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Sem Rodeios

26 Jan 2016  ·  by GIULIANO CEDRONI  ·  12 comments

Revista Trip - Ano 12

ESQUEÇA TUIUIÚS, ONÇAS, JACARÉS E OS BANHOS DE RIO DA JUMA. ALÉM DA MANJADA FAUNA, O PANTANAL TAMBÉM SUPORTA UMA SORTE DE HOMENS RUDES E ESTRANHOS, PERSONAGENS DE UM LADO OBSCURO DA REGIÃO. GENTE QUE BEBE ÁLCOOL ZULU DA GARRAFA, QUE CONHECE O PODER DE UMA FACA, QUE NÃO TEM ENDEREÇO FIXO E QUE PASSA SEMANA SEMANAS NA ZONA. TRIP PASSOU SETE DIAS NO LOMBO DE UM BURRO PARA CONHECER UM POUCO DO PANTANEIRO – ESTE SER EM EXTINÇÃO QUE CONDUZ MILHARES DE CABEÇAS DE GADO DE UM CANTO AO OUTRO DO PAÍS, E QUE PERSONIFICA, NA RAÇA, O IDEAL DE LIBERDADE.

Por Giuliano Cedroni • Fotos Cristian Gaul

“Minha primeira vez foi com uma galinha. Eu tinha uns 7 anos mais ainda me lembro bem; o troço é apertadinho e queima o pau da gente!”, conta no café da manhã, e em um português cantado, uma figura de 31 anos, traços fortes, corpo largo e olhar de criança. Seu nome é José Carlos de Oliveira, mas no estado do Mato Grosso do Sul, especialmente na região mais selvagem conhecida como Pantanal, ele só atende por Sinimbu. Não foi a única vez que Sinimbu – nome dado a um enorme lagarto da região – deitou-se com um animal, prática, aliás, bem comum no interior do Brasil. Éguas, mulas, bezerros e cabritas o serviram durante boa parte da infância e início da adolescência. Mas o fato de ser pantaneiro foi determinante na mais bizarra de suas experiências sexuais: “Essa eu tinha uns 12. Eu e uns amigos pegamos uma jacaroa na beira de um rio, amarramos a bicha e fodemos ela. Essa era geladinha...”

Horas antes de degustar um estranho desjejum – costela de boi com café preto - , Sinimbu e seus colegas aproveitavam as últimas horas de folga num puteiro de quinta de Campo Grande. Completamente “melados” de pinga, ao som de sertanejo do bom, eles se esforçavam para agarrar qualquer mulher no raio de alcance. Quando não está trabalhando, é lá que gente como eles, peões de boiadeiro, pode ser encontrada. O pantaneiro não passa apenas as noitadas em puteiros, como a maioria dos brasileiros, mas faz desses estabelecimentos sua casa de conveniência: quarto, comida e mulher.

Mas agora é hora de curar a ressaca; Sinimbu e seus companheiros têm trabalho. Eles foram contratados para transportar, num prazo máximo de 20 dias, 1.200 cabeças de gado dos confins do pantanal para uma fazenda distante cerca de 250 km. Montados em burros e vestindo couro, sete homens vão dormir ao relento, acordar sempre de madrugada, trabalhar sob o sol mato-grossense, tomar chuva, enfrentar cobras, escorpiões, jacarés, porcos do mato, onças e ladrões de gado, tudo isso enquanto cruzam municípios inteiros administrando o ânimo de centenas de cabeças de gado. Trata-se de uma comitiva de peões de boiadeiro, um profissional raro, errante e em extinção, e que em nada se assemelha aos caubóis mauricinhos que lotam rodeios e festas pseudo-sertanejas da região Centro-Oeste do Brasil. Sem rodeios, ibope ou atuações, ali a cena é verídica.

Burritos S.A.

