Nelas está bordado o símbolo da Cruz Vermelha. Durante a crise, em outubro de 96, essas tendas serviam de moradia para milhares de ex-refugiados vindos do Zaire.

Ao chegar no hospital, Laurence é cercada por crianças e doentes. Sem perder tempo, confere com os enfermeiros locais a lista de internados. Em francês, dá ordens aos funcionários e percorre as dependências do local. “Essas pessoas se agarram à vida de uma maneira impressionante. Suportam dores físicas que dificilmente suportaríamos. Eles não têm mais nada a perder”, diz ela, enquanto examina um paciente. Ao deparar com uma mãe e seu filho enrolado em um pano, a enfermeira se assusta. A criança, extremamente desnutrida, parece estar em fase terminal. Não se mexe, tem o olhar vago e o rosto repleto de moscas. Quase não consegue respirar. Laurence imediatamente injeta um tubo de soro no pequeno nariz. Em seguida, pede para a mãe acompanhá-la até o hospital da cidade, onde a criança deve receber tratamento mais adequado.

Laurence esquece o motivo que a levou ao hospital aquele dia: mal tem tempo para despedir-se dos colegas. Controlando a velocidade do carro sem tirar os olhos da criança, ela atravessa, talvez pela última vez, aquela conhecido trajeto. Pelo retrovisor, passam mulheres carregando bebês nas costas. Homens trabalhando a terra e cuidando do gado. Ao fundo, vulcões. Mas nada distrai a atenção da enfermeira. Ela só pensa na vida daquela criança que conheceu há poucos minutos. Se ela sobreviver, deve levar sequelas de uma infância precária. Não importa. Naquele fim de tarde, Laurence fazia a sua parte. Não vai receber nenhuma recompensa por isso. Não vai ficar famosa pelo que fez. “Quero renovar o meu visto e continuar trabalhando na África”, ela assegura. “Perto do que vi aqui, tudo o mais parece tão irrelevante...” Se ficasse na Bélgica, talvez hoje se sentisse deslocada, fora de lugar no seu próprio país.

GUERRA SEM FIM

O confronto entre as etnias ruandesas remonta ao século 15, quando os tutsis, pastoreiros de alta estatura, provavelmente oriundos da Etiópia, impõem domínio feudal aos hutus, povo mais baixo da bacia do rio Congo. Os europeus entram em cena no século 19. Em 1899, a Alemanha declara seu protetorado sobre o território. Com a derrota alemã na Primeira Guerra, Ruanda passa a pertencer à Bélgica. Cargos importantes são distribuídos à minoria tutsi e os hutus se rebelam. Na década de 50, os belgas adotam a estratégia de “dividir para governar”, e favorecem a formação de uma elite hutu. A primeira revolta contra a monarquia absolutista tutsi eclode em 1959. Em 1961, um plebiscito supervisionado pelas Nações Unidas dá autonomia a Ruanda, então sob administração hutu. No ano seguinte, o país conquista a independência e os tutsis se exilam nos países vizinhos. Em 1990, os exilados formam a Frente Patriótica Ruandesa, invadem o norte de Ruanda e iniciam um movimento de guerrilha. O governo, em represália, organiza massacres contra civis tutsis, ao mesmo tempo que a Frente arrasa aldeias hutus próximas da capital Kigali. Cerca de um milhão de refugiados se aglomeram em áreas fronteiriças da Tanzânia e de Uganda. Em 1993, a ONU apoia a formação de um partido de transição, com a participação da Frente. Em abril de 1994, cai o avião em que viajava o líder hutu Juvenal Habyarimana. O episódio desencadeia a guerra civil que deixou cerca de um milhão de mortos e 1,5 milhão de refugiados. Apesar dos esforços de paz por parte da ONU e das comunidades internacionais, as duas etnias continuam inimigas e os massacres parecem não ter fim.

 

Liberdade no Olhar

Jan 26, 2016

Revista MAG - Nº 09 | Ano 2008 | Pags. 107 a 109 LIBERDADE NO OLHAR Existe uma ferida aberta...

Liberdade no Olhar

Jan 26, 2016 · by GIULIANO CEDRONI

Revista MAG - Nº 09 | Ano 2008 | Pags. 107 a 109

LIBERDADE NO OLHAR

Existe uma ferida aberta gerado do encontro de brasileiros e japoneses, e você, quer queira quer não, também já meteu o dedo nela. O teor da dor? Identidade. Confira nas próximas páginas, com exclusividade para a MAG!,  o storyboard com trechos do roteiro de Estação Liberdade, longa-metragem inédito e que promete balançar a comodidade do registro histórico dos 100 anos da imigração japonesa no Brasil. Afinal, o que é melhor: ser brasileiro no Japão ou japonês no Brasil?

Por Mario Kubo Storyboard Ricardo Troula

Meu nome é Mario. E, antes que você me venha com aquela piada infame, adianto que não sou aquele. Nem aquele, nem este, nem qualquer outro. Tenho 35 anos mas só existo há dois. Sou sansei, o que significa que um de meus avôs, ou avós, nasceu no Japão e mudou-se para o Brasil. Sou casado mas não tenho filho. Sou brasileiro. Por razão, por geografia, por direito. Pelo simples fato de que nasci no Brasil e aqui vivi toda minha vida. Ainda assim, sou “japonês”. Era “o japonês” da escola, “o japonês” da rua – quando brincava com as outras crianças – e “o japonês” da faculdade. Hoje sou “o japonês” no trabalho, “o japonês” no metrô, “o japonês” na rua – sem brincadeira. Estranho, até minha mulher me chama de japonês de vez em quando, na cama. Eu não sou japonês, sou brasileiro. Meu nome é Mario.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, autor da literatura líquida – Amor Líquido, Modernidade Líquida etc. - , defende que a questão da identidade não pode mais ser tratada pelos instrumentos tradicionais de entendimento. Ele entende que as pessoas em busca de identidade “se vêem invariavelmente diante da tarefa de alcançar o impossível, o que não pode se realizar no tempo real mas na plenitude do tempo”. Não sei se entendo exatamente o que o polonês quer dizer. Ele diz ainda que “identidade tem a ver com ‘pertencimento’, e que nessa época líquido-moderna em que vivemos, quando milhões de pessoas migram de um lado para o outro do planeta graças à globalização acelerada, corremos o risco de perder nossas identidades por aí, esquecendo-as flutuando no ar, em algum aeroporto, em alguma estação de trem...”

Nisso, o polonês tem razão. O trem. Não sei se eu teria descido sozinho na Liberdade naquela noite, por vontade própria. Passei debaixo daquele bairro milhares de vezes durante anos, a caminho do trabalho, no metrô. Linha azul. Sempre via um monte de japonês descendo e subindo naquela parada. Não só japonês, mas chinês e coreano também. E de longe observava como aquele grupo era diferente, homogêneo, tudo meio parecido...Eu acho que não teria descido sozinho, mas o trem empacou, não se mexia. Foi eu descer e ele partiu. Estranho.

Albert Camus resumiu seu mais notório livro, L’Etranger, ou O Estrangeiro, dizendo que nossa “sociedade condena à morte qualquer homem que não chora no funeral de sua mãe”. Eu não chorei. Chorei na lápide do meu pai, que mal conheci e que foi enterrado no Japão. Parece que ele resolveu voltar para o país do sol nascente quando eu ainda era criança, e abandonou minha mãe. Minha mãe e eu. Depois ela casou com um português e foi a vez de ela abandonar...Não o português, mas a cultura japonesa. Acho que foi de vingança, vingança feminina. Nessas eu cresci sem comer sushi, sem beber saquê, sem aprender artes marciais, sem ler o kanji. A única coisa que me prendia à cultura nipônica eram meus olhos puxados. Eram eles que me delatavam toda vez que eu tentava me encaixar em algum grupo, em alguma turma. Mas não tinha jeito, de cara eu já era visto como diferente. Sou visto como diferente...Agora falando sério, quem vai escolher um japonês para jogar no seu time de futebol? Eu não gosto de futebol, ainda assim minha sogra me deu um radinho de pilha pra ouvir os jogos. Eles não entendem nada mesmo.

PEOPLE ARE STRANGE

“A chegada de um estranho tem o impacto de um terremoto (...) Torna-se essencial o homem que deve colocar em questão quase tudo o que parece ser inquestionável para os membros do grupo abordado.” Quem escreveu isso foi o filósofo austríaco Alfred Shütz em seu The Stranger: An essay in social psychology. Nunca me esqueço do momento que soube do grande tsunami que varreu o Oriente. Era dia 26 de dezembro de 2004, ressaca de Natal. Não havia nenhum motivo para aquilo me abalar; nunca fui para o Oriente, sou brasileiro. Mas fiquei balançado pra cacete. Na verdade, foi um terremoto que causou a grande onda, um terremoto das mesmas proporções daquele antigo que atingiu Tóquio, em 1923, matando 30 mil pessoas. Na época, muitos japoneses abandonaram tudo e seguiram para o Brasil. Dessa vez, o tsunami do terremoto não pegou o Japão. Os países mais atingidos foram Tailândia, Índia, Sri Lanka e Indonésia, este sendo o mais castigado, o epicentro do terremoto.

Barack Obama foi criado por um cara da Indonésia. Seu pai queniano abandonou sua mãe norte-americana quando ele tinha apenas 2 anos de idade, no Havaí, onde nasceu. Parece que o pai voltou para a África e Obama foi morar em Jacarta, com a mãe e o padrasto. Curioso. O homem que deve influenciar todas as nossas vidas nos próximos anos é, ele próprio, um estranho. Nome estranho, rosto estranho. Um outsider. Me pergunto onde ele se sente mais à vontade, mas confesso que ao descer no bairro da Liberdade naquela noite me senti bem. Pela primeira vez eu era a maioria num lugar. É gostoso ser  maioria. As pessoas sorriem sem te conhecer, são cordiais, amáveis. Minoria é que sofre. Quer dizer, se for minoria rica aí sofre menos. Eu nunca fui rico, mas estou gostando de fazer parte da maioria oriental na Liberdade...Se bem que eu sou brasileiro.

O tal polonês Bauman publicou um estudo intitulado O Sonho da Pureza. Nele, o sociólogo ensina que “a pureza sempre foi um ideal, afinal é uma visão de ordem e ordem é bom”. Ele explica ainda que o oposto de pureza é o impuro, o sujo, o imundo, por isso é comum na história que os impuros sejam comparados a bactérias e insetos. Coincidência ou não, tenho visto muita formiga ultimamente. Elas estão em todo lugar, persistentes, silenciosas. Tinha formiga lá em casa e tem formiga aqui na Liberdade. Eu também nunca fui puro. Nasci misturado, cresci misturado. Sou brasileiro...não sou puro.

