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26 Jan 2016  ·  by GIULIANO CEDRONI  ·  Be the first to comment!

Revista Trip - Ano 11 | Nº 65

“O USO DE RECURSOS EM EXCESSO EMBRUTECE O NOVO VELEJADOR, FAZENDO-O PERDER AS HABILIDADES QUE TEM UM JANGADEIRO. SOU APAIXONADO PELA VIDA DESSES CARAS”

AMYR KLINK

Em troca de uma pescaria que rende R$ 15, os jangadeiros cearenses enfrentam o alto mar sob o risco de se perderem, naufragarem ou trombarem de frente com uma embarcação maior. Sem bússola, GPS, radar, rádio, motor ou bóia, esses marinheiros que navegam na era virtual usam a melhor tecnologia disponível: os cinco sentidos

Texto, fotos e contrapeso Giuliano Cedroni

Meu plano de ataque quando o alto escalão da TRIP desceu a ordem (irrecusável) de que seria eu quem deveria trazer à redação uma matéria sobre os verdadeiros navegadores do mar. Aceitei na hora, mesmo porque não tinha muita alternativa. Só não imaginei que depois de sete horas navegando em mar aberto com as canelas enfiadas dentro d’água – no que seria a viagem mais surpreendente de minha vida – eu seria obrigado a passar a noite inteira à deriva, sem dormir, dividindo espaço com outros dois varões numa área flutuante do tamanho de uma mesa de jantar para seis.

Mestre Olegário Roberto da Costa, um homem robusto de 45 anos de idade, dono de um olhar distante mas nunca desatento, é do tipo de homem que cria, dirige, fotografa e atua sua própria história diariamente sem o subterfúgio de um script. Minha sorte nos próximos dois dias estava em suas mãos. E mesmo tendo o conhecido há poucas horas, por alguma razão eu me sentia seguro. É que dentro da sua arte, Olegário era genial e autêntico, e isso transmitia uma sensação de segurança que só homens muito bem preparados e ao mesmo tempo tranquilos podem emitir.

O QUE MAIS FASCINA NÃO É SÓ O FATO DA JANGADA SER FEITA INTEIRAMENTE DE MADEIRA, MAS DE UMA DÚZIA DE MADEIRAS CERTAS, TODAS MADE IN BRAZIL

Manuel já não era tão robusto assim. Nem podia. Era o filho mais velho de Olegário e por mais que soubesse muito sobre navegação, tinha sempre a figura daquele tremendo mestre à sua volta, o que lhe colocava nos olhos um toque de submissão. Suas mãos, no entanto, não remetiam a vinte e poucos anos de idade. Eram as de um trabalhador experiente e lúcido. Não demorei muito para enxergar em Mané, como era chamado, um proeiro respeitável. Quando não está amarrando cordas, dando nós, preparando linhadas e recebendo ordens, um proeiro de jangada passa o tempo todo jogando água na única vela com a ajuda de um recipiente improvisado feito de ½ garrafa de Big Coke. A função disso é fazer com que o tergal se mantenha sempre úmido, deixando o tecido “tapado”, o que maximiza  ação do vento sobre a vela. É o turbo da jangada.

Quem embarcasse com mestre Olegário e o filho repararia que apesar da estreita ligação familiar da tripulação, a intimidade entre os dois parecia dissolver-se no mar em cada milha ganha em direção à “risca”, como eles batizam o horizonte. Ali imperava a hierarquia de profissionais que não só trabalham juntos, como dependem e apostam um no outro para manter-se secos. E vivos. Dentro de casa eles são pai e filho, como em qualquer outra família, em qualquer outro lugar. Mas num cenário onde homens equilibram-se sobre uma embarcação aberta, em alto mar, sem qualquer glamour ou atenção desprendida a milhares de outros navegadores que ilustram colunas sociais, o relacionamento é outro: estritamente profissional.

VÔMITOS E AFINS

Partimos da praia de Lagoinha, reduto de jangadeiros, a 250 km de Fortaleza, às sete horas da manhã. Era sexta-feira. A praia estava cheia graças ao tráfego de pescadores. Homens rudes, moldados pelo vento e pelo sal, que usufruíam de engenhocas primitivas para garantir-lhes o sustento. Sem que ninguém precisasse pedir, desconfiados pescadores nos ajudaram a colocar a jangada na água usando toras de madeira que, uma a uma, rolavam sob a embarcação.

“Mas você não provoca não, paulista?”, me perguntou Mané.

Imediatamente desconversei e respondi negativamente à dúvida do proeiro, mesmo sem ter a menor ideia do que ele tinha me perguntado. Mais tarde, ajoelhado no convés da jangada devolvendo toda a janta da noite anterior, entendi finalmente o significado da palavra provocar (enjoar, passar mal). Mas isso aconteceu bem depois.

