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Joãozinho 70

26 Jan 2016  ·  by GIULIANO CEDRONI  ·  13 comments

Revista Trip - Fevereiro 2004  | Ano 17, Nº 119

O MARANHENSE JOÃOZINHO TRINTA ACABA DE ENTRAR PARA O CLUBE DOS SEPTUAGENÁRIOS. PARA COMEMORAR, EM SEU 40º DESFILE, RESOLVEU COLOCAR FOGO NA PASSARELA DO SAMBA COM UM ENREDO INSPIRADO NO AMOR LIVRE E NO KAMA SUTRA. NESTA ENTREVISTA CORAJOSA, O MAIS CÉLEBRE CARNAVALESCO DO BRASIL ASSUME SUA HOMOSSEXUALIDADE. CONTA A PRECOCE INICIAÇÃO SEXUAL E DIZ COMO VENCEU A ISQUEMIA CEREBRAL PARA VOLTAR COM TUDO À MARQUÊS DE SAPUCAÍ.

Por Giuliano Cedroni • Fotografia Christian Gaul

Que linha separa a ficção da realidade? Para a maioria das pessoas, ela é clara, visível, inconfundível. Não para o maranhense João Clemente Jorge Trinta, o mais célebre carnavalesco do Brasil. Na arena disputadíssima do Carnaval carioca, foi campeão oito vezes, ficou com o vice-campeonato em cinco ocasiões e faturou em outras seis o terceiro lugar. Espécie de Zagalo do “maior espetáculo da Terra”, é o único que conquistou cinco títulos consecutivos (em 1974 e 75 com o Salgueiro e de 76 a 78 pela Beija-Flor).

O poeta Carlos Drummond de Andrade apelidou Joãozinho de “jardineiro mágico”. O escritor Carlos Heitor Cony o definiu como “logotipo do Carnaval brasileiro – ganhando ou perdendo”. Até o cineasta italiano Franco Zefirelli se rendeu ao talento do maranhense, modificando parte de sua La Traviatta, depois de assistir a um dos desfiles do carnavalesco. Um dos mais singulares artistas populares do país, Joãozinho recusa o título de gênio, mas é inegável que conseguiu reinventar sua já fantástica profissão.

Revolucionou os desfiles aumentando o tamanho dos carros alegóricos, levou pela primeira vez um casal nu para a avenida, mudou o padrão das letras dos sambas-enredos sem dar bola para os puristas e atraiu o merchandising para os desfiles, somando ao dinheiro do bicho os dólares multinacionais. Também bancou a pegada funk na ortodoxa batida da bateria e, como se não bastasse, no desfile de 2001, trouxe um astronauta da Nasa para um vôo rasante sobre a Sapucaí, numa espécie de cadeira mágica.

 

Bom de briga

Filho de família operária, nascido na ilha de São Luís – fruto de uma aventura de uma noite só da mãe, que havia enviuvado dois anos antes – Joãozinho sempre foi precoce. Aos 11 anos, já tinha lido boa parte do acervo da biblioteca pública da cidade, de Monteiro Lobato e Gonçalves Dias a Shakespeare e Pitágoras. Aos 17, sonhando com a efervescência do Rio de Janeiro da década de 50, embarcou no Ita (navio que levava migrantes do Norte até o Sul Maravilha) para virar bailarino e, depois, figurinista do Teatro Municipal. Ficou lá por quase duas décadas antes de mergulhar no universo das escolas de samba, onde descobriu a melhor forma de expressar seu talento. Peitou bicheiros e compositores, provocou jurados, atacou imprensa, criou inimigos no morro, desafiou a Igreja e foi parar na delegacia algumas vezes.

Em 96, a obsessão pelo trabalho cobrou seu preço: o carnavalesco teve uma isquemia cerebral que paralisou o lado direito do corpo. Obrigado a parar, João reviu valores e decidiu que ainda queria viver muito. Deu início a uma nova fase, mais regrada e ainda mais produtiva. A recuperação foi rápida. No Carnaval seguinte, conquistou mais um campeonato, dessa vez pela Unidos do Viradouro.