ÓPIO DA ALMA

Engraçado como, mesmo tendo abandonado minha casa, meu trabalho e minha mulher, eu fui me sentir à vontade justo num lugar estranho. Fiz coisas aqui na Liberdade durante essa semana que nunca nem imaginei que existisse: comi filhote de enguia, bebi caipirinha de saquê, vi um cara morto, subi num palco pela primeira vez e pela primeira vez me deitei com uma japonesa. Estranho, parecia que eu já conhecia há muito tempo, como uma irmã...Mas forte mesmo foi aquele troço que me deram pra fumar. Jesus, o que é aquilo? Nick Toshes, do New York Times, fuma ópio até hoje. Ele descreve a sensação como a “pureza etérea da poesia sem palavras que só os maiores poetas vislumbram em epifanias”. Definitivamente eu não entendo o que ele quer dizer com isso...Fernando Pessoa também fumava desse cachimbo. Em seu poema “Opiário”, ele escreveu um negócio que me deixa meio tonto. “Não posso estar em parte alguma. A minha Pátria é onde não estou.” Não sei se entendo o que ele quis dizer, mas mesmo assim fico meio balançado com sua poesia. Pessoa sempre me bagunça a cabeça.

Na Liberdade também conheci pessoas bacanas, meio estranhas mas muito bacanas. O simpático seu Toshio, a Sandra da recepção, o Shoyo, Kentaro. Foi ele quem me falou da “epidemia da impureza’. Parece que o século XX vai ficar marcado pelo século das marcações. Argelinos na França, indianos na Inglaterra, turcos na Alemanha, mexicanos nos Estados Unidos e brasileiros em tudo quanto é canto. E por conta dessa movimentação desenfreada no século passado esses povos começaram a ter filho e, claro, não rola só filho puro. Tá cheio de filho da mistura por aí, que é, inclusive, mais gostos de fazer. Preto com amarelo, amarelo com branco, branco com vermelho...São os ousiders. O Coppola fez um filme com esse nome há mais de 20 anos. Tinha matt Dilon, Tom Cruise, Rob Lowe e era sobre uma turma de caras briguentos. Curioso era o slogan: “Eles não estavam em busca de briga, eles só queriam ‘pertencer’...”.

Dia desses eu tava de ressaca no quarto de hotel e liguei meu radinho de pilha. Estava tocando uma música de uns ingleses e eu anotei este trecho: “You’d kill yourself for recognition/kill yourself to never, ever stop/you broke another mirror/you’re turning into something you are not”. Era “High And Dry”, do Radiohead, e o apresentador traduziu a letra. Bonita. Parece que é uma das únicas canções da banda que não foi gravada com os quatro músicos juntos, no estúdio. Cada um gravou separado, avesso ao sentimento do outro. Algo bem moderno. Meio triste, talvez, mas moderno.

Não sei como vim parar em Tóquio. Nem sei por que estou em pé, no cemitério onde meu pai foi enterrado. Eu não conheci meu pai, não tem porque chorar por ele...Mas hoje é domingo, e domingo combina com passeios em cemitério. Além do que, eu mereço um descanço. Trabalhei direto numa fábrica, ando de metrô, assisto à TV em casa. Quase igual à minha vida no Brasil. E o mais inusitado é que no Japão também tá cheio de formiga. A diferença é que aqui não me chamam de “japa”. Aqui, sou brasileiro.

FIM

* Mario Kubo existe. É o protagonista do longa-metragem Estação Liberdade, uma produção da PRODIGO Films com direção de Caíto Ortiz e roteiro original de um grupo de três escritores, dentre eles Giuliano Cedroni, autor do texto acima. O filme está em fase de pré-produção com lançamento previsto para o início de 2009. Todas as citações e informações no texto são verídicas, assim como a psique do personagem, construída durante dois anos depois de mais de 50 entrevistas com isseis, nisseis, sanseis e “japoneses puros”. Mario tem seu próprio blog, periodicamente atualizado e com textos e mensagens telefônicas “deixadas” durante as filmagens do longa. 

Rali dos Sertões Na Rota do Garimpo

Out 20, 2015

Guia 4 Rodas - Setembro 1996 | Ano 36 – Nº 434 | Pags 120 a 126 RALI DOS SERTÕES:...

Rali dos Sertões Na Rota do Garimpo

Out 20, 2015 · by GIULIANO CEDRONI

Guia 4 Rodas - Setembro 1996 | Ano 36 – Nº 434 | Pags 120 a 126

RALI DOS SERTÕES: Na Rota do garimpo

De São Paulo a Fortaleza, 23 jipes e picapes encaram mais de 4.500 km de trilhas esburacadas em um Brasil ainda pouco conhecido, na maior prova de off-road da América Latina

Reportagem Décio Costa • Fotos Giuliano Cedroni • Edição Maria Sergio Venditti

RALI: O evento custou R$ 1,5 milhão, que representa 10% do valor da maior competição do gênero no mundo, o rali Paris-Dakar

O empresário Dyonísio Malheiro, 40 anos, teve uma dura prova de resistência entre os meses de junho e julho. Mentor do 4º Rali dos Sertões, ele dormiu apenas doze horas durante os dez dias de competição. Sem muito tempo para pregar os olhos, ao menos fez do rali brasileiro a mais concorrida prova off-road da América Latina. De 27 de junho a 7 de julho, 23 jipes e picapes 4X4 e 4X2, como Land Rover, Mitsubishi L-200, C-20 e Toyota Hillux cortaram seis Estados brasileiros, de São Paulo a Fortaleza (CE), passando por caminhos desconhecidos e lugares inóspitos. Mais que um diretor de prova, Dyonísio foi peça fundamental do evento. A cada etapa, ele só ia descansar após a chegada do último carro e era o primeiro a se por de pé, para coordenar a fase seguinte. Difícil imaginar o sucesso da competição sem sua participação direta. No começo do ano, ele fez um rali pessoal ao viajar 20.000 km para definir os 4.513 km do percurso. Esteve duas vezes na capital cearense a fim de conversar com moradores esquadrinhar cada porteira, ponte ou curva que poderiam constar no intrincado mapa do rali.

 

A cada ano uma trilha diferente

Como num enredo de escola de samba, a trilha do Rali dos Sertões é elaborada todos os anos a partir de um tema específico. Antes de fazer seus apontamentos, Dyonísio vai buscar subsídios na música, na literatura ou na história. Em 1993, as canções de Luiz Gonzaga, que exaltam a cultura do Nordeste, serviram de inspiração para a composição do trajeto. No ano seguinte, os aventureiros se embrenharam pelas veredas do escritor mineiro João Guimarães Rosa. Em 1995, o rali rastreou as regiões por onde o cangaceiro Lampião e sua companheira Maria Bonita se esconderam, como Serra Talhada (PE). Este ano, a rota escolhida foi a dos garimpos, principalmente de diamante, no Vale do Jequitinhonha (MG) e na Chapada Diamantina (BA). “A ideia é mostrar um país que ninguém conhece”, afirma Malheiro. Como se vê, Rali dos Sertões também é cultura.

A bordo da picape Ford F-1000 (veja Teste de 60.000 km nesta edição), QUATRO RODAS acompanhou o rali que, em dez dias, atravessou São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Piauí e Ceará, rodando, em média, 500km diários, por estradas aparentemente instransponíveis. Tanto melhor para um punhado de pilotos em busca de perigos e aventuras. Completar a prova tem um sabor tão heroico quanto vencer. Marcelo Ackel e Ricardo Berger que o digam. Eles cumpriram o roteiro dirigindo um Land Rover 1951 tão confiável quanto um Forti-Corse da F1. O carro foi um achado. Esquecido num sítio, estava sendo usado como galinheiro. Inteiramente restaurado pela dupla, o Land Rover superou os espinhos do sertão.

O desconforto provocado pela chuva e pelo frio na noite da largada, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo (SP), era fichinha em comparação ao que viria pela frente. Já entre Petrópolis (RJ) e Diamantina (MG), os atalhos de pedra na Serra do Cipó, 1.070 km após a partida, foram as primeiras provas de fogo dos utilitários. O radiador do Toyota Bandeirante dos paulistas Domingos Perrele Filho e Miguel Crosariol ficou destruído. Eles tiveram de ser rebocados para uma oficina mecânica próxima e encontraram, no meio da sucata, um radiador velho. A peça foi reconstruída e aproveitada como se estivesse novinha em folha. “O importante é superar os desafios”, dispõe Crosariol. Essa é a lição do rali. Os problemas ganham soluções rápidas e muitas vezes o improviso torna-se questão de sobrevivência.

Em todos os rincões visitados, por menor que fosse o lugar, os forasteiros tiveram uma recepção calorosa dos moradores, pouco acostumados a ver um carro de perto. O rali virou um programa obrigatório em vilarejos cujo tempo custa a passar. Na cidadezinha mineira de Terra Branca, 1.990 km de São Paulo, os quinhentos habitantes se aglomeram nas calçadas e as crianças, previamente ensaiadas, cantavam Estrela Mimosa, o hino local. Metidos nas difíceis trilhas de areia e cascalho entre os paredões de pedra da Serra do Espinhaço, os pilotos imprimiram um ritmo forte até Taiobeiras, a parada seguinte, também em Minas Gerais.

Dez carros ficaram no meio do caminho com avarias na suspensão ou no motor. Por mais grave que fosse o problema, porém, todos se desdobravam para retornar ao desafio. Corina Neumann e Marina Salles, a única dupla feminina, deram um susto danado nos colegas ao capotar um Suzuki Samurai. Sem afobação, elas desviraram o carro e, inabaláveis, ainda se deram ao luxo de gastar alguns minutos para retocar a maquiagem antes de prosseguir viagem. “Foi o máximo”, exultava a navegadora Marina.

As poucas horas de descanso do Rali dos Sertões eram regadas a sessões de muito forró. Em Taiobeiras, no entanto, os integrantes da equipe médica não puderam chacoalhar as cadeiras por culpa da bateria da Veraneio que se soltou, danificando outras peças. Os doutores tiveram de dormir na trilha para, na manhã seguinte, arrumar o carro à luz do dia. O neurocirurgião Clemar Corrêa da Silva e seus comandados só se reintegraram ao comboio duas noites depois, em Lençois (BA). Nessa altura, cumpridos 2.300 km, o Mitsubishi L-200, de Cacá Clauset e Norton Lopes, e o Land Rover Defender, de Luciano Braga e Rui Camargo, despontavam como os maiores favoritos.