MÁQUINA PERFEITA

Eram passadas duas horas da nossa partida. Como fizera mil vezes antes, o mestre reencaixou o mastro de sua embarcação na posição ideal para receber o vento leste que se aproximava rapidamente. Fez isso usando apenas os braços como ferramenta. Falando assim, parece fácil, mas estávamos em alto mar a caminho de plataformas de petróleo, lugar que leva a fama de ter uma pesca mais abundante. Se algo desse errado durante aquela manobra, mestre, proeiro, jangada, eu e tudo mais seríamos arremessados ao oceano em questão de segundos.

Apesar de navegarem em águas profundas e infestadas por correntezas – as jangadas pescam lado a lado com navios centena de vezes maiores – essas embarcações não contam com qualquer equipamento de localização ou segurança. Nada que se assemelhe, do ponto de vista técnico, aos milhares de veleiros estacionados nos iate-clubes do litoral norte paulista e carioca. Nem sinal de bússola, GPS, radar, rádio, fogos de sinalização, motor de popa ou sequer uma boia. No caso de Olegário, nem mesmo um mísero relógio de pulso o homem carregava.

Construído em 18 dias pelo próprio dono, a jangada que carregava nossas vidas era feita de nomes curiosos que muito podiam ser de mulheres, homens ou lugares: Angélica, Pitiá, Jenipapo, Pereiro, Mata-matá, Cipaúba, Praíba, Freijó, Louro-vermelho, além de outros um pouco mais explícitos como Pau-ferro, Pau-branco e Cajueiro. Uma sorte de madeiras nobres brasileiras que, quando misturadas sabiamente, criam um produto único. “Uma máquina perfeita, espantosa, dona de uma engenharia bem mais sofisticada que os barcos da Whitbread, por exemplo”, afirma categoricamente ninguém menos que Amyr Klink, ele próprio, um estudioso da engenharia naval – além de glamourizado velejador solitário, que já gastou horas pesquisando as linhas, formas e funcionalidades das jangadas cearenses (Veja box no final desta reportagem).

A MORTE SOB OS PÉS

“Dois jangadeiros vieram passar a noite aqui e esqueceram-se de colocar luz”, conta Olegário enquanto remexe em uma caixinha de madeira onde guarda toda sua “fishing gear”. À nossa frente, a silhueta de uma enorme plataforma desaparecia lentamente enquanto a imensidão que nos abraçava trocava o dia pela noite. Chegamos ao ponto exato para se pescar usando apenas o vento como direção.

“Quando viram , já não dava mais tempo; o navio estava bem à sua frente e partiu a jangada ao meio”, continua ele com uma calma quase irritante. Sem perder tempo, Mané tratou logo de fixar nossa proteção antes que a correnteza do Atlântico nos presenteasse com uma caroninha até a África. Arrastou uma peça que esteve jogada entre nossas pernas desde o começo da viagem. Não dava para acreditar. Enquanto milhares de seres humanos navegam pela internet e se consideram corajosos viajantes, mesmo que virtuais, os jangadeiros ainda usam como âncora uma enorme pedra entrelaçada por três paus de cajueiro. Chamam-na de fateixa e, ao que tudo indica, ninguém por ali pensa em trocá-la por uma âncora industrial.

“Um morreu na hora. O outro conseguiu nadar durante um bom tempo até bater em uma boia deixada ali. Então ele descansou um pouco, soltou a corda e nadou, com a ajuda da boia, até uma jangada que pescava por perto”. Respirei aliviado como se o desfecho semi-trágico daquela história fosse garantir, de alguma maneira, um retorno seguro da nossa própria jangada. Mas o alívio durou pouco.

“Ele havia prometido nunca mais voltar ao mar”, completa o mestre que sempre carrega um lampião consigo nas viagens. “Mas o cabra foi teimoso e já na primeira pescaria teve um treco no coração. Quando seus colegas o trouxeram de volta, o coitado já tava duro de morto”.

Os jangadeiros vivem em permanente contato com o perigo. Além do risco de choque com embarcações maiores, a chance de perderem-se no mar é considerável. Há desde casos de homens que erram de praia até outros que nunca mais são vistos. Outra fatalidade bem comum no currículo de um jangadeiro é a virada da embarcação. Quando isso acontece, é preciso de sangue frio e habilidade para retomar a posição inicial. Não há a quem pedir ajuda.

Assim mesmo, o número de jangadeiros que padecem no mar não passa de uma dúzia por vila (de 300 habitantes) por ano. Dado este que só confirma a exímia qualidade desses navegadores brasileiros.