Às vésperas do seu 40º desfile – que mais uma vez provocou a ira da Igreja, agora por conta do samba-enredo inspirado no Kama Sutra – Joãozinho concedeu a entrevista mais franca de sua vida.

“Num país de praia, sol, que não tem neve, ser romântico é ser burro, pretencioso”

TRIP: Você acaba de completar 70 anos e vai entrar na Sapucaí com um samba-enredo que fala abertamente de sexo. Como se sente?

JOÃOZINHO TRINTA: Eu me sinto como quem está no pré-primário. Costumo dizer que sou um operário abrindo o caminho do divino. Divino que vem do verbo “advir” – aquilo que há de vir, que está distante mas virá. Estou sempre em preparativos, trabalhando.

Como foi sua iniciação sexual?

Desde cedo eu sentia uma atração muito grande pelos garotos. Às vezes, nem tanto pela beleza, mas pelo cheiro. Morávamos num casarão se uma família, éramos 30 crianças, , a metade meninos, todos vivendo lá. Aconteciam muitas brincadeiras [de conotação sexual], coisa de garoto. Houve uma com uma menina, mas não era o que me atraía. Tive minha experiência lá no casarão, com o João Igreja. Ele era bonito, não muito alto, dançava bem, era o tipo playboy garanhão mesmo. Todas as garotas  esperavam o fim de semana por causa dele, e eu também sentia admiração, fascínio. Tinha uma sala no casarão onde todos os garotos faziam o dever da escola. Um dai ele conseguiu me tirar dessa sala e me levou para o banheiro – claro que eu devo ter ido esperando alguma coisa, mas não sabia o quê. Chegando lá, aconteceu. Depois passei mal, e ele me levou pra deitar no quarto. No dia seguinte, já era outra pessoa. Tive medo de que ele falasse para os outros, ele dizia que ia comer minha irmã também. Foi nessa época que comecei a ter medo de gente, de autoridade. Mas ao lado dessa fragilidade, sentia dentro de mim uma força, que  me impulsionou a sair de São Luís. Não me assustei com meu homossexualismo porque, desde cedo, entendi que era consequência do meu desejo de encontrar meu pai, a parte masculina de que sentia falta.

Você acredita que o homossexualismo tem início na infância?

O correto é uma família ter pai, mãe e filhos. Eu não tinha pai em que me espelhar. Tinha um substituto dele, uma mulher poderosa, que era minha irmã mais velha, Eleusina. E a psicologia não diz que, por trás de um homossexual, tem sempre uma mulher poderosa? Foi o que aconteceu comigo. Não considero meu homossexualismo um problema, ao contrário, foi uma busca de equilíbrio. Eu procurava nos garotos aquilo que não tinha, minha parte masculina. Isso revela que minha estrutura psíquica era sadia. Por isso carrego o fardo do homossexualismo. Foi um acidente na minha vida.

Ser homossexual é um fardo?

Todo homossexual se sente com menos valia, se acha abaixo do normal, porque carrega dentro de si uma mulher que luta com ele. E ele sempre perde a luta porque essa mulher é muito mais forte. E a família não entende, a sociedade também não. Ele se sente desvalorizado porque não é o que os outros gostaria que fosse.

Nunca teve experiência com garotas?

Quando cresci e saí da fase de brincadeiras, fui apaixonado por duas garotas. Apaixonado numa dimensão muito forte – sei o que é a paixão de um homem por uma mulher. Queria ir morar no Rio com uma delas, que era filha da costureira da minha irmã. Nós dois seríamos bailarinos.

Você sempre foi discreto em relação a sua opção sexual...

Meu problema homossexual não está completamente resolvido, mas não estou ligando para soluções. Eu quero entender. Já tive relação sexual [com mulheres], mas não foi bem-sucedida. Mais cedo ou mais tarde, acho que vai acontecer de novo. Por mais que eu não esteja preparado para ter uma ereção com mulher, o Viagra vai facilitar. Isso não é mais problema. E hoje tenho essa vontade de tentar de novo. A importância do sexo é muito grande na minha vida, é uma atividade como respirar, comer, uma necessidade vital. Cada um resolve de uma maneira. Eu já tive e tenho problemas homossexuais, mas não carrego a bandeira. Não me sinto homossexual, por outro lado, não posso dizer que não seja. Então sou um homossexual que não tem certeza, que está tentando resolver. Vou ficar na parada gay? Não. Achou muito engraçado, vou assistir, mas entrar na parada não. Prefiro ficar como nos desfiles de Carnaval: assistindo.