RALI: A organização mobilizou 65 pessoas e gastou 33.000 litros de combustível. Equipes de apoio, carros, motocicletas e helicóptero consumiram outros 55.000 litros

Pé na estrada de madrugada

A largada de cada etapa do rali geralmente acontecia entre 6 e 8 horas, dependendo do trajeto. Mas, para o pessoal da organização, que seguia uma rotina rígida, quase militar, o trabalho começava às 4 horas. Fiscais de pista e equipes de apoio e direção de prova deslocavam-se para as trilhas e se espalhavam ao longo do percurso. Os médicos faziam plantão em pontos onde a probabilidade de acidentes era considerada alta.

Na curta biografia do Rali dos Sertões, jamais houve um caso de morte. Muitos, porém, se machucam. As dificuldades desse ano deixaram como saldo a fratura de quatro clavículas, de um antebraço, de um punho, uma perna, três costelas e um pé. Causou ainda dezenas de escoriações, três conjuntivites, uma inflamação no ouvido, uma arritmia cardíaca, duas queimaduras e uma intoxicação. A principal responsável pelas baixas foi a etapa baiana entre Lençois e Barra, a mais difícil do roteiro costurado por Dyonísio Malheiro. Ali, num percurso de 425 km, 171 km foram feitos a 65 km/h. Uma velocidade alta, levando-se em conta que 120 km desse trecho era de pedra. Embora o espírito de grupo seja a bandeira do rali, há quem perca a esportividade. Em contraste à calmaria da travessia do Rio Grande, afluente do Rio São Francisco, Wedigo von Borries espumava de raiva. “Queria morder a orelha do Sven”, dizia, referindo-se aos erros de navegação do filho de 14 anos.

Pântanos e dunas no trecho final

O rali percorreu 3.107 km até chegar a São Raimundo Nonato. Na modesta cidade do Piauí, o prefeito Gaspar Dias Ferreira decretou feriado para aguardar os empoeirados visitantes. Bastou que o primeiro carro apontasse na praça para a festa começar, com música ao vivo. Forró, é lógico. Nesse momento, Dyonísio – afônico, barba por fazer e com olheiras profundas – parecia um farrapo humano. “Agora falta pouco”. Sua frase não tinha nada de alentador. “O pior está por vir”, preveniu em seguida.

As duas últimas etapas foram decisivas. Na primeira delas, até Teresina (PI), os carros trepidaram por um asfalto tomado de crateras, obrigando os pilotos a desenvolverem a baixa velocidade de 30 km/h. Quem não tomou cuidado mergulhou nos buracos. Os irmãos David e Stephen Neale, por exemplo, destruíram o diferencial de um Engesa. “É uma pena ficar fora da prova no finalzinho”, lamentava Davi. O trecho derradeiro foi o que mais castigou os carros, que rodaram 868 km correndo o risco de atolar em pântanos e dunas. Cacá e Norton souberam muito bem ziguezaguear os perigos para chegar ao fim vitoriosos. “O segredo é uma relação quase impossível: andar forte e preservar o carro”, ensinava Cacá.

Depois de muita poeira, mais de 4.500 km e o manejo de quarenta metros de planilha – o mapa de referências utilizado pelos navegadores - , ainda havia fôlego para comemorar a chegada de dezenove dos 23 carros que largaram. Marcelo Ackel, o navegador da Land Rover 1951, vibrava com a valentia do seu “galinheiromóvel”. “Foi genial. Não sei dizer quantas vezes nosso carro nos deixou na mão. Mas lembro do dia em que ele quebrou menos: sete vezes”. Perto dele, Miguel Crosariol, do Toyota Bandeirantes, também não se conteve: “O melhor do rali é chegar, mesmo perdendo”. O organizador Dyonísio, embora esgotado fisicamente, se esforçava para dar as últimas bandeiradas, fazendo questão de parabenizar cada um dos participantes, na praia do Futuro, em Fortaleza. “Definitivamente, o Brasil tem um rali que não deve nada às competições similares internacionais”, concluiu como quem acabara de disputar, e vencer, uma árdua batalha. A partir dali, o guerreiro teria seu merecido repouso.

RALI: A prova foi vista por 400.000 pessoas, o que corresponde a dois Maracanãs lotados

CASAMENTO ADIADO

Entre Taiobeiras (MG) e Lençois (BA), apareceram três carros e um ônibus na contramão do rali. O fiscal Zenardo Maia imediatamente impediu a passagem dos veículos. Atrasados, noivos, padrinhos e convidados eram levados pelo comboio para um casamento. O padre aguardava a comitiva e a festa estava preparada. Mas foi impossível prosseguir, porque os pilotos iriam passar zunindo dali a pouco. O bate-boca entre o noivo indignado e o fiscal encaminhava para o embate físico, quando um dos carros passou. O motorista do ônibus, fascinado, entregou as chaves para o pai da noiva: “Daqui eu só saio quando a corrida terminar”. Não teve jeito: o matrimônio ficou para outro dia.

 

CAMPANHA QUENTE

O Rali dos Sertões desempenha também uma importante missão de caráter social. Em Taiobeiras, promoveu a campanha do agasalho. Na cidade com pouco menos de 27.000 habitantes, conseguiu arrecadar 9.000 agasalhos e 300 cestas básicas para serem distribuídas às crianças carentes em todo o Brasil. Em contrapartida, faltou um pouco de consciência em relação à limpeza. Latas, garrafas plásticas e papéis foram ficando pela trilha durante o trajeto. Ano que vem, garante a organização, pilotos e equipes serão obrigados a entregar ao fim de cada etapa, o lixo do dia. Quem não cumprir será punido, podendo até ser desclassificado.

 

TIRO NO HELICÓPTERO

O sertão nordestino ainda revela a face do coronelismo brasileiro. Ao longo do rali, fi comum topar com homens armados, como se fosse uma terra sem lei. Em determinadas regiões, a competição pode ter sido encarada como ameaçadora. O helicóptero da organização foi alvo de um tiro. A marca deixada na fuselagem do aparelho mostra que a bala passou a um palmo da cabeça do cinegrafista Laerte Domingues, contratado para produzir imagens do evento. A autoria do disparo é um mistério, mas houve a suspeita de que ele partiu de garimpeiros clandestinos ou de plantadores de maconha. Eles abominam intrusos e não pensam duas vezes em recebê-los de arma na mão, prontos para atirar.

Memórias do Cárcere...Balinês

Fev 04, 2015

Revista Fluir - Janeiro 97 | Ano 14 – Nº 1 | Pags 94 e 95 PRESO AO TENTAR DEIXAR...

Memórias do Cárcere...Balinês

Fev 04, 2015 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Fluir - Janeiro 97 | Ano 14 – Nº 1 | Pags 94 e 95

PRESO AO TENTAR DEIXAR A INDONÉSIA, UM SURFISTA BRASILEIRO CONHECEU O LADO ESCURO DO PARAÍSO

Por Giuliano Cedroni

Confesso que fiquei sem ação. Não sabia se caía na gargalhada diante daquele balinês com um embrulho de papel na mão – e um olhar intrigado no rosto – ou se chorava de desespero. Eram 2 horas da tarde do dia 31 de dezembro de 1993 e eu me encontrava atrás das grades de uma cadeia balinesa. Tentei me acalmar e fazer um balanço dos acontecimentos. Duas horas antes eu me preparava para embarcar num avião que me levaria à Califórnia. Agora minha passagem de ano seria bem diferente. Enquanto isso, aquele balinês fardado continuava a me encarar sem saber porque diabos eu não pegava logo o tal arroz que, na cabeça dele, eu tanto havia pedido! Perguntei em inglês claro, ao ser informado que não tinha direito a nenhum telefonema: what about my rights, my human rights? – E ele, muito prestativo, trouxe logo meus “rights” embrulhado num pedaço de papel. Arroz. “Rice”! Naquele momento Uluwatu, arrozais, vulcões, amizades e tantas outras memórias pareciam muito distantes. Eu estava prestes a conhecer um lado nada mágico da Ilha de Bali.

Sai escoltado do aeroporto, onde fui preso tentando embarcar num vôo para Los Angeles. Me levaram a um prédio velho e sujo de dois andares na área militar. Era a prisão do serviço de imigração da Indonésia. Ali, eu era apenas mais um preso aos cuidados de um poderoso e antigo regime militar que se arrasta por mais de 30 anos.

Meu crime: estourar em alguns meses – passei um total de oito vivendo em Bali – o visto de estada legal no país, que é de 60 dias. O mal-entendido: eu seguia as recomendações da nossa “competente” Embaixada Brasileira localizada em Jacarta. As palavras do funcionário que me atendeu: “tudo que você terá que fazer é pagar uma multa por cada dia sem visto que você ficou no país, nada mais”. Resultado: prisão sem qualquer diálogo.

Após um rápido “tour” pelos corredores do prédio, escolhi, entre os muitos quartos do lugar, um com uma grande janela. Em nenhum momento os militares que estavam cuidando do caso me informaram sobre o que iria acontecer comigo. Aprendi rapidamente que arrogância militar não é exclusividade de países latino-americanos ou do oriente médio. É tão universal quanto Coca-Cola ou McDonald’s.

Em meu banheiro havia uma privada de chão que exigia habilidades de equilibrista para ser usada. A privada fazia conjunto com um tanque de água fria e uma canequinha para o banho. Havia também um pedaço de espelho pregado na parede. Todas as janelas e portas do casarão tinham grades de ferro.

Lá fora a ilha fervia. Viajantes do mundo inteiro se preparavam para a passagem do ano. Fogos de artifícios pipocavam aqui e ali. Eu sabia de pelo menos meia dúzia de festas que aconteceriam noite adentro. O happy hour já havia começado, barateando a bebedeira. Litros de shake de cogumelo provavelmente desciam garganta abaixo dos mais ousados, por entre as mesas do Midnight Oil. Não queria ficar acordado para “ouvir tudo isso” mas também não conseguia dormir. A primeira noite foi a mais longa, a mais quente e a com maior número de pernilongos.