PESCAR É PRECISO

A pescaria começou da mesma maneira que a viagem, em silêncio. Mané e Olegário administravam duas linhadas cada um. Esturricadas tiras de peixe trazidas de casa eram usadas como isca. A ideia era primeiro pescar peixes de primeiro porte que seriam usados como isca para outros maiores. A dupla trabalhava em perfeita harmonia. O menor movimento exercido por qualquer um de nós, e toda a jangada balançava como uma grande boia.

A essa altura, Olegário já recolhia suas presas. . Com um movimento rápido dos braços, ele trazia à tona metros de uma linha fina mas que alcançava a profundidade necessária. Um pequeno e agitado ariacó submergiu para, em segundos, ser devolvido de novo ao mar. Só que dessa vez com um anzol atravessado em sua carne. A cada dez ou quinze minutos, pai e filho recolhiam as linhadas em movimentos graciosos que pareciam não exigir esforço algum. Quanto a mim, esforçava-me para conservar o que restava de minha energia vital. Bastou uma olhadela para a lua que já iluminava todo o convés, para que o mestre afirmasse categoricamente que eram dez horas da noite. Naquele momento, depois de vê-lo trabalhar durante um dia inteiro, não tive dúvida alguma: eram dez horas da noite em ponto, e nem mesmo a mulher da Telesp me faria mudar de ideia.

HOMENS COMPLETOS

Já bastante fraco e mais uma vez sem opção, entreguei-me ao mais autêntico dos cardápios de jangadeiros: biscoitos de maizena, rapadura de cana, água “doce” e refrigerante de laranja. Olegário e Mané seguiam pescando sem intervalos. Guaiúbas, penas, sapurunas, biquaras, garapaus e ariacós enchiam lentamente o saco de estopa amarrado junto ao mastro. Mas nada muito grande, somente algumas unidades de peixes miúdos. Sequer usaram da linhada mais grossa. Seria perda de tempo.

“Hoje em dia tem pouco peixe no mar e, quando tem, é tudo pequeno”, lamentou Olegário.

“Qual foi sua maior pesca?”, arrisquei.

“Já faz tempo. Saímos em seis homens para pescar de rede em uma embarcação grande, não como essa”. Ele se referia às jangadas maiores, que chegam a medir oito metros de cumprimento e contam com uma escotilha no convés que leva a um porão. Este apertado espaço, com cerca de 50 cm de altura, serve tanto para armazenar gelo e peixe quanto para abrigar os pescadores que fazem do buraco, seu quarto. Turnos intercalados de descanso são usados já que é possível viajar por até uma semana a bordo de uma dessas jangadas que, graças ao seu porte, sustentam o uso de redes. “Além dos miúdos, pegamos duas tintureiras, cinco camurupim e quatro cação-flamengo. Tinha ao todo uns 450kg de carne boa!’, relembra ele, com os olhos já a brilhar. “Era tanto peixe, que o barco não aguentou e tivemos que rebocar o maior dos cações”. Para Olegário, que não sabe ler, aqueles foram seus 15 minutos de fama. Aconteça o que acontecer, ele provara que além de exímio conhecedor da arte da navegação, era também um excelente pescador. Em outras palavras, um jangadeiro completo.

Pai e filho pescaram até a meia-noite, sem parar. Vez ou outra um deitava na bolina da jangada, ou quilha, que quando colocada no convés de maneira engenhosa faz às vezes de um precário banco. Mas mesmo enquanto deitados, os dois mantinham sempre as linhadas envoltas nos braços: descansavam até um puxão demandar a volta imediata ao trabalho.

VEIAS DE SAL

Depois da meia-noite, a vela foi içada novamente. O trajeto da volta foi traçado tendo o Cruzeiro do Sul como referencia. Vomitei um total de 5 vezes. Por umas duas horas, Olegário passou o comando da jangada a Mané e juntou-se a mim na função de contrapeso oficial da embarcação. Conversamos sobre sexo, Edir Macedo, Titanic, família, Plano Real, Ronaldinho, cantigas do mar, FHC, Aids e tudo mais que aflige o brasileiro nesses dias. A água continuava a molhar nossos pés enquanto o vento nordeste definia a marcha da jangada. Mas alguma coisa havia mudado.

Dias depois, já de volta ao caos urbano, estava confortavelmente sentado em meu carro à espera de mais um sinal de trânsito, quando finalmente compreendi: havia ganho o respeito daqueles dois pescadores que se no início me trataram como mais um turista afoito à procura de aventura barata, passaram, com o romper da aurora daquela manhã, a me fitar como um estranho que chegara mais próximo de seu universo. Senti-me extremamente orgulhoso. O farol abriu e enquanto acelerava cidade adentro, percebi que algo também havia mudado em mim: tive a oportunidade de aprender um pouco sobre a vida com homens tão cultos e raros como os jangadeiros.