“Não considero meu homossexualismo um problema, foi uma busca de equilíbrio. Eu procurava nos garotos aquilo que não tinha [o pai]

Você já viveu um grande caso de amor?

Já vivenciei sexo com amor e, com certeza, é melhor. Amor é uma experiência muito forte, que tenho exercitado na minha vida toda. A vida é um ato de amor, de doação constante. Neste momento está havendo um ato de doação: estou te doando a experiência de uma vida toda. Prestar atenção nessas doações é entender que a vida é um grande ato de amor. Amar é doar. Quem não se doa não sabe amar. É como na oração de São Francisco: “Amar sem ser amado”.

Você nunca foi casado nem teve filhos...

Sou sagitariano, e dizem que o signo tem dois pilares: liberdade e justiça. Eu sou assim. Nunca fui apegado à minha família, desde pequeno tentei me libertar. Nunca suportei perto de mim ninguém que me dirigisse. Nunca me imaginei trabalhando num lugar com horários rígidos. Dizem que o sagitariano abandona um pouco os amigos, porque não se fixa. Então como tenho grandes amigos? A questão é que não preciso estar junto pra gostar deles. Eles ficam no coração, na memória. Como sagitariano, também tenho muito senso de justiça. Se meu inimigo tiver com razão, vou defendê-lo. Só que eu não poderia casar nem ser fiel de jeito nenhum. Imagina eu casado, fazendo Carnaval...Minha mulher ia ficar louca! Eu não respeito horário, tenho ojeriza a prazos. Se tiver um compromisso obrigatório, eu falto. Mas, se me deixarem em liberdade, sou britânico na pontualidade. E não preciso ter filhos biológicos. Jung diz que é “muito fácil botar uma criança no mundo, difícil é colocar o mundo numa criança”. Eu já botei muitos mundos em muitas crianças, tenho uma grande família. Meu trabalho na Beija-Flor foi isso: fazer Carnaval e tocar obras sociais voltadas para crianças de rua. Eu cuidava da educação delas, são meus filhos. Se não tivesse feito esse trabalho, hoje elas estariam mortas com certeza.

Há sete anos e meio você sofreu uma isquemia cerebral que te imobilizou parcialmente. O que ficou dessa experiência?

Eu estava na cama do hospital e, de repente, pensei: “A data do meu nascimento é 23 de novembro de 1933. Nasci na ilha de São Luís do Maranhão, filho de uma viúva que tinha perdido o marido dois anos antes e já era mãe de três meninas”. Fiz as contas: se nasci em novembro, fui concebido em fevereiro! No ano de 1933, minha mãe foi brincar o Carnaval, deu uma boa trepada e me concebeu. Tenho claro na cabeça essa imagem da alegria, posso até falar de trombetas tocando. É a memória mais antiga que tenho – e suponho que seja o momento da minha concepção, o encontro do meu pai com minha mãe. Aquele flash! Porque o espermatozoide é o máximo da natureza. Não é um acontecimento ligeiro, é um universo que vai se formar. É como a explosão de uma estrela nova, deve ter muito brilho, muita faísca.

Então seu nascimento já foi uma festa...

Nem tanto. Naquela época, o que uma mulher viúva e operária poderia fazer se ficasse grávida? Abortar, me matar, se ver livre de mim. Senti isso quando estava na cama do hospital depois da isquemia, sem ter feito nenhuma análise, sem ajuda de ninguém – foi coisa de intuição. Aí entendi por que desde criança eu tinha asco da minha mãe, nojo, repudiava ela. A prova maior desse repúdio foi que eu me recusei a mamar. Apesar de tudo isso, eu era o filho de que ela mais gostava.

Como foi a sua infância?