Ano Novo, vida nova. Agora eu tinha que aprender a lidar com uma situação que poderia durar dias, semanas, talvez meses. Iniciei uma rotina de exercícios para ocupar o corpo e despistar a mente. Afinal, eu passara os últimos meses dentro de um ritual sagrado que começava logo cedo, com um bom café da manhã na companhia de “minha” família balinesa: o casal de “Mades’s” e seu filho Wayan. Depois de observar a mulher balinesa em sua dança perpétua onde, em meio a nuvens de incenso, ela oferece aos deuses as oferendas confeccionadas artesanalmente na noite anterior, eu então partia para meu templo: o mar de Uluwatu, distante dez minutos numa lenta caminhada. Uma rápida checada no mar é o suficiente para te colocar em meio a uma caverna fantástica. É de lá que se parte para a longa remada na maré cheia até o fascinante pico de esquerdas...

Nesse ponto eu já estava exausto. Não da longa remada ou de surfar ondas intermináveis, mas de flexões e abdominais. Com a cabeça a mil, decidi me dedicar ao diário que trazia comigo. Escrevia durante horas resgatando lembranças e imagens que estavam congeladas há muito tempo. Mas como escrever é ler, resolvi devorar todo material legível que eu carregava. Nem bula de remédio foi poupada. Para minha decepção, havia deixado bons livros em Uluwatu, para aliviar o peso. Restou apenas um, “A Bridge Across Forever”, em inglês, do escritor e aviador norte-americano Richard Bach. Eu o li cinco vezes.

De repente me dei conta que a caixa de CD’s que eu carregava nada mais era, naquela situação, que uma biblioteca portátil. Li todos os encartes dos discos e descobri uma imensa fonte de cultura alternativa! Aprendi, por exemplo, que em Woodstock o guitarrista Santana – que na época ainda era um desconhecido tentando um lugar ao sol – se apresentou sob os efeitos de um chá de cogumelos. O resultado foi uma das maiores apresentações de rock n’roll da história.

Certa manhã descubro que não sou o único naquela situação. Acordo com uma canção irritante em uma língua que desconhecia. Um infeliz de Sri Lanka estava “hospedado” no prédio ao lado há 45 dias, pois não tinha dinheiro o suficiente para deixar o país. Foi trancafiado e, ao que parecia, completamente esquecido. Comecei a pensar se eu também estaria ali no próximo mês, cantando músicas religiosas.

Lembrei de cenas de “O Expresso da Meia Noite” e das histórias de uns italianos que foram pegos com cocaína, presos e depois fugiram

A comida era servida pontualmente três vezes por dia. Coisa de militar. Bastante arroz com alguns pedaços de legumes e frango, sempre embrulhado no papel e, como manda a tradição da ilha, nada de talheres. Para completar, um copo d’água e, de sobremesa, um sorriso sarcástico de um milico com pouco mais de 1,5 metro de estatura. A depressão rondava meus pensamentos. A raiva também.

Uma visita de um amigo mudou o quadro. Caio, também brasileiro, me acompanhava desde a Califórnia e se encontrava na mesma situação que eu: ilegal. Mas como ainda não havia tentado deixar Bali, ninguém suspeitava disso. Ele passou a me trazer frutas e bolachas regularmente e iniciou uma longa negociação com a imigração indonesiana. Passou a fazer contato diretamente via fax e telefone com a Embaixada brasileira em Jacarta, que dizia não entender atitude tão radical por parte dos militares. Informaram que colocariam o Itamaraty no caso e em menos de 48 horas eu estaria solto. Passaram-se 48, 72, 96 e eu continuava naquele buraco. Minha angústia aumentava.

Numa tarde, resolvi vasculhar aquele prédio para matar o tempo. Subi as escadas e me deparei com uma fresta razoavelmente espaçosa entre as grades e uma parede lateral. Consegui passar. De repente, me encontrei em cima do telhado a uma altura completamente “pulável” do chão, e de uma avenida cheia de táxis. Era esperar anoitecer, saltar e partir para Uluwatu. Só depois de um longo mergulho no mar é que eu pensaria no que fazer. Fiquei ali parado...pensando. Depois voltei ao meu quarto a tempo de não perder o jantar.

Naquela noite demorei a dormir tentando imaginar o que teria feito se tivesse me atirado pela fresta. Lembrei de cenas de “O Expresso da Meia Noite” e das histórias de uns italianos que foram pegos com cocaína, presos e depois fugiram. Onde estariam agora? Será que casar com uma balinesa e construir um barraco em frente a um dos picos da ilha seria o meu destino?

Mais um dia entre anotações, flexões de braço, frutas e pensamentos. O calor, agora, era insuportável. No verão, as chuvas só fazem aumentar o ar abafado de Bali, em vez de amenizar um pouco a temperatura. Completamente abatido eu, naquela altura, mergulhava em uma depressão sem fundo. Num país com maioria muçulmana, onde um golpe militar, em 1955, matou 500.000 pessoas para tomar o poder, um brasileiro desconhecido, com pouco mais de 20 anos, poderia mofar na cadeia sem que nenhum alarde fosse feito.

Sem mais nem menos fui chamado para o escritório de um tal sargento. Ele, de posse de meu passaporte, disparou uma série de perguntas feitas em inglês bom e claro. Depois começou a dizer o quanto gostava do Brasil por causa do futebol. Citava nomes como Rivelino, Tostão, Zico e, é claro, Pelé! Com um bom humor surpreendente, me informou que eu embarcaria no vôo do dia seguinte para Los Angeles. Como consequência do “crime” que havia cometido, meu nome entraria na lista negra indonesiana e, durante um ano, minha presença no país seria considerada non grata.

Tomei um porre respeitável ainda no avião. Por sorte, minha família não ficou sabendo do acontecido na época. Só depois que eu já estava do lado de fora é que contei-lhes sobre o caso. Nunca mais – mesmo quando em outras viagens enfrentei problemas em fronteiras – procurei o Itamaraty nem qualquer Embaixada Brasileira.

O Selvagem da Motocicleta

Fev 04, 2015

Revista BOOM - Julho 97 | Ano 2, Nº 11 | Pags 58 – 61 NEM BUNGEE JUMP, NEM SKATE,...

O Selvagem da Motocicleta

Fev 04, 2015 · by GIULIANO CEDRONI

Revista BOOM - Julho 97 | Ano 2, Nº 11 | Pags 58 – 61

NEM BUNGEE JUMP, NEM SKATE, NEM RAPEL. EM RUANDA, ESPORTE RADICAL SE CHAMA TIKUKO, UMA ESPÉCIE DE MOTOCICLETA DE MADEIRA, QUE PARECE DOS FLINSTONES, E CUJO ÚNICO COMBUSTÍVEL É A GRAVIDADE!

Por Giuliano Cedroni

Num país marcado por um genocídio que em quadro anos matou mais de 500 mil pessoas e deixou pelo menos um milhão de refugiados, onde a Aids – fala-se em 30% de toda a população – é tão comum quanto um resfriado, fica difícil não se impressionar. Para todo e qualquer lado que se olhe existe uma cena chocante ou uma história humana quase inacreditável, que caracteriza o cotidiano de tutsis e hutus (as etnias locais). Basta alguns dias testemunhando multidões retornando a pé (e descalças) de países vizinhos, visitando acampamentos de pessoas em situações extremas, hospitais improvisados em campos de cólera e você chega a pensar que nada mais vai te impressionar...

           Até que a curva de uma estrada na fronteira com o Zaire surpreende o motorista calejado do jipe, sem deixar-lhe alternativa. Mesmo em velocidade, ele enfia o pé no freio sem hesitar. Todos no veículo se assustam com o movimento brusco. É então que aquela figura surreal aparece vindo do anda. Na verdade, de uma ladeira respeitável. Um garoto ruandês carregando dois pesados sacos de batatas, desce estrada abaixo em cima de uma “coisa” estranha, difícil de assimilar num primeiro momento. Uma espécie de motocicleta rara, feita de madeira. Eles vêm em uma velocidade alucinante, homem e “máquina”, como um motoqueiro rockabilly em uma highway americana. Mas com uma diferença: aquele garoto não tem o menor controle da situação e, assim mesmo, cruza nosso veículo sem se dar conta de quão perto esteve de se esborrachar contra um para-choque de ferro.

           O motorista, um tutsi contratado por uma organização internacional, resmunga em quiniruanda (língua local) enquanto o restante dos passageiros ainda digere aquela cena fantástica. Ele se dá conta que ninguém entendeu uma só palavra do que disse e muda para o francês. Explica que aquilo nada mais é que uma popular forma de transporte usada em Ruanda. Com a falta de ônibus ou qualquer outro meio de locomoção, as pessoas inventaram uma maneira de agilizar longas caminhadas. Num país com um salário mínimo mensal de US$ 19, uma simples bicicleta se torna artigo de luxo. Coisa pra poucos.

           A geografia também ajuda na concepção do Tikuko, nome dado à parafernálha. Ruanda em nada se parece com a África  retratada nas películas de Tarzã, enormes savanas planas com algumas poucas árvores espalhadas, tudo sob um clima seco e árido. Ali, suas montanhas verdes regadas diariamente por chuvas tropicais, renderam ao país o irônico apelido de “Suíça Africana”, ou ainda “Terra das Mil Colinas”. Este, politicamente mais correto. Dessa maneira fica mais fácil acelerar essas máquinas que funcionam à base de um único combustível: a gravidade. Em Ruanda, ladeiras é o que não falta.

 

Radicais por natureza

           “Eles se arrebentam. Não conseguem fazer as curvas e dão de cara com o que vier pela frente. Certa vez dois garotos desciam a estrada do hospital e bateram direto no prédio. Ficaram por ali mesmo”, conta Glória Bássets, uma médica espanhola que há anos atua em países de conflitos como Ruanda. Olhando mais de perto essas “bikes”, se tem confirmada a impressão de que aquilo é um suicídio com data de validade.

           Quase tudo é feito de madeira, artigo em abundância no país. O guidão se assemelha a um taco de beisebal. Nenhum sinal de qualquer sistema de freios. Dele, sai um longo pedaço cilíndrico – que faz às vezes de garfo dessa moto ecológica – e que acaba na roda dianteira. Um teste no molejo delata a perícia exigida por aqueles que ousam conduzir um Tikuko. Na grande maioria, são crianças. Os mais sofisticados colocam pedaços de borracha entre o garfo e os eixos. Eis um complexo sistema de suspensão. Mas o que predomina mesmo é a madeira na madeira.

