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26 Jan 2016  ·  by GIULIANO CEDRONI  ·  22 comments

Revista Trip - Ano 11 | Nº 58

TATUAGEM. O QUE HOJE É MODA OU VAIDADE QUE FASCINA TEENAGERS, NA PELE DE UM PRESIDIÁRIO DA DÉCADA DE 20 ERA DESTINO OU FÉ. EM SUA CARCAÇA, ERAM REGISTRADAS DESDE SUAS MULHERES E PREFERENCIAS SEXUAIS ATÉ OS POLICIAIS QUE TIVERAM A INFELICIDADE DE CRUZAR A MIRA DE SEUS CANOS. TRIP SE INFILTROU NO ARQUIVO FOTOGRÁFICO DE UM DOS PRÉDIOS MENOS POPULARES E MAIS CROWDEADOS DO PAÍS. NAS PRÓXIMAS PÁGINAS, AS TATUAGENS DO CARANDIRU.

Por Giuliano Cedroni

O ano, 1920. Data de inauguração do maior complexo presidiário da América latina, a Casa de Detenção de São Paulo. Mil prisioneiros são transferidos de outros cárceres para descabaçar o novo buraco. Entre estupradores, homicidas, estelionatários, bandidos, foras da lei das mais diversas especialidades, o médico psiquiatra de plantão resolve, por conta própria, criar uma seção de criminologia. Moraes Mello, o tal doutor, acaba se apaixonando por um tema que viria a se tornar uma fixação na sua vida: as tatuagens dos presidiários. Para felicidade dos tatoo lovers. Mello registrou e analisou mais de 3 mil imagens perpetuadas nas peles de mentes criminosas. O resultado é fascinante.

As tatuagens vão além do prazer pela estética pura. O jargão “tatua porque tá à toa” é uma das razões que levaram tantos homens pecadores à agulha. Mas existe um outro lado, bem mais interessante. As imagens delatam traços de personalidade do criminoso. Cada uma tem um significado específico, que só quem vivia no presídio flagrava. Há tatuagens que mostram quais as especialidades do detento no mundo do crime. Outras que identificam suas preferências sexuais.

Pontos tatuados na mão entre o polegar e o indicador mostram, por exemplo, de que tipo de bandido se trata. É um ponto  para o batedor de carteira, dois para o estuprador, três para o traficante, quatro e cinco para assaltantes. Dependendo da disposição dos pontos é possível ainda saber a posição na hierarquia da quadrilha. Já o coração coma  frase “amor de mãe” revela homossexualidade passiva, assim como borboletas, sereias e pontos no rosto. Para terror de parte dos detentos, nem sempre as sessões eram feitas com total consentimento do tatuado. Em alguns casos, usava-se a força. É sabido que estuprador nunca foi bem visto nos xilindrós. E é por isso que naquela época todo estuprador tinha a figura de um pênis desenhada nas costas. Isso facilitava sua identificação por todos no presídio. Ter uma tatuagem significava longos e terríveis anos de servidão sexual na cadeia.

Cinzas e saliva. As tatuagens eram feitas dentro da masmorra por alguns detentos que se revelaram verdadeiros skin artists.

Muitas das imagens eram recopiadas em braços, pernas e peitos. Diante de qualquer ateliê de tatuagem contemporânea, as técnicas eram primitivas. Como as agulhas eram proibidas dentro do presídio, os “detentuadores”  foram obrigados a improvisar. Qualquer prego ou pedaço de arame desperdiçado era afiado, escondido e usado na miúda em celas fechadas. Para dar cor aos traços já cobertos de sangue, muita tinta de caneta nanquim era usada. Na falta, o pessoal não hesitava em meter as cinzas de cigarro misturadas a muita saliva. Muita gente padeceu de infecções  por conta do contato da saliva do tatuador com o seu sangue.