O dia do pantaneiro começa sempre à noite. Mesmo sem despertador – o peão não usa relógio e sabe as horas pela posição do sol – acorda impreterivelmente às quatro. Enquanto desmonta sua rede, armada a cinco palmos do solo – “o Pantanal é o paraíso das cobras”- , dá-se início a uma rotina que pode durar de uma semana a vários meses: “Participei de uma comitiva em 78 que se arrastou por 125 dias. Trouxemos 1.500 cabeças de gado da Argentina até Goiânia. Una loucura, chico!”, lembra Ivanilton de Souza, o Nenê. Nenhum peão no Pantanal é conhecido pelo nome. Alo impera mesmo o apelido.

Nenê é o cozinheiro, segunda função mais importante da comitiva, perdendo apenas para o condutor. O cozinheiro é uma figura de extrema importância; além de abastecer os estômagos famintos dos peões com uma “dieta-balança” (arroz de carreteiro, feijão, carne, macarrão e, de sobremesa, rapadura), é ele quem monta, desmonta e transporta todo o acampamento em cima de quatro burros de carga. Por isso recebe mais que os outros: R$ 14 por dia – um peão comum ganha apenas R$ 10.

Kitchens

O cozinheiro viaja sempre sozinho. Depois do café da manhã, enquanto seus companheiros iniciam mais uma marcha (dia de viagem durante a boiada), Nenê, sozinho, “veste” os burros de carga com toda a tralha da comitiva: malas dos colegas, lonas, lampião, um saco grande de erva-mate para o tereré (chimarrão servido com água fria), um machado, foice, diversos pedaços de cordas, um fogão portátil a lenha, bancos, panelas, bule, chaleira, pratos e talheres, canecas e galões para água – cada utensílio usado na comitiva possui tamanho e design perfeitos para ser encaixado um dentro do outro, sempre priorizando a economia de espaço. Para ajudar no transporte dos mantimentos, são usados oito “cases” de couro de vaca, feitos artesanalmente e sob medida, que são acomodados sobre o lombo dos burros – cada burro leva um par de “brocas”, nome dado à peça (ver glossário “Outra língua”, no final da matéria). É na “broaca” que se carrega o principal cardápio da comitiva: 80 kg de carne bovina. É de praxe, no Pantanal, a fazenda doar à comitiva uma vaca para abastecer os peões durante a viagem. A cena impressiona: o animal é morto com um pequeno corte certeiro na jugular e, antes mesmo de o bicho morrer, os peões dão início à difícil arte de carnear, que nada mais é do que arrancar o couro e cortar o pobre animal em pedaços. Nas mãos de tries peões experientes, uma vaca desaparece por inteira em menos de uma hora. Em seguida, a carne é cuidadosamente salgada e exposta ao sol por três dias consecutivos. Os pedaços mais ossudos, como a costela, são consumidos primeiro, para aliviar o peso. A partir daí, o produto pode ser armazenado sem qualquer sistema de refrigeração com data de validade de mais de um ano.

Quando Nenê termina, o que leva bons 40 minutos de tremendo esforço físico, a imagem final é de dar gosto a qualquer estrategista de acampamentos da ONU: um kit completo e auto-subsistente, capaz de acomodar com “certo” conforto uma dúzia de homens por mais de um mês, sendo inteiramente transportado com segurança e inteligência no meio de transporte mais adequado à região. Quanto ao solitário Nenê, deverá apressar-se para ultrapassar a boiada com seus burritos, viajar durante horas, escolher um bom local com sombra e água potável – previamente combinado com o condutor - , descer toda a tralha, montar acampamento, cozinhar o almoço e esperar pelos companheiros. Tudo isso para, quando o peão chegar do campo, seco e exausto, encontrar um banquete pronto, um gole d’água fresca e um sorriso materno à sua espera.