           A carenagem se resume em uma armação de tocos que serve tanto para ligar ao eixo traseiro, quanto para dar estrutura ao veículo. É nessa estrutura onde viajam as cargas: batatas, carvão, hutus, bananas, lenha, tutsis e o que mais aparecer pela frente. Logo atrás vem o lugar do motorista. Mas isso parece ser um detalhe no projeto, pois resume-se a um espaço de poucos centímetros de madeira livre onde o indivíduo se equilibra, direciona e desvia o veículo de obstáculos que insistem em cruzar seu caminho. Como jipes, casas e construções.

           Finalmente as rodas. Também de madeira, são geralmente do mesmo tamanho mas de modelos diferentes. Cada terreno exige uma linha específica. Acredite ou não, mas existem Tikukos feitos para estradas de terra com dentes de madeira que cravam na lama. Já para o asfalto, uma tira de borracha é pregada cuidadosamente em volta dos pneus, alcançando assim uma melhor aderência. Freios? É nesse ponto que os ruandeses chutam o pau da barraca! Uma lasca de borracha pregada na roda traseira é responsável pelo alto índice de acidentes envolvendo os “Tikukos Riders”. Eles se lançam ladeira abaixo confiando suas vidas nesse pedaço de borracha.

           E há Tikukos por toda parte. Nas cidades, nas vilas, no interior. Os construtores dessa frota de transporte local são geralmente idosos que, além de habilidosos, dispõem de tempo para o trabalho. Ninguém sabe ao certo quem foi o inventor dessa maravilha usada em larga escala por todo país. Nem quando foi a data da invenção. Mas um Tikuko pode ser adquirido por cerca de US$ 15, dependendo do modelo e da lábia do comprador.

           Enquanto a comunidade internacional da ONU e das dezenas agências humanitárias desfilam em modernas Toyotas e Land Rovers, a população local continua subindo em seus Tikukos. Esse é um exemplo insólito da capacidade de um povo em se adaptar a qualquer situação. De superar barreiras aparentemente intransponíveis com as soluções mais fantásticas. Vale ressaltar que Ruanda não chegou onde está pura e simplesmente sozinha. Nenhum povo massacra seus vizinhos e parentes – até a guerra civil era comum a união de tutsis e hutus – de forma tão primitiva, por nada. Há de se olhar para trás e enxergar uma selvagem e duradoura colonização europeia que devastou grande parte do continente, deixando feridas difíceis de cicatrizar. Mas isso é uma outra história...

Como chegar

           Chegar em Ruanda vindo do Brasil é um problema. A reportagem voou de São Paulo até a África do Sul, depois para o Quênia onde embarcou num ônibus até Kampala para, finalmente, cruzar a fronteira ruandesa num “Matuto”, espécie de Kombi africana. Onde cabiam oito pessoas, viajavam vinte e cinco. Detalhe: foram os primeiros brasileiros de que se têm notícia a cruzarem aquela fronteira. Mas existem caminhos mais curtos e menos tortuosos. Com um vôo da Vasp direto para Bruxelas (três vezes por semana, US$ 1.400), na Bélgica, é possível fazer uma conexão direto para Kigali, capital da Ruanda. A companhia belga que oferece esse serviço chama-se Sabena. É este o roteiro usado pela maioria dos europeus que atuam nas organizações internacionais, assim como membros da ONU e jornalistas das agências internacionais. G.C.

Marketeiros Urbanos e Outros Espetáculos

Fev 04, 2015

Revista Boom - Julho 97 | Ano 2, Nº 11 | Pags. 6 – 7 NAS RUAS DE SÃO PAULO,...

Marketeiros Urbanos e Outros Espetáculos

Fev 04, 2015 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Boom - Julho 97 | Ano 2, Nº 11 | Pags. 6 – 7

NAS RUAS DE SÃO PAULO, A VIDA IMITA A ARTE. E OS ARTISTAS SÃO OS AMBULANTES E CAMELÔS QUE AUMENTAM A CADA DIA COM O DESEMPREGO E QUE PARA SOBREVIVEREM EM UMA METRÓPOLE TÃO COMPETITIVA, FAZEM SEUS SHOWS PARTICULARES PARA CHAMAR A ATENÇÃO DE QUEM CIRCULA APRESSADO PELO CENTRO E OUTRAS REGIÕES DE MOVIMENTO DA CIDADE 

Por Giuliano Cedroni

Além de conseguirem vender as mais variadas e bizarras mercadorias, esses personagens tipicamente urbanos não deixam de proporcionar à plateia autênticos espetáculos. São músicos, cantores, acrobatas, ledores de sorte, “atretas” e muitos outros tipos que, com seu marketing particular, atraem todo tipo de curiosos. O respeitável público se diverte, aplaude e...paga pra ver.

O show continua em Ruanda. Foi neste pequeno e paupérrimo país do centro da África, cenário de uma das mais sangrentas guerras civis do planeta e onde a fome e a Aids dizimam milhares, que descobrimos um pré-histórico meio de transporte movido a um combustível pra lá de ecológico: a gravidade.

Para vencer as distâncias dessa “terra das mil colinas”, em que o conceito de transporte coletivo praticamente inexiste, os ruandeses inventaram o tikuko, uma espécie de bike toda feita de madeira, que mais parece remanescente da Idade da Pedra. Um verdadeiro esporte radical para poucos indicados. Criatividade e talento de verdade não têm fronteiras nem conhecem limitações.

Da arte de inventar à arte de ser cidadão. Hideaki Iijima, dono da rede de salões Soho, prova que não é apenas um mestre na arte de cortar cabelos. Entre as preocupações desse japonês que trocou Tóquio por São Paulo há 20 anos, está a de tornar a cidade que o acolheu mais limpa e mais agradável para se morar.

Por iniciativa própria e contando com a ajuda de outros empresários japoneses que com ele formam o grupo Zeladoria do Planeta, Iijima já limpou parques, ajudou crianças carentes e está agora pronta para recuperar o Tietê. A cidade agradece e os respeitáveis paulistanos, mais uma vez, aplaudem.

 

22. INTERNET: O NÚMERO DE DEPENDENTES AUMENTA A CADA DIA, CRIANDO UMA NOVA CATEGORIA DE VICIADOS, OS NETAHOLICS

36. CAPA: EM SÃO PAULO UM CONTINGENTE DE ARTISTAS ANÔNIMOS, OS AMBULANTES, FAZEM DAS RUAS DA CIDADE SEU PALCO PARTICULAR, COM DIREITO A UNS POUCOS MINUTOS DE FAMA

32. POLÍTICA: A CONTROVÉRSIA EM TORNO DA VALE DO RIO DOCE LEVANTA A QUESTÃO: PRIVATIZAR É MESMO PRECISO?

44. PERFIL: HIDEAKI IIJIMA, DONO DA REDE SOHO, ENSINA A ARTE DE ZELAR POR SÃO PAULO, ALÉM DO CORTE DE CABELOS

58. AVENTURA: EM RUANDA, “ESPORTE RADICAL” É UMA ESPÉCIE DE BIKE TODA FEITA DE MADEIRA, QUE LEMBRA UMA DAS ENGENHOCAS DOS FLINTSTONES

30. TELEVISÃO: DUAS NOVAS SÉRIES QUE ESTÃO FAZENDO SUCESSO, ARQUIVO X E MILLENNIUM, TRAZEM O SOBRENATURAL PARA O DIA A DIA DOS BRASILEIROS

54. ESPORTE: AS MULHERES MOSTRAM A MAIOR CATEGORIA COM A BOLA, NOS CAMPEONATOS PAULISTA E CARIOCA DE FUTEBOL FEMININO

48. ENTREVISTA: CASAIS QUE FAZEM MÚSICA JUNTOS FALAM DE AMOR E POSAM PARA ENSAIO FOTOGRÁFICO

52. DESIGN: GUTO LACAZ E MAIS...CULTURA CYBER, LIVROS, VÍDEOS E AS MELHORES DICAS PARA SATISFAZER SEUS DESEJOS URBANOS...

Quero ser Selton Mello

Nov 10, 2005

Revista Trip - Ano 18 - Nº 139 | Pags 26 a 38 ELE TEM 32 ANOS, É DONO DE...

Quero ser Selton Mello

Nov 10, 2005 · by GIULIANO CEDRONI

Revista Trip - Ano 18 - Nº 139 | Pags 26 a 38

 

ELE TEM 32 ANOS, É DONO DE SEU TEMPO, GANHA BEM DE UM LADO, TRABALHA DE GRAÇA DO OUTRO. É SOLTEIRO, BEM APESSOADO, DESEJADO ENTRE AS MULHERES E OS DIRETORES. SE VOCÊ TAMBÉM GOSTARIA DE SER SELTON MELLO, NEM QUE POR UM INSTANTE, PEGUE A SENHA – MAS SAIBA QUE EXISTE UM OUTRO LADO

Por Giuliano Cedroni • Fotos Pedro Arruda

ESSA COISA DE CASAMENTO, FAMÍLIA DORIANA, MULHER, FILHOS, CACHORRO, QUINTAL, NÃO SEI...TENHO PENSAMENTOS MEIO MODERNOS EM RELAÇÃO À ISSO

Selton Mello vendeu a alma para o diabo. É fato. Para nós, espectadores de suas minisséries de Ibope obsceno, de seus filmes premiados e de suas peças intelectuais, essa é uma ótima notícia.

Nasceu da soma de Selva com Danton, seus pais mineiros que o batizaram Selton Figueiredo Melo. Só depois, coma a alcunha artística, é que ele ganhou um L a mais e foi poupado de seu Figueiredo. Há quem acredite que a simples mexida num nome já é coisa do capeta. Que o diga Louis Cyfer, antológico papel de De Niro, um dos atores preferidos deste Mello de L dobrado.

Parido em Passos, Minas Gerais; criado em São Paulo, São Paulo; cidadão do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. É mineiro, paulista, carioca tudo junto. Criança ainda, o primogênito encasquetou que queria porque queria cantar na televisão. Conseguiu: “Fiz todo o circuito dos shows de calouro, do Raul Gil ao Bozo”. É irmão mais velho de Danton, ator como ele, mas que seguiu o “caminho do bem”. Esse casou, teve filhos, casa, família, esquemão. Selton não. É vaidoso e adora aparecer em público, especialmente em eventos turbinados pelo mulheril como nas duas ocasiões em que comandou a disputada entrega de prêmios do VMB-Brasil da MTV (2004 e 2005). “Nunca me senti usado”, diz ele que está solto como o tição.

Selton recebeu o repórter em seu casarão no Alto da Gávea, bairro agradável do Rio. A casa é rústica, escura, muita madeira, poucos móveis, caverna de solteiro. É uma segunda-feira e ele está de ressaca. “Forte”. Apesar disso, acende um cigarro atrás do outro. Álcool e fumaça, vai vendo...