Mas pelo menos do ponto de vista estético, o resultado era bastante satisfatório, TRIP mostrou as fotografias do Carandiru ao tatuador Hércoly, que além de extenso currículo no meio tem estreita relação com o tema. Quando tinha quinze anos, Hércoly se mandou para a Ilha Grande, RJ, onde funcionava um dos maiores presídios do país. Durante dois anos, centenas de presidiários passaram por suas agulhas e tiveram suas peles marcadas por este jovem que, sabiamente, fez da ilha seu grande laboratório. Ao observar o trabalho do doutor Mello, suas impressões imediatas: “Muitas dessas tatuagens não poderiam ser mais atuais. Os traços finos, tão usados na última década, estão perdendo terreno para os traços primitivos, que aparecem nessas fotografias. O bom dos traços primitivos é que eles são para sempre, nunca perdem a atualidade. Têm um efeito atemporal garantido”. As tatuagens dos presos do Carandiru de 70 anos atrás nada têm a ver com as tatuagens dos presos de hoje. Isso torna a pesquisa do doutor Mello mais valiosa ainda. “Não acredito que os presos de hoje em dia saibam o que significam as imagens gravadas em seus corpos. Na maioria das vezes, as tatuagens são feitas do lado de fora dos muros, por pura vaidade mesmo. Essa coisa de tatuagem ter um significado é do passado. O trabalho do doutor Mello é brilhante”, diz o médico Dráuzio Varella, que bate cartão há oito anos na Casa de Detenção. Todas as segundas, ele atende presidiários enfermos. Dráuzio não ganha nada por isso. Seu trabalho é totalmente filantrópico.

Conscientes ou não, o fato é que esses presidiários da década de 20 souberam maximizar um trabalho artesanal indiscutível. Mesclando a rotina crua e tediosa do submundo com uma tradição milenar polinésia, essas imagens escrevem em corpos tortos um capítulo da história de nossa sociedade. Viva a arte marginal!

A artista plástica Rosangela Rennó foi a responsável por tirar do anonimato o acervo fotográfico de tatuagens do Carandiru. Através de um trabalho de higienização e acondicionamento dos negativos – grande maioria em vidros – a artista fez uso das imagens interferindo no resultado final. Esse trabalho foi exposto em galerias e museus como o Museu de Arte Contemporânea, de Los Angeles. A revista Paparazzi aproveitou a pesquisa feita pela artista e publicou em primeira mão algumas das fotografias originais.

Agradecimentos a Esmael Martins e Maria do Carmo, do Museu de Criminologia do Complexo Penitenciário Carandiru. Colaborou Arthur Veríssimo.

FOTO 1

Nome: Antonio Vicente

Cor: parda

Profissão: carroceiro

Crime: roubo

Análise: figura religiosa feita por um companheiro de cela. Impressa estrategicamente nas costas, com o intuito de proteção. Ameniza a fúria dos policiais em espancamentos sumários. Poucos ousariam descer o cacete na cara de Jesus.

FOTO 2

Nome: Leandro José Francisco

Cor: preta

Profissão: pedreiro

Crime: roubo (reincidente)

Análise: tatuagens de cunho afetivo feitas em 1927 por sua irmã (não tatuada) e por ele próprio, na face anterior do tórax, a âncora significa esperança e proteção. O coração com punhal encravado mostra comportamento de homossexualidade passiva.

FOTO 3

Nome: José do Nascimento, vulgo “China”

Cor: branca

Profissão: oleiro

Crime: homicídio

Análise: a borboleta é usada normalmente em referencia à liberdade, mas também significa homossexuais.

FOTO 4

Nome: João Antonio de Oliveira

Cor: branca

Profissão; lavrador

Crime: homicídio

Análise: tatuagem acidental “desenhada” em um acidente com arma de fogo, na região interna do supercílio.

FOTO 5

Nome: Jorge Tiosso, vulgo “Gin”

Cor: branca

Estado civil: casado

Profissão: barbeiro

Crime: homicídio

Análise: tatuagem de cunho religioso feita por outro preso tatuado. Ícone de proteção e esperança dos presos, a imagem de Nossa Senhora Aparecida serve também como forma de amenizar pauladas de PMs religiosos..