Sou apaixonado por São Luís, minha terra. Aquela ilha, na infância, era um espaço onírico, de sonhos. Como éramos uma família pobre, lembro de brincar com formiguinhas, baratinhas, Tudo que fosse de esculpir me encantava muito: madeira, ferro, prego, fogo. Tinha uma mulher bem magra, alta, negra, que diziam, era filha de escravos. Nunca esqueci o nome: Nhá Vita. Ela nos contava histórias à noite, todas as crianças na rede -, e eu quietinho, sem dormir, aguardando as princesas e os reis chegarem. Revistei todo esse mundo em 1974, no Salgueiro, na minha estreia como carnavalesco, com um enredo sobre São Luís. E vencemos.

O que mais te fascinou na infância foram essas histórias?

Eu também ficava transtornado com música. Perto de casa tinha o cinema Roxy, que abria as sessões vespertinas tocando ópera. Quando eu tinha uns 10 anos me acontecia uma coisa muito estranha. Era só tocar ópera que, no meu umbigo, começava um movimento rotativo que eu não sabia explicar. Corria para o quarto e me trancava, não queria que ninguém visse aquilo. Coisas assim foram acontecendo, e eu não tinha possibilidade de conversar com ninguém.

Você foi o quarto filho, com três irmãs mais velhas e um caçula. Eram muito ligados?

Eu tinha uma afinidade muito grande coma  Eleusina, minha irmã mais velha. Uma mulher superdotada que, aos 14 anos, na década de 40, já era gerente de uma firma alemã. Ela me levava para visitar as casas das famílias ricas de São Luís, que a convidavam justamente porque era uma pessoa que se destacava. Ela se casou com o Carlos, que era comerciante, para nos dar uma vida melhor. Ele era um homem bom, mas não proporcionou aquela vida que ela merecia, de uma intelectual. Desde cedo havia uma identificação muito forte entre nós, que não havia com as outras irmãs. Já o Silvio, dois anos mais novo que eu, é o típico extrovertido. Ia pra rua, brigava, empinava pipa, jogava futebol. Nunca fiz nada disso. Lembro que ele usava gírias que me doíam o ouvido, como “sissica-birissica”. Me enjoava. Um dia ele repetiu tantas vezes que peguei uma banana e esfreguei na cara dele. Eu não suportava aquilo, me irritava.

“No ano de 1933, minha mãe foi brincar de Carnaval, deu uma boa trepada e me concebeu. Tenho a imagem na cabeça: alegria, trombetas tocando”

Como foi a sua formação?

Aos 11 anos descobri a Biblioteca Pública de São Luís, e esse encontro marcou minha vida. Aquele salão cheio de livros significava o universo. Depois de devorar todos os quadrinhos, Monteiro Lobato, Shakespeare, Gonçalves Dias, peguei os Versos Dourados, de Pitágoras. E uma frase saltou do livro: “Até onde a mente humana alcançar, ela vai encontrar sempre os números 1,3 e 7”. Senti que estava recordando algo que já sabia há muito tempo. Música, por exemplo: é feita de três elementos – melodia, ritmo e harmonia – que se plasmam em sete notas. Cores: branco é a síntese de todas, a primeira divisão da cor branca são as três cores básicas (amarelo, azul e vermelho), e a mistura delas vai gerar as sete cores do arco-íris. Outro exemplo: a soma de um, três e sete dá 11. Onze com onze dá 22, que os egípcios dividiam por sete e chegavam a 3,14 (o número pi). E eu entendi isso racionalmente em frações de segundo! Aos 11 anos.

Com que idade se mudou para o Rio?

Com 17. Fazia parte de um grupo de intelectuais de São Luís: Ferreira Gullar, José Sarney, Bandeira Tribulse, Cleber Fernandes e muitos outros. Eles publicavam uma revista juntos e começaram a vir para o Rio. Fiquei desesperado sozinho lá. Aí dei um jeito de vir também. Eu trabalhava numa companhia de capitalização chamada Cosmos e era ótimo funcionário. Meu patrão, vendo meu desespero de vir para o Rio, conseguiu minha transferência.

Que ano era?