Selton costuma dizer em entrevistas que quer ser “profeta de sua própria história”, frase bonita de autoria do ex-escritor Raduan Nassar, que ele, Selton, aprendeu quando filmava seu livro Lavoura Arcaica. Aprendeu e não mais esqueceu. Nem da frase nem da experiência da manufatura do filme. Selton gostaria de ser Raduan, ter sua genialidade, complexidade, “ser imortal”. Por essas, foi abandonando, lentamente, sua vida pessoal em troca da profissional. “Tudo consciente”, confessa o rabudo.

Nas paredes de sua casa, pôsteres bem enquadrados delatam as preferencias do mineiro. Tarantino, Coppola, Sganzerla, Kubrick, Wenders, Rocha, Trier, entre tantos...Mello não é modesto, se espelha nos grandes. Seu currículo não é modesto. Novelas como A Comédia da Vida privada, Caramuru, os Maias, Os Aspones. As peças Esperando Godot, Zastrozzi e O Zelador. E filmes como o próprio Lavoura, O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. Quando não está na labuta, porém, este capricorniano é preguiçoso como o cão. O próprio homem-bode, com patas e chifres que adoram uma cama macia.

Selton só quer saber de cinema. Montou uma pequena produtora em sua própria casa com ilha de montagem, monitores, som e o escambau. Dinheiro dos trabalhos mais bem pagos, como as campanhas de publicidade em que estrelou recentemente: Elma Chips, Credicard, Speedy. Um “jovem Midas”, dizem os invejosos da noite carioca.

 

QUASE CRISTO

Mello não é nada mellow. No momento em que o leitor conhece estas páginas, ele ainda estará em cartaz com o longa O Coronel e o Lobisomem; em turnê nos festivais de cinema com Árido Movie; em finalização estará o Desafinados, onde faz um cineasta no novo filme de Walter Lima Jr.; em montagem estará o Cheiro do Ralo, em que Selton co-produz e é protagonista num dos seus papéis favoritos; e em preparação terá ainda mais dois longas para 2006. E tem mais, o danado. Como diretor, estará produzindo e dirigindo a terceira temporada do seu Tarja Preta (Canal Brasil), vencedor por dois anos consecutivos como Melhor Programa da TV por Assinatura no Prêmio Qualidade Brasil; estará lançando o seu segundo clipe, um trabalho solo do amigo e ídolo Nasi (vocal do Ira!); seu primeiro curta, intitulado Quando o Tempo Cair, estará em fase de montagem; e ainda estará lapidando o roteiro de Feliz Natal, seu primeiro longa metragem em que assina o texto, a produção, a direção e, claro, o papel principal. E pensar que ainda lhe restam algumas semanas antes que o pé-de-gancho arremate a idade de Cristo.

É fato. Profissionalmente, Selton é um belzebu. Só alguém que menospreza a imprensa de celebridades, que rejeita um contrato fixo com a poderosa rede Globo, que mora sozinho há uma década e não se sente só e que aceita trabalhar de graça em projetos apaixonantes, poderia fazer tanto, tão bem em tão pouco tempo. Nesses vinte e poucos anos de carreira, o finado Figueiredo que estampa estas páginas conheceu os labirintos mais sombrios da mente, caçoou das divinas comédias, abusou das emoções, enganou honestos, convenceu virgens, roubou, mentiu, matou, chorou, vestiu mais de mil faces e, sobretudo, brincou.

É fato. Selton Mello vendeu a alma para o diabo. O diabo das telas, dos palcos, das lentes. O diabos das artes. Graças a Deus!

Você começou a trabalhar já na infância, não? Eu tocava violão e queria cantar na TV. Aí pedi pra minha mãe me levar no calouro infantil. Fiz todo o circuito. Cantei no Dárcio Campos, no Raul Gil, no Bozo, no Barros de Alencar...Isso aos 7, 8 anos.

Como foi dali para a TV? Nesses lugares vai olheiro, gente de agência. Não demorou e rolou comercial, logo depois, novela.

Mas era isso o que você queria? É. Eu que queria.

E teus pais, o que achavam desse pequeno querendo ser famoso? Eles viam que eu tinha jeito, me davam apoio. Eles tiveram sempre uma relação muito boa com isso. Por ter começado muito cedo, conhecer os muitos altos e baixos da profissão, vi bastante garoto dançar por causa de pais chatos, mãe de miss que enchia o saco de diretor. Os meus ficavam na deles, nunca me cobraram, até se mudaram para o Rio por minha causa.

Por tua causa? É...Meu pai era bancário e minha mãe, dona de casa. Aos 11 anos pintou um lance de vir pra Globo fazer Corpo a Corpo. A família toda veio pro Rio. Avaliando hoje, acho muito corajoso da parte deles e não sei o que teria acontecido com a minha carreira não fosse por isso. Mudaram toda uma vida, uma estrutura, por causa de um garoto de 11 anos...

E aí você encalhou... É, depois dessa novela fiz mais uma coisa em TV e nunca mais fui chamado.

E seus pais? Cara, eles poderiam entrar nessa tipo: “E aí, viemos pro Rio, né?” Pô, então procura fulano? Bate na porta de sicrano”. Nunca. Não é a nossa vibe. Mineiro, sabe? Se rolar, rolou.

Família toda mineira? Todos. Meu pai foi transferido pra São Paulo, minha mãe ficou grávida de mim e me levaram só para nascer em Passos (MG). Então a minha infância era bem São Paulo, mas com férias longas em Minas, de ficar meses em fazenda andando a cavalo, pé no chão, mato.

Sua família era mais tradicional ou liberal? Mais tradicional.

Como é sua relação com o seu pai? Bancário, logo passou a vida toda em escritório batendo cartão careta e depois passou pra arte – hoje trabalha com teatro, só os malucos. Ele é parceiro, viaja com a gente, joga sinuca, curte tomar uma...

E sua mãe? Com ela tenho afinidade por outro lado, uma coisa artística. Ela é bem criativa, tenho a impressão de que talvez ela não teve esse espaço na vida pra poder se expressar.

Seus pais são casados ainda? São. Há 40 anos.

E seu irmão? Meu irmão separou recentemente. Foi casado dos 18 aos 30, te dois filhos. Pensar em casar e filhos é complicado. Às vezes tenho a sensação de que meu irmão fez isso por mim, deu netos aos meus pais e me liberou, saca? [Ri.]

Vai ficar mesmo pra tio? Tenho uns pensamentos meio modernos. Essa coisa do casamento, família Doriana, mulher, filhos, cachorro, quintal, não sei...Mas tenho vontade de ter filhos.

Você ainda não achou a mãe de seus filhos, mas deve ter um tipo de mulher preferida, não? Não tem um tipo físico específico. Gosto de mulher mais low profile, na dela, discreta.

Você viaja bastante pelo Brasil. Mulher brasileira é realmente tudo isso? É, é a melhor, a mais linda, tem pegada.

Você já foi traído? [Rindo] Certeza, porque traí também, né? Essa coisa de fidelidade é um negócio muito sério. A gente nasce sozinho e morre sozinho. Nessas que eu vou ficando...Às vezes encontro uma mulher incrível e falo: “Por que não paro por aqui?”.

A fidelidade (ou a falta dela) é um tema crucial para as novas gerações. Você busca um novo formato de relacionamento? Penso bastante nisso. Na teoria parece fácil, só na teoria. Não consigo encontrar uma pessoa que tenha a cabeça parecida, esteja profissionalmente bem, estável, e tope ter um filho e não casar.

Mas independente dessa questão da paternidade, você já viveu um relacionamento verdadeiro? Já tive isso com a Danielle [Winits, a atriz global], bem forte, um relacionamento muito legal. Foram três anos.

Você tinha ciúmes? Um pouco, ela era uma mulher... [Risos.]

Você é muito assediado por mulheres? Humm [risos]...Não tenho do que reclamar.

A impressão é que a mulherada no Brasil nunca transou tanto, a ponto de estar se espalhando uma fama, em outros países, de que brasileira é mulher fácil. Que acha disso? Não dá pra generalizar porque o Brasil é muito grande e as culturas são muito diferentes em cada Estado. Claro que a gente é um povo bem liberto, quente, sensual, sexual. É, brasileira é foda.

Já rolou uma ressaca desse love for sale explícito, já se sentiu usado sexualmente, por exemplo? Não, nunca me senti. Até porque acho que, nisso, você é usado e está usando.

Você já foi assediado por homem? Fui assediado duas vezes por colegas meus e foi uma merda, pois nunca mais consegui ficar à vontade com eles. Sinceramente, gosto muito de mulher. Muito.

Você está com alguém no momento? Eu vivo muito bem sozinho e estou sem namorar já há...puta, uns cinco anos, cara.

A Danielle foi tua última namorada? Não, depois dela teve outras. Uma eu namorei um ano, outra um ano e meio. Casos, rolos, possíveis namoradas, quase casamentos, isso rola, né?

Você já morou com alguém? Não.

Há quanto tempo você mora sozinho? Há uns dez anos. Tem gente que não suporta a solidão, precisa ter alguém na cola sempre. Não sou assim.

Você já está criando manias de quem mora sozinho há muito tempo? Putz, total. Minha teoria é que tudo é costume, depois, pra mudar...Sou quase já caso perdido.

Um jovem rabugento? É, você fica meio rabugento. Mas isso não dá pra programar, de repente se apaixona e tudo pode acontecer.

Você tem alguma mania específica? Eu como a mesma coisa todo dia.

Como? A minha empregada faz as mesmas coisas todo dia: franco à milanesa, couve-flor, arroz, salada. Até como carne em churrasco, mas no dia-a-dia eu como a mesma coisa e não enjoo.

Assim você não vai casar mesmo...Alguma outra mania? Tenho uma nóia com silêncio pra dormir. Eu já durmo mal, e de um ano pra cá entrei numa meio errada de tomar umas bolas pra dormir, daí o nome do meu programa Tarja Preta.

E derruba? Tenho muita insônia, trabalho muito e quando deito é a hora que eu mais penso. Então eu moro no meio do mato, que é alto e silencioso, mas ainda assim durmo com tampão [risos]. E viajo com tampão. Tampão vicia.

Mais alguma? Tem. Eu vivo ligando para minha casa deixando recado pra mim mesmo. Puta nóia...

Melhor mudarmos de assunto [risos]...No que você trabalhou durante o período longe da TV? Durante toda a adolescência fui dublador. Entrava de manhã e saía à noite do estúdio.