FOTO 6

Nome: Nazil Gomes da Silva

Cor: parda

Religião: católica

Profissão: barbeiro

Crime: roubo

Análise: tatuagens feitas em parte pelo próprio Nazil entre os anos de 1929 e 1935. A caravela no coração faz referencia à liberdade. Mas o grande destaque deste dorso é, sem dúvida, o pequeno Satanás sobre o umbigo de Nazil. Geralmente esta imagem é usada por quem traz o “doce sorriso da morte nos lábios”, de acordo com o doutor Mello. A figura é frequente até hoje na pele de detentos de alta periculosidade.

FOTO 7

Nome: João de Oliveira Amaral

Cor: branca

Estado civil: solteiro

Profissão: operário

Crime: estupro

Análise: o pontilhismo da figura chama a atenção. É uma amostra exemplar de como eram feitas as tatuagens. Mulheres são as imagens mais comuns gravadas nos corpos dos detentos do Carandiru. Na maioria das vezes são referências às suas amantes e esposas mas em alguns casos representam até mães e filhas.

FOTO 8

Nome: Euclides da Rocha Brasil

Cor: parda

Estado civil: casado

Profissão: eletricista

Crime: bigamia (reincidente)

Análise: esta tatuagem foi feita por um ex-soldado, companheiro de Euclides. Sempre localizados entre o polegar e o indicador, esses pontos curiosos dizem muito. Mostram que apesar de condenado por bigamia, Euclides era membro de uma quadrilha de assalto.

FOTO 9

Nome: João de Abreu

Cor: branca

Profissão: pedreiro

Crime: roubo (reincidente)

Análise: imagens de cobra eram geralmente feitas à força em detentos considerados delatores, não confiáveis, do tipo caguetes. Por isso mesmo, as tattoos de cobras sempre aparecem em partes visíveis do corpo para que tal informação fique ao alcance de todos.

FOTO 10

Nome: João Pereira Klein

Cor: branca

Profissão: lavrador

Crime: latrocínio

Análise: corações com espadas encravadas são figuras comuns em presos tatuados. Podem simbolizar frustrações amorosas mas na maioria dos casos, indicam a homossexualidade do detento.

FOTO 11

Nome: Osvaldo Leitão, vulgo “Cabinho”

Cor: branca

Profissão: comerciante

Crime: furto

Análise: difícil imaginar homens brutos, grandes e maus carregando dizeres como este para todo lado. Mas “Amor de mãe” é uma das frases mais populares nas tatuagens fotografadas na década de 20. Simboliza o homossexualismo.

 

FOTO 12

Nome: Júlio de Santos, vulgo “Cachimbo’

Cor: branca

Profissão: saltimbanco

Crime: furto

Análise: dentre tantas figuras estampadas no corpo desse saltimbanco, existem duas cruzes, uma em cada braço. A “cruz de carvalho’ é uma forma de apresentar um bandido extremamente perigoso. Geralmente aparece nos braços e ombros.

O homem mais tatuado do Carandiru

Edouart Mautret era um francês sem religião. Chegou ao Brasil a bordo de um navio mercante e passou a ganhar a vida como saltimbanco. O Carandiru não foi sua primeira experiência penal. Antes, puxou cadeia na Argélia. O codinome de Mautret resume sua trajetória no crime: “D’Artagnan”. Como o mosqueteiro bastardo, ele comia todas. Com uma diferença: as presas não eram conquistadas na base da sedução e sim da porrada. Assim como existem homens que nasceram para o futebol e outros que parecem modelados para os 100 metros rasos, “DÁrtagnan” era craque em um tipo de crime infame: o estupro. Era considerado um dos presidiários de mais alta periculosidade do Carandiru. Por ser o mais tatuado, seu corpo virou uma obsessão para as lentes do doutor Mello. Muitas de suas tatuagens foram feitas por ele próprio em Argel. Outras, em SP. Merece atenção especial, por mais desgostoso que seja, observar a cruz rabiscada na ferramenta do crime. Morte e sexo associados ao ato de violência. O curioso é que Mautret se dizia ateu.

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