Cheguei ao Rio em 51, em pleno Carnaval. Peguei o Ita lá no Norte, o navio passou por Recife e dentro estava o bloco do frevo Vassourinhas. Vim dançando o tempo todo, foi uma viagem de sonho, deslumbrante. E vou contar uma coisa que aconteceu e que tem sido uma constante na minha vida. Eu havia comprado a passagem mais barata, que ficava no porão do navio. Com uma malinha na mão, já estava passando mal com a maresia, aquele cheiro, o balanço do navio. Quando tocou o apito, pensei: “Meu Deus, meu sonho vai se realizar!”. Mas bem nessa hora chegou um oficial perguntando por João Clemente Jorge Trinta. Eu gelei: “Será que vão me tirar do navio?”. Ele pegou minha bagagem e pediu que eu o seguisse. Subi as escadas coma s pernas tremendo, sem imaginar o que poderia estar acontecendo. Lá em cima, no camarote mais luxuoso, um outro oficial se apresentou: “Sou o comandante do navio e você, por ser menor de idade, vai viajar sob meus cuidados. Vai ficar aqui”. Coisas como essa aconteceram várias vezes na minha vida. De estar no fundo do navio e, de repente, subir lá no alto.

Como era o Rio de 51?

Sinto dificuldade, hoje, de falar o que era o Rio daquele tempo. Além de ser essa cidade maravilhosa, era limpa, tranquila, sem nenhuma violência. As pessoas andavam em estado de graça, se olhavam, se namoravam. Eu tinha vindo para o Rio com a ideia fixa de ser bailarino. Procurei uma academia de dança e encontrei em Copacabana a do Eduardo Sena. Aí mergulhei num universo fantástico, uma beleza. Fiquei quatro anos assim: trabalhava na firma e dançava o resto do tempo. Em 56, fiz concurso para o Municipal e passei. Mas aí aconteceu uma coisa terrível. Eu achei que ia ser contratado imediatamente e pedi demissão da Cosmos. O dinheiro que recebi só deu pra me sustentar no primeiro mês. No segundo, não paguei aluguel e fui proibido de entrar na pensão. Aí, comecei a dormir no bonde, no último banco do bonde 11, que era a linha mais extensa e ia até o Leblon. Eu ia e voltava, passava a noite inteira ali. Também não tinha o suficiente para comer. Só comi as amêndoas da praça Paris. No terceiro mês, eu já vomitava só de olhar. Mas tinha vergonha de pedir um copo d’água, quanto mais pedir comida. Uma lembrança que trago forte até hoje foi de um dia que já estava sem forças, de tanta fome. Estava andando pela praia de Botafogo e vi uma lata de lixo que tinha um mamão. Metade de um mamão. Mas olhava para o lado e só via maranhenses. Fiquei horas esperando para ver se eles iam embora, mas sempre tinha algum maranhense por ali. Aí, fui embora sem comer o mamão. Também teve outra coisa péssima que aconteceu nessa época. Tinha um cunhado meu que estava no Rio, estudando. Quando ele soube que eu estava dançando, disse na minha cara que eu era a vergonha do Maranhão. Porque, se estudava dança, eu era veado. Aquilo me contundiu muito. Porque eu vivia só para a dança, via o mundo só através da arte. Não pensava em sexo. Não havia maldade. Já tinha apagado aquele trauma do João Igreja. De repente, recebi essa bofetada.

“O desfile de carnaval tem a mesma estrutura de uma ópera erudita. Aliás, o Carnaval é uma ópera, só que popular”

Mas você acabou sendo chamado para fazer parte do corpo de baile do Municipal...

Tive a felicidade de entrar para um templo de arte, que era o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Assisti e convivi, diariamente, coma s grandes companhias de ópera internacionais: Ballet Theatre, Ópera de Paris, Balé de Moscou, a Companhia de Montecarlo...Mas com o tempo percebi que não seria um grande bailarino por conta de minha estatura [João mede 1,50 metro] e passei a me interessar por montar espetáculos. Conheci o Fernando Pamplona e o Arlindo Rodrigues, que eram cenotécnicos do Municipal, e comecei a prestar atenção no trabalho deles. Depois, fui chefe de guarda-roupa durante uns três anos. Participei da montagem de várias óperas, como o Guarany, Aída, a Tosca...Foram o Pamplona e o Arlindo que me levaram pela primeira vez para trabalhar em escola de samba, no Salgueiro.