Na chegada à praia, nada de recepções calorosas, aglomerações ou qualquer indício de que algo de fabuloso estivesse acontecendo. Para mim, era exatamente isso o que se passava. Depois de tudo que experimentamos, de todos os riscos e esforços investidos, de todo o conhecimento colocado em cada linhada, a embarcação conseguiu trazer de volta cerca de 12 quilos de peixe. Olegário, que passara um dia inteiro dormindo e com sorte fará no máximo mais duas jornadas como essa durante a semana, conseguirá converter a pescaria em suados R$15,00.

Entre as histórias de Jacaré e Olegário, dois legítimos jangadeiros, existe um espaço de 56 anos tumultuado por guerras, revoluções, El Niños e Copas do Mundo. Décadas em que o mundo parece ter girado mais rápido, mas não necessariamente da melhor forma. Mas para nossa sorte, nem “homens modernos” como Bill Gates, nem Dolly, a ovelha, foram capazes de tirar a vontade desses navegadores de se entregarem ao mar. São homens que sem acesso à tecnologia, desenvolveram os cinco sentidos de maneira invejável, atingindo a perfeição. Que bom seria se existissem mais jangadeiros por aí.

O navegador Amyr Klink compara jangadas a veleiros de última geração, e conclui:

WHITBREAD É FICHINHA

Uma casa simples na Vila Mariana, em São Paulo, sem qualquer pompa, serve de escritório para um dos navegadores de maior personalidade do mundo. Amyr Klink chegou de moto, atrasado, e enquanto abria espaço na bagunça de sua mesa não cessou de pedir desculpas repetidamente. Na sala, ao invés de peças decorativas de marinheiro compradas em shopping center, o que se via eram pilhas de mapas, cartas náuticas, peças experimentais de barcos e dezenas de livros que mostram que aquele é exclusivamente um local de trabalho. Na parede, algumas fotos coladas contam a trajetória daquele homem que, dentre muitas outras coisas, cruzou um oceano inteiro sozinho num barco a remo.

“Chame uma equipe de engenheiros da NASA com a tarefa de construir um barco sem usar qualquer tipo de metal e capaz de orçar 40 graus...Os caras vão boiar. A jangada é uma máquina perfeita!”, decreta um Klink empolgado num entrevista que ao contrário da maioria das que concebe, não tinha ele próprio como tema principal. Estávamos ali para falar da jangada e seus autores.

“Sou apaixonado pela vida desses caras e o instrumento que eles conseguiram fazer. O que mais me fascina não é só o fato de ser uma embarcação feita quase que inteiramente de madeira, mas das madeiras certas. Isso é de um requinte e tecnologia extremamente superiores”, emenda ele enquanto puxa livros específicos sobre jangada de sua biblioteca náutica.

TECNOLOGIA X INTELIGÊNCIA

“O grande talento do jangadeiro não está só no fato dele saber operar a jangada corretamente, mas de ser o construtor de sua própria embarcação”, declara Klink. Ele explica que o mastro de alumínio, por exemplo, é “burro” pois tem a mesma resistência ao longo de toda sua extensão. “É por isso que a Whitbread (que só aceita barcos com mastro de alumínio) é uma regata careta, babaca. É claro que existe uma cartolagem por trás disso tudo...mas o mastro de uma jangada (feito de madeira), na minha opinião, é muito mais sofisticado e inteligente que o mastro de um desses barcos da Whitbread”, completa ele. Apesar de ter acesso à mais moderna tecnologia em equipamentos náuticos, o mais famoso navegador brasileiro percebe as consequências que isso traz: “O uso de recursos em excesso embrutece o novo velejador, fazendo-o perder as habilidades sensitivas que tem um jangadeiro. Talvez ele nem saiba dos fenômenos ciclônicos e anti ciclônicos que enfrenta, mas certamente o jangadeiro sente isso graças a sua experiência no mar.”

Amyr Klink está de malas prontas para sua terceira expedição. Ele partirá no dia 27 de outubro e deve ficar quatro meses velejando ao redor do mundo, quando circunavegará a Antártida a 60 graus de latitude sul (a mais próxima possível daquele continente). Seu barco acaba de receber um novo tipo de mastro chamado “Aerorig” (inédito no Brasil e feito de fibra de carbono), e que, assim como o das jangadas, oferece uma certa flexibilidade. Amyr acredita que a jangada está fadada ao desaparecimento graças à “estrutura sócio-econômica das comunidades de jangadeiros” e à falta de sensibilidade dos governos regionais do nordeste em “perceber isso e fazer algo a respeito”. Nada a ver com a funcionalidade dessa embarcação fantástica e a competência de seus navegadores.

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