Economia de risco

“Tem homem que não merece nem briga para ser morto. Tem que levar tiro é na nuca mesmo.” Este é Aurélio Chaves Garcia, 47 anos, cego de um olho, míope de outro e condutor de comitiva. Apelido: Seu Milionário. Diz que o nome artístico surgiu na época em que trabalhava como cobrador de ônibus de linha em Campo Grande, ao lado de um motorista que muito se parecia com Zé Rico, cantor da famosa dupla caipira. E o apelido cabe-lhe como uma luva. Milionário é um peão que subiu na vida: dono de uma tropa de 21 burros e de toda a parafernália usada na comitiva, é quem negocia com as fazendas, que o contratam por R$ 150 por dia para levar o gado do ponto A ao ponto B. Quantos peões ele vai controlar, qual o valor combinado com cada um, quantos burros vai precisar, o cardápio da expedição, tudo isso é problema do condutor, que também desembolsa do próprio bolso a compra dos mantimentos, assim como o aluguel de pouso nas fazendas ao longo do caminho – curral e pasto para o gado e tropa, respectivamente, custam cerca de R2 20 a noite. Enquanto os peões entram apenas com a mão de obra e o próprio arreio, o condutor, apesar de ser o chefe maior daquele Estado, o general da batalha, o presidente da empresa e a palavra final, é também, o único endividado da história.

“Para ser um bom condutor é preciso saber trabalhar bem, tanto o gado quanto os peões. Além disso, é preciso dominar a técnica da conta”, explica Milionário, montado sobre Servo, seu burro mais fiel. Momentos antes da comitiva deixar os limites da fazenda o condutor participa de uma metódica contagem do gado juntamente com o capataz da fazenda, pessoa de total confiança do proprietário. Nesta empreitada, por exemplo, o dígito bateu em 1.191 cabeças. Este é o número exato que Milionário deverá entregar dali a 20 dias em outra fazenda, do mesmo proprietário, onde o gado passará por um período de engorda para finalmente ser enviado para a última das viagens: o frigorífico.

Se porventura alguma vaca mais velha e fraca não conseguir continuar a viagem, algo bem comum em comitivas, o condutor deverá deixa-la na fazenda mais próxima e retirar um recibo, para que seu cliente possa busca-la de caminhão alguns dias mais tarde. Mas se alguma padecer de exaustão, picada de cobra ou ataque de onça e simplesmente não resistir, algo bem menos comum, cabe ao condutor arrancar-lhe o pedaço de couro onde está gravada a marca da fazenda, e entregar ao cliente o estranho artefato juntamente com os recibos. Agora, se o gado estourar e fugir, é o condutor quem terá que pagar, do próprio bolso, cada cabeça desgarrada. E para se ter uma ideia do risco e responsabilidade do cargo, basta dizer que, se uma única vaquinha passar desapercebida em meio a um arbusto mais fechado e assim fugir da boiada, Milionário terá prejuízo em toda aquela viagem, já que uma vaca no Pantanal vale cerca de R$ 250.

Esquema tático 1 x 2 x 2 x 1

Em qualquer empresa, cada funcionário tem uma posição estratégica no todo, com responsabilidades proporcionais ao cargo. E na comitiva do Pantanal não é diferente. O desenho de uma empresa itinerante como essa, vista de cima, assemelha-se a um time de futebol.

Na frente está o “ponteiro”, espécie de centro-avante, figura impressionante que deve impedir, no braço e no grito, o estouro do gado. Mas, além de brecar toda a força dianteira da boiada, é ele quem deve guiar a comitiva no rumo certo. “conheço tudo por aqui, não preciso de mapas nem nada. No Pantanal já viajei mais que notícia ruim”, diz Divino, 50, na estrada desde os 12, e que, além das ferramentas convencionais de trabalho, carrega e aciona, quando necessário, o famoso berrante. Em sua boca, o berrante soa como um mantra tibetano. Um som grave avisa ao gado que é hora de posicionar-se para iniciar mais uma jornada.

Atrás de Divino estão os dois “fiadores”, espécie de ponta-esquerda e ponta-direita. Sua função é afunilar o gado sem deixar que se espalhe demais para os lados. Qualquer cabeça que desgarre para fora dos limites da boiada – e isso acontece sempre – deve ser trazida de volta pelos “fiadores”. “No fundo, somos todos uns românticos à procura de um par de braços cheirosos e uma boca carnuda”, desabafa Ramón Mendez Marias, o Champrinha, um negro de 32 anos com aparência de 50. Apesar de não praticar em serviço, Champrinha desenvolveu uma maneira toda especial de tocar o berrante: sopra notas agudas e melancólicas neste misto de ferramenta e instrumento, fazendo-o soar como um afinado trompete de um triste álbum de jazz. Bastou descobrir que Champrinha, além de negro e criativo, não vive sem alteradores de estado – em seu caso, qualquer bebida altamente alcoólica (ele bebe copos inteiros de álcool Zulu fazendo cara de “quero mais”) -, para que fosse prontamente batizado pela reportagem de “Miles Davis do Pantanal”. (Gravações de alguns dos melhores solos de Champrinha podem ser ouvidas no site da TRIP: www.revistatrip.com.br)