Você levou seu conhecimento de ópera para o Carnaval?

O desfile de carnaval tem a mesma estrutura de uma ópera erudita. Aliás, o Carnaval é uma ópera, só que popular. A ópera erudita começa com o Libreto; a escola de samba, com o enredo. Na erudita há uma orquestra; na escola, bateria. A ópera tem cenários; a escola, carros alegóricos. A ópera possuí um corpo de baile que dança, mas não canta; a escola tem passistas que não cantam, mas dão no pé. A ópera tem coral; e a escola, os integrantes das alas, que cantam. Por fim, a ópera tem personagens principais equivalentes aos destaques das escolas. Se for contar, são seis aspectos que unem a ópera erudita à popular.

Como é seu processo criativo?

Não existe método, é o somatório dos meus estudos, leituras, vivências, pesquisas que faço depois de o enredo ser definido. Se estou fazendo um enredo sobre comunicação, por exemplo, vou ler tudo sobre isso e aí solto a imaginação. Penso na Capela Sistina, que foi a primeira comunicação entre Deus e o homem, os dedos se tocando...

Já teve que criar um enredo sob pressão?

Uma vez tinha programado um enredo, mas outra escola se antecedeu e veio com o mesmo tema. Como já havia aprendido a não me preocupar, esperei surgir outra ideia. Ao entrar no banheiro de casa, ela veio como um raio: “Trevas, Luz, a Explosão do Universo!”. A teoria do Big Bang. Fiz o enredo com a Viradouro, em cores negras e violeta, e fui campeão em 97.

Qual é a sua obra-prima?

O enredo que causou mais impacto foi “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, de 1989, porque era inusitado. Eu, vindo de montagens com muito luxo, colorido, de repente abandono essa linha e crio o enredo à base  do lixo.  Quis chamar a atenção para a decadência do Rio e imaginei um enredo que convidasse a população de rua a recolher, do lixo da grande cidade, os restos de riqueza. A Igreja soube com antecedência que havia um carro alegórico com estátua de um Cristo mendigo e proibiu, com mandato judicial. A solução foi cobri-la com plástico preto com os dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós”. Repercutiu mais ainda. Esse Carnaval foi deslumbrante, empolgante, causou admiração [e deu à Beija Flor o segundo lugar].

Você acredita já ter cumprido o seu papel?

Não sinto que tenha concluído. O Brasil pode realizar a revolução mais sui generis de todas as revoluções, que seria a revolução da alegria. Minha intuição sempre me disse que, depois da energia elétrica, depois da energia atômica, uma terceira energia, chamada alegria, poderia realizar grandes eventos. A alegria ainda é uma energia desconhecida e perpassa toda a natureza. Tem o dom de curar, de manter, de engrandecer e é muito reveladora. Basta olhar para uma criança e ver a alegria pura que ela tem no olhar para vislumbrar a força da alegria. E pressinto essas energias no Brasil quando vejo, por exemplo, o Festival de Parintins; quando vejo o Sírio de Nazaré, em Belém. Ou o Bumba Meu Boi, no Maranhão. O Carnaval da Bahia, as festas do Sul, o Carnaval do Rio...São expressões deste Brasil grandioso, riquíssimo.

Sua obra é dedicada à alegria. É preciso de um pouco de tristeza para produzir tanta alegria?

Tristeza é a sombra, ausência da alegria. A tristeza está sempre me rodeando, está no fundo da minha alma. É muito difícil apagar essas experiências, que são primitivas, que estão gravadas na virgindade da alma. Ainda tenho que vive outras vidas para apagar a minha tristeza.

O famoso folião também sofre de tristeza?