Quando foi isso? Chegamos ao Rio em 84 e até 86 ainda fiz alguma coisa de TV. De 86 a 92 não fiz nada de televisão, só dublagem na Herbert Ritchers. Achei que a TV tinha sido coisa de criança e que eu seria dublador pra sempre.

E isso na adolescência masculina, época difícil do homem...Como foi essa parada na sua cabeça? Era bem ruim. É meio pirante para uma criança começar bem e depois cair fora. Me sinto meio sobrevivente de verdade, ter conseguido voltar e reconquistar o meu espaço.

Você engordou nessa época... Engordei pra caramba, ficava nessa angústia. Via numa telenovela personagens de 17 anos feitos por atores mais velhos e não entendia, falava: “Porra, tenho 17 anos, porque esse cara de 27 tá fazendo esse papel?”.

O Rio tem esse mercado da Globo, com muita gente querendo ser ator, isso parece afetar bastante as pessoas desde cedo, aquela movimentação “consegui um teste aqui”, “estou esperando resposta ali...”. Não é agressivo? É. Bastante. E recentemente descobriu-se o filão para um consumidor em potencial, que é o adolescente. Filmes para adolescente, teatro para adolescente, Malhação, coisa que não tinha na época.

Um adolescente com essa frustração no trabalho, gordo e vivendo no Rio, a terra do corpo sarado, sofre bastante, não? Por isso tive uma adolescência reclusa, fazendo um trabalho em que só importava a voz. Sofri, mas ao mesmo tempo eu trabalhava, ganhava uma grana, aprendi a reconhecer o valor do dinheiro que você conquista. Consegui comprar o primeiro carro, ajudar em casa, pagar o colégio, porque meu pai era bancário e ralava pra caralho ganhando 500 contos por mês. E nesse período da dublagem, hoje vejo, foi um período em que eu vi muito filme, recebi muita informação. Eu dublava o Anjos da Lei, série com aqueles atores bacanas, tipo Johnny Depp... Eu fazia um dos amigos policiais que era japonês, lembra?

Pior que lembro...Então, eu via isso tudo e acho que ali já começou uma onda cinéfilo. Não sei dizer exatamente como, mas a dublagem me alimentou.

Você também dublou o Charlie Brown, do Snoopy. O cara era meio depressivo, não? O cara é totalmente depressivo, sensacional. Dublei ele dois anos.

Brown de dava mal com as meninas. E você, como era nisso? [Risos] Péssimo. Subnutrição total, não agarrava ninguém.

E quando foi que você começou a virar o jogo? Bem depois. Eu perdi a virgindade tarde, aos 19, com uma namorada. Tarde, né?

Hoje seria inconcebível. [Risos] E foi uma bosta.

E o que você fazia quando moleque? Saía bastante, jogava boliche em boate de matinê, e muito show, muito Ira!.

Ira!, a banda? Ira! é uma banda que me acompanhou, falava bem a língua que eu pensava. Bem mais tarde fomos nos encontrar e acabei dirigindo um clipe deles. Agora dirigi um do trabalho solo do Nasi e temos um projeto de um DVD dos 25 anos do Ira!.

Ira! é uma banda extremamente urbana. Você é mais urbano que praia? Tenho esse lado bem paulista, moro num pico que nem parece o Rio, totalmente afastado, meio do mato, meio mineiro. Não vou à praia nunca – oito anos que não piso na areia. Não curto praia, essa coisa de culto ao corpo. Tenho um lado paulista bem forte, tanto que passei agora um mês e meio lá, direto, fazendo o [filme] Cheiro do Ralo e, cara, adorei. Eu trabalho bastante e lá tem essa coisa...

...do trabalho? É, de produzir, de se agitar e ser sério, é lá que estão as empresas e a grana. E tem também essa coisa mais urbana, da noite mais cinza e que combina mais comigo.

Você é um pouco vampiro da noite e o Rio é mais diurno, não? Exatamente.

Já experimentou drogas? De tudo, mas a única que mantive foi isso [diz mostrando o cigarro aceso]. Essa é foda.

E como você lida com essa coisa bem presente na juventude do Rio do culto ao corpo? Acho que por conta praia sinto que aqui a moçada tá mais ligada nisso mesmo. A juventude brasileira vive muito o cada um por si, bem diferente dos anos 70, que era engajada, aquela coisa do “juntos nós vamos conseguir”.

Uma geração mais egoísta? Egoísta, sim, uma boa definição. É raro aquela coisa dos Caras Pintadas que tiraram o Collor, né? Mas eu, particularmente, nunca fui politizado e não sou um grande entendedor.

Você votou no PT? Votei no PT ao longo de todos esses anos, sempre votei no Lula.

Numa entrevista, na época de sua posse, você disse que ele era “o cara certo no lugar certo”. Essas frases ficam para sempre... É, puta, não sei que avaliação fazer. Tá uma lama louca esses escândalos aí, tomara que isso seja bom pra renascer.

O que te levou a votar no PT? Achava que ele tinha uma coisa diferente, um pensamento que poderia ser legal para os menos favorecidos. Trabalhei muito no sertão, por coincidência. E acho que conheço cantos do Brasil que muitos políticos não conhecem, lugares sem água, por exemplo. Se um filme tem estrutura pra levar água ali por que o governo não tem? O cara não viria trabalhar nas cidades grandes se lá tivesse água e uma estrutura pra plantar. Acho que esse governo perdeu a noção do que é esquerda e o que é direita. Quem é esquerda? Eu perdi a noção.

Até por frustração com a política ortodoxa boa parte da juventude engajada acabou rumando para o terceiro setor. O que você acha disso? Acho legal, mas nunca me liguei nisso.

Você já fez algum trabalho social? Não fiz, desconfio desses hospitais que me ligam pedindo que participe de campanhas...

Para ser ator é preciso gostar de aparecer, não? Também, mas também saber que será muito criticado e, às vezes, para o mal. É só acessar meu nome no Google: ali tem tudo, pessoas falam a seu respeito, te detonando, chamando de merda, outros te amam. Sou corajoso na profissão, não tenho medo de dirigir um longa metragem, por exemplo. Se ficar uma bosta eu faço outro. Até porque gosto de dirigir. O Sean Penn já está no terceiro longa como diretor e continua fazendo trabalhos incríveis como ator.

Você já teve momentos fora do prumo nessa história da fama, do ego? Ah...sem dúvida! Eu identifico bem a época. Foi no meu “recomeçar”, numa novela chamada Pedra Sobre Pedra, em 92. Ali voltei pro mercado, depois fiz uma outra novela chamada Tropicaliente, meu primeiro personagem protagonista, e naquele momento eu estava achando que sabia mais do que sabia. Por um bom período eu fui mal compreendido pela mídia. Um vez eu vi o De Niro dizer: “Quanto menos o público souber de você, mais eles acreditam nos personagens”. Tudo bem que não dá pra radicalizar, mas acho legal uma certa preservação. Hoje em dia é o contrário, todos querem aparecer falando tudo, com quem casou, quem separou...

COMO A MESMA COISA TODO DIA E NÃO ENJOO: FRANCO À MILANESA, COUVE-FLOR, ARROZ, SALADA. TAMBÉM SOU VICIADO EM TAMPÃO E ADORO UMA PILULAZINHA

Parece que você ficou dois anos sem dar entrevistas... Fiquei? Mas foi uma conquista bem legal porque hoje em dia ficou bem claro meu posicionamento, as pessoas entenderam qual é a minha, o trabalho é mais importante do que eu estar exposto falando merda. Qual é a função disso que a gente está fazendo?

Quer parar? O que me pergunto é “pra que serve isso que a gente tá fazendo agora, uma entrevista?”. Pode ser legal talvez para um ator jovem, que me veja como referencia, assim como eu tenho referencias...

Você parece correr por fora da imprensa de celebridades, hoje tão forte no Brasil. Corro bem por fora. Nunca fui galã de novelas...

Você sempre fala que não se considera um galã daquela tietagem clássica, popular, por outro lado, para um certo tipo de menina, mais letrada e engajada, você é, sim, galã. Então, como é ser galã? Eu tomei um susto outro dia... Estava na [pizzaria] Guanabara às cinco da manhã, com uma amiga, nem era rolo, nem nada, tomando um chopp. Veio o segurança: “Olha, tem um cara ali dentro do carro te filmando”. Nunca fui seguido por paparazzi. Aí fui falar com o cara – era do SuperPop [programa da Luciana Gimenez]. Eu tava bêbado e falei: “Pô, cara, você tá me gravando?”. E ele: “Tô e tem outro cara te fotografando do outro lado da rua”. Eu falei: “Corta isso aí, pô. Estou tomando um chopp e são cinco da manhã”. Daí fui embora sozinho e de repente senti o movimento dos flashes, o cara me filmando e o outro tirando foto. Daí estourei: “Meu irmão, que porra é essa? Vai dormir! Sai fora!”. Dai ele: “Me dá uma entrevista aí, senão vai ficar mal pra mim, ele já fotografou e se eu não te gravar falando alguma coisa vai ficar mal pra mim”. Olha o papo...

O que é sucesso pra você? É fazer as coisas de que você gosta, que acredita, não que acreditam por você, e as pessoas curtirem a tua viagem. Me sinto bem realizado. Não tenho sonhos de consumo: tenho uma casa, a casa dos meus pais e uma grana que permite escolher os trabalhos que eu faço de graça, os filmes.

Você se vê como um grande ator? Não. Eu me vejo como um bom ator, um ator que tem curiosidade de experimentar coisas, de trabalhar com novos diretores em situações diferentes. Nesses últimos anos, tenho intercalado filmes de orçamentos grandes e baixos. Cada um teve sua história, com cada um aprendi. Quando você se acha um grande ator você está morto.

Essa tua migração para a direção não tem a ver com a falta de desafios como ator? Não, tem a ver até com o fato de eu curtir montagem, gostar da parte técnica, ter interesse nisso. Faço parte de uma geração privilegiada que tem o cinema como opção. Ele está aí e eu adoro – se puder estou fazendo cinema direto.

Na sua casa você tem pôsteres do Blow Up, Reservoir Dogs, Deus e o Diago... Parece que, dos filmes que você fez, só o Lavoura Arcaica transita nessa seara dos seus filmes prediletos... E agora tem o Cheiro do Ralo.