Mais atrás vão os dois “chaveiros”, que certamente seriam chamados por Luxemburgo de laterais esquerdo e direito. O “chaveiro” tem função parecida com a do “fiador”, com a diferença que trabalha mais na retaguarda do time, ou melhor, da comitiva. Diferença, aliás, que acarreta em drástica mudança no trato com o gado: ao invés de brecar o ritmo da boiada dianteira, o “chaveiro” passa a dar ritmo no gado mais fraco e lento, que para a todo momento para comer e descansar: “Boa comitiva é aquela em que o gado não para nunca, que vai comendo, bebendo e andando, sempre devagar mas em movimento”, ensina Cozido, lateral-direito, único que não bebe e, por isso mesmo, um dos peões mais procurados pelos condutores do oeste brasileiro.

E por fim, há o próprio condutor. Meio goleiro, meio zagueiro, vem atrás de todo mundo, arrastando o gado retardatário. É o único que possui visão geral da comitiva, algo extremamente importante para quem transporta país a fora quase 300 mil reais ambulantes que não lhe pertencem. De todos, é o menos brincalhão. Fala pouco, sempre através de ordens secas e diretas. Carrega nos olhos deficientes o peso de ser o único realmente preocupado dentro de uma turma de voyeurs, boêmios e junkies; no fundo, é isso que são os peões do Pantanal.

La garantia soy yo

“Já furei dois homens na minha vida: um acabou no hospital mas não morreu. O outro foi na zona. Eu tava bêbado, subi em cima do colo dele e desci a faca no peito do desgraçado”, confessa Sinimbu, enquanto gira sobre a cabeça uma estranha corda metálica que lembra uma arma da era medieval. E completa: “Mas o sujeito tinha tanta sorte que a porcaria da faca bateu no osso do peito e quebrou. Ele saiu correndo dali só de Zorba”, diz, às gargalhadas, enquanto finaliza a frase descendo o ferro na vaca mais próxima.

O arreador, como é chamado, é a ferramenta mais usada pelo pantaneiro. Espécie de chicote, a peça tem um cabo de osso como manopla, seguido de três metros de corrente de ferro, um metro de couro torcido, um metrô de couro liso e, na ponta, uma cordinha de náilon trançado. Quando estralado no ar, o náilon emite um som alto e seco, igual ao de um tiro de revólver. O peão passa o dia inteiro mirando o arreador nas ancas, barrigas e cabeças dos bois, vacas e bezerros, forçando-os a obedecer de imediato suas ordens. Quando, por erro de cálculo, o golpe acerto o olho do quadrúpede, o globo ocular salta da órbita, deixando um buraco na cara do pobre animal. A geometria que a corrente desenha sobre a cabeça do peão, seguida do movimento brusco e do forte som, parece vir de um prolongamento de seu braço. “Uma vez só vi uma briga de arreadô. Cada um em seu burro, um olhando pro outro...até que bastou o primeiro golpe para acabar com o duelo. Isso aqui é uma arma”, declara Divino. E de armas eles entendem.

Todo pantaneiro carrega nas costas uma faca de proporções açouguerianas. Ela serve pra tudo, desde aparar o alimento no prato e carnear um boi, até mesmo dar cabo na vida alheia. De tão comum na região, o “talher” já faz parte da vestimenta local. Imagine acordar todas as manhãs e, ao invés de botar a carteira no bolso, meter um facão nas costas. Assim é como peão de boiadeiro, que carrega sua “guinzo” a todo lugar, incluindo banheiros, bares, camas e redes.