Até hoje carrego uma personalidade dupla. Carrego uma felicidade que é cada vez maior, mas no fundo ainda perpassa aquela tristeza profunda, cicatrizada no fundo da minha alma. Ela só não cresce porque, agora que estou falando dela, estou desbastando essa tristeza. Não sou mais triste porque já entendi e estou olhando para a minha tristeza. Quando você encara as situações, elas enfraquecem – e isso é inteligência. Com inteligência, entendo o que é minha tristeza, e ela deixa de ser, não tem mais a estatura que tinha. É uma sombrinha, um espectro.

Já sofreu de depressão?

Nunca. Nos anos 70, fui para a Europa durante o outono, com neve caindo, estava em Luxemburgo, numa cidade linda. Eu estava nas montanhas, olhando lá pra baixo, aquele silêncio, uma tristeza muito grande. Senti de onde vinha o romantismo que eu tinha estudado; poetas que morriam jovens, de nostalgia, de pneumonia, como Castro Alves. Aí pensei, “Gente, só se pode ser romântico na Europa. Num país de praia, sol, que não tem neve, ser romântico é ser burro, pretencioso. Vai pra puta que pariu o romantismo no Brasil!”. Porque aqui não é terra para se morrer de tuberculose, é pra se viver muitos anos com muita alegria. Bye, bye romantismo. Luxemburgo vai pra puta que pariu porque eu moro no Brasil!

“Tenho uma necessidade visceral de ficar só e em silêncio. Solidão não é meu problema”

Ganhou dinheiro produzindo alegria?

Já ganhei e já gastei, mas dá pra viver. Tenho um escritório, faço palestras, promoções, eventos. Mas não me meto muito, tenho funcionários que gerenciam tudo. Meu sonho de consumo é um helicóptero, porque é como um beija-flor, levanta vôo para cima, para baixo, para os lados. Já fiz um enredo em que falava do beija-flor espacial, vou estar feliz, porquê trânsito me estressa. Jamais moraria em São Paulo.

Mas você já viajou o mundo...

Sou um perfeito sagitário: jamais serei rico, mas já nasci de maleta pronta. Em 88 fui realizar um espetáculo em Londres no Annabelle’s, o clube mais fechado do mundo. Em 98, montei uma escola de samba com tudo o que tinha direito em plena Paris. O Jack Lang [ministro da cultura da França] fez uma carta elogiando, chamando o que fiz de ópera. Eu tive contato pessoal com ele, expliquei o desfile, contei que futebol já existia na China antes de Cristo. O Jack Lang não sabia nada disso. Nessa mesma viagem, a Selminha Sorriso, que era porta-bandeira da Beija-Flor e estava lá em Paris também, veio se aconselhar comigo: “Joãozinho, que eu faço? O príncipe Albert me procurou depois do show, me levou pra um clube, passou a noite comigo”. Eu perguntei: “Você fez com ele?”. E ela: “Não”. Aí eu falei: “Mônaco está correndo o maior perigo. Se não houver um herdeiro, acaba o principado. Esse Albert já está com quase 40 anos e não mostrou a que veio. Então trepa com esse homem e tenha um filho dele! Você vai ser princesa”. Mas ela não fez.

Você também ficou muito amigo do rei Hassan, do Marrocos...

Durante 12 anos organizei a festa de réveillon do rei. Muita gente fala que conheceu Marrocos, e eu pergunto: “Qual dos Marrocos?” Porque tem dois: o de fora das muralhas e o dos palácios reais. A beleza dos palácios marroquinos nem Hollywood consegue reproduzir, são muito fabulosos. Na primeira vez que fui, com uma pequena amostra da Beija-Flor, enquanto eu discursava para uma corte enorme na noite do dia 31, o rei se levantou, e todos se admiraram, porque não é algo que um rei faz. Aí ele pegou um surdo e, na hora que a bateria entrou, começou a tocar junto. O palácio todo veio abaixo! Nesse momento, pensei: “Sou amigo do rei”. E realmente, naquela noite, ganhei um grande amigo...[João, emocionado, pede um intervalo].

Hoje as pessoas vivem atrás de fama, coisa com que você convive há mais de 30 anos. Como lida com isso?

Me incomoda porque não sinto mais a liberdade de poder sair na rua e ir a qualquer lugar. Você tem que tomar conta de você porque vê que está sendo visto, comentado, requisitado. Eu pareço deputado baiano, cumprimento todo o mundo na rua.