Como foi esse trabalho? Puta, foi do caralho. O personagem é um dos mais incríveis que eu já fiz. Estou apaixonado pelo filme. É um personagem grande e complexo, é escroto pra caralho. É o personagem mais próximo no cinema das coisas de que gosto: Gary Oldman, irmãos Coen, é pop mas é maldito. É patético, é solitário, meio mafioso. É um filme que gostaria de assistir.

Cheiro... só estreia ano que vem. Dá uma ideia para o leitor do que vem por aí? Tem um pensamento curioso do personagem que mostra bem como é o cara. Eu fiz esta cena com o Mutarelli e ficou um tesão, porque é aquela coisa de criador e criatura [Lourenço Mutarelli é o autor do livro Cheiro do Ralo. Em sua estreia como ator, ele é o segurança do personagem de Selton]. Eu chamo ele de canto, a gente acende o cigarro e eu falo: “Deus criou o mundo, mas foi o homem que deixou ele confortável. O homem é o ¨nico animal capaz de criar uma coisa confortável como uma poltrona, por exemplo. O homem é o deus do conforto”. Daí ele manda: “Pô, mas o homem criou também muita coisa ruim”. “Tipo o quê?” “Tipo o lixo, por exemplo.”. Daí eu falo: “Não, o lixo é o troco. Olha essa gente que fica na rua catando latinha, eles se divertem com isso. Eles não querem conforto. A gente inventou o lixo pra ocupar essa gente toda. Inclusive esse mendigo aí na porta...”. Achar a humanidade dos personagens é a busca constante no meu trabalho. Porque achando isso você acredita em tudo o que esse cara faz.

Você se acha bonito? Bonito? Não. Sei lá, não me acho.

E culto? Puta, sou interessado. Não sei se sou culto, mas leio bastante... Tem fase vagabundo que não leio porra nenhuma, e fases lendo mil coisas ao mesmo tempo.

Que livro te impressionou ultimamente? John Fante [autor de Pergunte ao Pó]. Amei. Que mais? Ah, tem aquele Mirisola, o Reinaldo Moraes, essa turma de São Paulo. O Marçal [Aquino] tem coisas incríveis.

Ele é considerado um bom roteirista, e dizem que esse é o ponto fraco do cinema brasileiro. O que você acha? Temos excelentes roteiristas. [Fernando] Bonassi é um puta roteirista, [Bráulio] Mantovani, o próprio Marçal. Eu acho que roteiro é literatura, um namoro bem saudável entre literatura e cinema.

Você escreve? Estou escrevendo.

Esse Feliz Natal foi você quem escreveu? Escrevi junto com o Marcelo [Vindicatto], parceiro que trabalha comigo no Tarja Preta e com produção na Bananeira Filmes. Saiu um roteiro. Claro que a gente vai mexer, melhorar, acrescentar. O Tarja Preta é minha escola teórica de cinema, fui lá no acervo do Canal Brasil e vi a história do cinema brasileiro na minha frente. Pornochanchada, chanchada, Atlântida, Cinema Novo, cinema marginal. Muito interessante... Descobri um filme chamado Bang-Bang, do Andrea Tonacci, que é do caralho.

Feliz Natal vai ter essa vibe? Tem bastante essa vibe.

Amanhã você vai rodar o seu primeiro curta. Fale dele. Chama-se Quando o tempo Cair. Chamei o Jorge Loredo pra fazer, o Zé Bonitinho, sabe? Ele está com 80 anos. A história é de três gerações: o velho, o filho e o netinho. O filho está doente, deprimido, na cama, mal, e o velho tem de arrumar emprego. Bota o melhor terninho, vai lá numa empresa, senta com um garotão, presidente da empresa, só juventude, computador... A inspiração veio da inadequação do velho no mercado de hoje.

ADORO ATUAR, MAS COMO DIRETOR FICA O MEU PENSAMENTO, O QUE IMAGINO, O MEU OLHAR, O MEU TEMPO, O MEU CORTE. É DAR À CARA À TAPA

Em vez de falar um pouco de cada um dos seus trabalhos, escolhi somente Lavoura Arcaica, por motivos artísticos. Como foi aquela experiência? Tenho a impressão de que ninguém saiu ileso desse trabalho, mexeu com todo mundo de maneira radical. Pós Lavoura tive certeza do que eu queria. Porque você é ator? Qual é a sua função no mundo? A partir daí tomei um rumo meu. O filme fala disso, de liberdade, de ter voz ativa, do cara que se liberta da família e sai pra poder ter sua voz.

E como foi a filmagem em si? Foi muito doloroso e todos os sentidos, inclusive fisicamente. Eu tomava uma porrada de remédio, mexi com hormônios, tiroide... E muita solidão. Eu ficava lá, sozinho, ouvindo minhas músicas.

Que músicas? Chico Science, The Doors, Legião Urbana. Os mortos todos estavam lá comigo. E pra ler levei o Lavoura, que era a cabeceira, um livro que se chama A Biografia do Diabo, de um escritor argentino, a Bíblia e o Manual do Congregado Mariano, que era um lance que ele lia quando era criança. Tempos de ouro.

Foi seu ponto alto na carreira como ator? Tem essa coisa de ator jovem fazer Hamlet e ator velho fazer Rei Lear, né? Quando me convidam pra fazer eu falo: “Já fiz, cara, fiz o Lavoura Arcaica, o Hamlet caboclo”.

Teve medo? Medo de tudo. Medo de não conseguir, medo de mexer com coisas muito radicais, medo de como sair daquilo. Costumo dizer que fui salvo pelo Auto da Compadecida [filme de Guel Arraes], pois eu fui de um para o outro, literalmente.

E não podiam ser filmes mais antagônicos, não? Não podiam ser mais antagônicos, lama ao sol. Foi meu ano de ouro como ator; Raduan Nassar e Ariano Suassuna, André e Chicó. Acho que se eu acabasse o Lavoura e voltasse direto pra casa, sei lá o que poderia acontecer, poderia dar merda. No mínimo análise...

O suicídio já te passou pela cabeça? Já, já. Mas já passou. Essa coisa de se expressar, de você deixar uma marca no mundo... porque a televisão é descartável mesmo e o cinema fica vivo, tá ali, a gente assiste até hoje. É uma forma de você eternizar, de se imortalizar, como a música – o cara morre e as músicas ficam.

E porque essa tua vontade de se eternizar? Não sei. Tem gente que acha isso assustador. Eu não. A cada ano vou envelhecendo e sei que, já morto, vai ter gente que vai falar “puta, esse cara aqui era assim”, “olha ele aqui mais velho”. Eu gosto do passado. Sou saudosista, tenho vontade de deixar um trabalho.

Com essa tua entrada agora na direção você vai deixar outro tipo de trabalho, não? Sim, maior, porque fica o meu pensamento também, o que eu imagino, o meu olhar, o meu tempo, o meu corte. É dar a cara a tapa.

Você é um cara completamente apaixonado pelo que faz, se entrega como ator e agora quer se entregar como diretor. É também um cara de 32 anos que nunca morou com uma mulher e nunca teve filhos. Não acha que essa energia do trabalho tira energia da sua vida pessoal? Sempre tirou.

E é consciente? É consciente. Pode ser que uma hora eu sinta falta, mas hoje não sinto, é assim que eu me realizo, que fico feliz, vibro, é assim que viajo. Através da arte eu me realizo.

Mas a sua matéria-prima não vem das emoções vividas na sua vida pessoal? Mas sou um observador, sempre ligado em tudo e em todos. Tem uma entrevista com o Raduan em que ele começou a falar uma coisa, parou e disse o seguinte: “Eu boto um olho nos livros e um olhão na vida”. Eu não preciso casar para ter essa experiência, eu tô ligadaço no humano, tudo está sendo visto e armazenado e o que vale como ator é o que vale pra diretor também. Eu tô na vida.

O que é felicidade pra você? É isso que eu acabei de te dizer, estar fazendo um trabalho que me complete. Quando eu não estou eu fico perdidasso.

Já sofreu algum tipo de preconceito? Não sofri propriamente, mas é aquele lance, se você é ator de novela a turma do teatro de acha um merda, um vendido pro “esquema” mas adorariam estar lá. Se você só faz teatro a turma da televisão te acha meio hippie. Se faz cinema a turma do teatro te admira e a turma da TV te odeia, pois eles têm que bater cartão diariamente enquanto você é um espírito livre. Ou seja, ser bem sucedido no Brasil incomoda muita gente. Ser bem sucedido e um espírito livre no Brasil incomoda muito mais.

Você tem um plano de metas pra envelhecer? Acho que é isso que eu estou começando agora. Me vejo dirigindo, atuando, produzindo coisas que não são minhas também.

Pra fechar, um breve questionário que chupei por aí...Que trabalho você se arrepende de ter feito? [Selton sempre fecha suas entrevistas no Tarja Preta com este questionário] [Risos] Eu faço essa pergunta e é cruel pra caralho... Muita gente sai da mesma maneira que eu vou sair agora: não dá pra se arrepender de trabalho nenhum porque mesmo nos erros, e às vezes sobretudo nos erros, você aprende. Então não me arrependo.

Imagem de um filme que vem a sua mente agora? Bandido da Luz Vermelha, qualquer cena.

Dorme bem à noite? Durmo mal à noite.

Já usou tarja preta? Uso com frequência.

Para quem prescreveria? Prescreveria não para uma pessoa mas pra todos os governantes do Rio de Janeiro dos últimos anos. Governador, prefeito, tarja preta em toda essa turma.

Resolvi somar algumas outras perguntas ao seu questionário...O que você sonhou esta noite? [Risos] Caralho... Sonhei com meus cachorros.

Se você fosse passar um ano isolado em uma ilha e pudesse levar um livro, um CD, um filme e uma pessoa, o que seria? Que viagem...Cem Anos de Solidão seria o livro; o CD seria Vivendo e Não Aprendendo, do Ira!; o filme, eu levaria o Bandido da Luz Vermelha. A pessoa que é o mais cruel... Levaria o meu irmão.

Se alguém lhe desse uma bela grana para fazer um trabalho sem censura o que faria? Puta!? Bom, seria um filme. Acho que eu ia dirigir um dream team fodão, botava Paulo José com Al Pacino, José Dumond com Benício Del Toro, Leo Medeiros com Edward Norton. Juntava todos eles numa sala e a gente ficava meses improvisando, e o filme nascia dessa descoberta coletiva [risos].

Por último, um grande sonho na vida? O grande sonho é poder continuar, o que não é fácil, a fazer o que eu já venho fazendo – não é pouco. Continuar sendo profeta de minha própria história.