Como não poderia deixar de ser, armas de fogo têm trânsito livre no Pantanal. Todos “frios” e sem registro, os revólveres fazem parte da cultura do macho. Quem não tem ou é moço novo, ou não é de lá. Nem todos, porém, o usam à vista, dependurado na cintura como caubóis exibidos. Preferem esconder a arma no arreio, para só buscá-la quando não lhes restar outra opção. Nenhum dos peões da comitiva de Milionário tinha sequer ouvido falar sobre projetos de lei de desarmamento no Brasil. Quando indagados sobre seus antecedentes criminais, desconversaram habilmente. Mas seu olhos delatavam: de um jeito ou de outro, o pantaneiro se garante.

Outsiders

O pantaneiro é uma figura discriminada na sociedade onde vive. Pelo povo da cidade, é visto como homem tosco, rude e ignorante. Pelo povo da fazenda, é tido como um sem-lei, uma ameaça à segurança de suas famílias. Quando o pantaneiro passa a noite nas fazendas, é colocado bem afastado da sede e das casas dos peões locais. Filhas e esposas são recolhidas e recebem ordens de não dar atenção aos visitantes. Mas nem por isso o pantaneiro deixa de exercer curiosidade e fascínio sobre as mulheres.

“Durante a comitiva, é só trabalho, de manhã, de tarde, de noite, de sábado e domingo, no sol e na chuva. Mas, quando termina, a gente só quer saber de beber e amar”, diz Champrinha, que, mesmo sem saber, faz das comitivas sua clínica de reabilitação. Enquanto está trabalhando, quase não bebe, alimenta-se bem e trabalha o corpo – além de não gastar um tostão. Mas quando chega na cidade, com o arreio a tiracolo – geralmente o único patrimônio do pantaneiro -, vai direto pra zona, levando no bolso todo o dinheiro que tem no mundo: exatamente o que recebeu em seu último trabalho. Quando a verba acaba, mete-se na primeira comitiva que encontra, dando assim continuidade a este incrível ciclo.

No final do milênio, e à espera de alguma grande mudança vinda do além, o homem moderno mostra-se cada vez mais frágil e distante do mundo externo. Mora em condomínios, dirige carros blindados e usa a internet como desculpa para não ter que sair do quarto para conhecer o mundo. Sabe ler, mas não procura nada de útil nos livros. Fala muito, mas diz pouco. E encontra, na rotina calculista, o esconderijo perfeito para evitar surpresas que possam atrapalhar a simetria de sua vida planejada. Enquanto isso, cabe a homens analfabetos e selvagens, como os peões boiadeiros do Pantanal, viver intensamente cada amanhecer, cada banho de rio, cada trago de pinga, cada suspiro feminino. Eles exercem, diariamente, algo que o mundo inteiro almeja mas poucos conquistam: a verdadeira liberdade.

CHAMPRINHA (FIADOR)

JAQUETA NÁILON ZAPPING –

R$ 88,00

LONG NECK

Ramón Mendes Marias, o Champrinha, trabalha como “fiador” de comitivas. Nas horas vagas, encharca o esqueleto de pinga. Quando esta acaba, Champra não se intimida e entorna garrafas inteiras de álcool Zulu: “Funciona igual, quer provar?”

SINIMBU (FIADOR)

CAMISA JEANS TIMBERLAND –

R$ 60,00

O HOMEM QUE NÃO EXISTE

Meio branco, meio índio, Sinimbu não tem RG nem qualquer outro tipo de documento que prove sua existência no mundo civilizado. Não sabe ler palavras, nem dinheiro. A ponta do dedo indicador ele perdeu ainda quando criança, aprendendo a mexer com o laço.

COZIDO (CHAVEIRO)

JAQUETA JEANS LEE –

R$ 85,00

CALCA JEANS COLCCI –

R$ 65,00

PERNA QUEBRADA

Gildemiro Francisco Terra, o Cozido, sofreu um acidente dias depois de posar para este retrato. Num rápido vacilo, sua mula caiu, aterrissando sobre sua perna esquerda. Cozido teve que resistir a três dias de comitiva com o membro quebrado, montando em burro e dormindo em rede, até chegar numa estrada e pegar carona para a cidade mais próxima.