A solidão te incomoda?

Eu pago pelo silêncio e para ficar só. Tenho uma necessidade visceral de ficar só e em silêncio. Solidão não é meu problema.

Muitos intelectuais, quando o citam, usam a palavra gênio. Você se considera um gênio?

Gênio? Gênio eu entendo como alguém que criou coisas muito além do comum. Nós temos gênios na pintura, nas artes, na ciência...Não me vejo alcançando essa graduação. Um gênio da música tira do anda obras completas, fantásticas, grandiosas. Colaborei para construir um evento que tem hoje fama mundial, mas só ajudei nisso. E é só uma brincadeira.

“Gostaria de ser lembrado como um operário, um maçom, aquele que constrói alguma coisa, não se omite”

Como você gostaria de ser lembrado?

Gostaria de ser lembrado como um operário, um maçom, aquele que constrói alguma coisa, não se omite. Gosto da imagem do operário que gosta do que faz, constrói, cria.

Você é religioso?

Fiquei traumatizado na primeira comunhão. Haviam me dito que eu ia receber na boca uma hóstia que simbolizava o corpo de Cristo. Isso me pareceu meio confuso, mas o padre não explicou o que ia acontecer na hora. Quando ele colocou a hóstia na minha língua, eu fechei a boca, e a hóstia colou no céu da boca. Ele não tinha me avisado que isso podia acontecer, só que eu não podia mastigar nem colocar o dedo. Então fiquei com o corpo do senhor Jesus Cristo colado no céu da boca. Não podia chupar, não podia por o dedo. Foi a minha primeira experiência espiritual muito séria. Por isso não me atrevo a grandes vôos espirituais. Religião quer dizer se religar a alguma coisa que está fora do homem. Estamos desligados de tantas coisas...Do amor ao próximo, das emoções da arte, da estética, da ética.

Então você não segue uma religião ortodoxa, como a católica, o judaísmo, o budismo...

Minha religião é o que eu estou te falando, meu templo sou eu. Tenho altares, Shakespeare, Monteiro Lobato, Louise Hay [autora de best-sellers de auto ajuda], muitos altares.

Como lida com o envelhecimento?

Só depois dos 50 anos que eu vim entender que a idade trazia grandes proveitos, só a idade é reveladora, te depura. Mas no Ocidente a ideia é que a idade é catastrófica, mutiladora, é a aproximação da morte. Há milhões de pessoas carregando esse fardo, pessoas apavoradas com a idade, o que levou Jung a dizer que tem “muitas pessoas que morrem antes de nascer completamente” – especialmente as mulheres que escondem a idade. Esse pensamento negativo da idade eu tive até uns 50 anos. Mas depois da isquemia mudei os padrões da minha vida. Deixei de trabalhar tão atabalhoadamente, me organizei, comecei a me alimentar na hora certa, tomar vinho na hora do almoço, dormir mais cedo, fazer a sesta, não fazer extravagâncias. E senti meu físico renovar. Aos 70, estou me sentindo mais jovem, tranquilo, energético. E é tão simples a fórmula!

Você disse já ter tido experiências extra-sensoriais na vida. Pode contar uma delas?

Desde criança eu caminhava e sentia um perfume me acompanhando e não ousava olhar com medo de ver. Eu sentia uma presença física do perfume. Esse perfume foi se transformando; ele tinha um odor meio acre, primitivo, e pouco a pouco foi suavizando. Hoje ele se faz presente de uma maneira muito mais perfeita, e com cheiros maravilhosos que, me desculpem, não são da Terra, são de outra dimensão.

E a morte, o que imagina ser? Tem medo dela?

Medo da morte não tenho de jeito nenhum. Tenho certeza de que a morte é uma passagem e ouço dizer que há uma alegria nessa passagem, principalmente se você se prepara para ela – e eu estou me preparando. Em reencarnação, acredito totalmente. Estou muito satisfeito com a minha vida, com as minhas experiências. Carrego um tesouro, minha vida é um tesouro. Ter passado por tantas situações, coisas boas e ruins...Tenho uma vida gloriosa.

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