NENÊ (COZINHEIRO)

CAMISA WRANGLER –

R$ 49,00

BURRO FORTE

Para suportar o tranco da comitiva, só mesmo burros e mulas. Mas dentre todos os perigos que o peão enfrenta, é justamente sua montaria que oferece maior risco: “Sempre que o burro vê uma oportunidade, ele te derruba. Aí é só esperar pelo coice”, ensina Nenê, o cozinheiro.

MILIONÁRIO (CONDUTOR)

CAMISA JEANS COLCCI –

R$ 60,00

STATUS

Argolas de latão têm valor de moeda no Pantanal: a pequena vale R$ 3, a média, R$ 5, e a grande, R$ 10. Podem ser usadas em diferentes assessórios no arreio e ferramentas do peão, dependendo de seu caixa. Aqui, Milionário, o condutor, exibe parte de sua riqueza.

PAPAGAIO (CHAVEIRO)

CAMISETA HERING WORLS T-SHIRT –

R$ 14,50

GUINZO

O pantaneiro carrega uma única faca, ela o serve pra tudo: “Pra calar homem desbocado, inclusive”, diz Papagaio, que abandonou a comitiva depois de se desentender com um colega.

DIVINO (PONTEIRO)

CAMISA JEANS WRANGLER –

R$ 39,00

JAQUETA SILVERTAB –

R$ 240,00

FALCON (OLHOS DE ÁGUIA)

A posição inclinada do chapéu do pantaneiro não é frescura de caipira. De cima do burro, o peão tem seu ângulo de visão cortado exatamente na linha do gado, o que o ajuda a “focar somente naquilo que interessa”. Quanto às cicatrizes na face, Divino jura que foi resultado de um tombo de burro. Já um colega de outras comitivas, conta que a marca surgiu numa noitada de sexo, álcool e sertanejo.

“Você não sabe o que é uma prostituta vingativa, com uma garrafa na mão, é capaz”, diz o amigo.

OUTRA LÍNGUA

Uma introdução à gramática do pantanês

ARREADOR – ferramenta de trabalho do peão de boiadeiro usada para tocar o gado. Feito de osso de animal, corrente de ferro e couro, o arreador é responsável por dar ritmo à boiada. Não existe modelo industrial; cabe ao peão produzir seu próprio arreador.

BROACA – caixa tipo “case”, feito de couro de boi e que serve para carregar toda a tralha da comitiva em cima do lombo dos burros.

CARNEAR – verbo usado para a prática de tirar o couro da vaca morta e cortá-la em peças gastronômicas: lombo, maminha, picanha etc.

CHUMAÇO – cueca

CHUMAÇO QUEIMADO – cueca bastante usada e que revela “brecadas” na parte traseira e inteira

DOBRO – mala de couro com roupas, rede e pertences pessoais do peão

“ESTOURO” – pavor maior do peão de boiadeiro, é usado para definir o ato de dispersão aleatória e descontrolada do gado que desembesta a correr como se estivesse no Jóquei, ignorando matas, arbustos, rios e até mesmo cercas de arame (farpado ou não). Isso pode acontecer graças a uma cobra, enxame de marimbondos ou qualquer outra coisa que assuste a boiada. Pode também acontecer graças à simples incompetência dos peões em administrar o ânimo do gado. Após um “estouro”, pode-se gastar horas, dias ou até mesmo semanas tentando reunir toda a vacada novamente: algo que quase nunca acontece, o que acarreta no fracasso imediato daquela comitiva.

MARCHA – um dia de viagem durante uma boiada

MATULA – vaca escolhida para ser sacrificada e transformada em fonte de energia para os peões durante a comitiva

TREMPI – fogão a lenha portátil anti vento ou chuva

VÉIO – refeição matinal feita da mistura dos restos da janta servida na noite anterior. Não importa se há macarrão, feijão, carne, arroz e mandioca – tudo vai para a mesma panela com um punhado generoso de banha fresca. Um must da culinária pantaneira! Calorias: 50 mil.

ZORBA - cueca

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